MELANCOLIA

MELANCOLIA

(Melancholia)

2011 , 136 MIN.

14 anos

Gênero: Drama

Estréia: 05/08/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Lars von Trier

    Equipe técnica

    Roteiro: Lars von Trier

    Produção: Louise Vesth, Meta Louise Foldager

    Fotografia: Manuel Alberto Claro

    Estúdio: arte France Cinéma, Canal+, Centre National du Cinéma et de L'image Animée (CNC), CinéCinéma, Danish Filminstitute, Danmarks Radio (DR), Edition Video, Eurimages, Film i Väst, Filmstiftung Nordrhein-Westfalen, Liberator Productions, Memfis Film, Nordisk Film Distribution, Nordisk Film- & TV-Fond, Slot Machine, Sveriges Television (SVT), Swedish Film Institute, Zentropa Entertainments, Zentropa International Köln, Zentropa International Sweden

    Distribuidora: Califórnia Filmes

    Elenco

    Alexander Skarsgård, Brady Corbet, Cameron Spurr, Charlotta Miller, Charlotte Gainsbourg, Charlotte Rampling, Christian Geisnæs, Claire Miller, Deborah Fronko, Gary Whitaker, James Cagnard, Jesper Christensen, John Hurt, Katrine Sahlstrøm, Kiefer Sutherland, Kirsten Dunst, Stellan Skarsgård, Udo Kier

  • Crítica

    03/08/2011 18h08

    A Melancolia de Lars Von Trier é dividida em duas partes: na primeira, superficialmente psicológica, temos um arremedo de cinema; na segunda, mais filosófica, um grande filme. Tal irregularidade enfraquece o conjunto, que versa sobre a falta de apetite interno com a vida e as reações diversas com o sentimento da finitude e da morte.

    É muito provável que Von Trier tenha se apropriado do texto Luto e Melancolia, que Freud publicou em 1917 - sendo o luto o mote do filme anterior, Anticristo, e a melancolia desta produção mais recente. Nela estão colocados conceitos que são a base de Justine, a personagem que deu a Kirsten Dunst o prêmio de Melhor Atriz em Cannes: uma mulher que encara com pesar pequenos atos da vida como escovar os dentes e alimentar-se, divorciada do mundo externo, exacerbando o ego e respondendo à realidade exterior com profunda violência.

    Mas se em Justine a melancolia se manifesta com uma indiferença pela vida, já em Claire (Charlotte Gainsbourg), sua irmã, predomina o apego instintivo por manter-se viva. Ao falar desse sentimento, o filme cresce muito não só pela natureza do tema, mas por seu tratamento cinematográfico que culmina na exuberante sequência final.

    Dois pesos

    Justine e Michael (Alexander Skarsgård) vivem um inebriante idílio. Noivos, são levados em uma limusine por ruas estreitas que terminam na mansão que abrigará a festa de casamento. Desfrutam do prazer de apaixonados que gargalham por qualquer bobagem, até mesmo pelo ridículo de tentar trafegar com um carro imenso por vias magras. Tudo é motivo para festa. Mas ao chegarem à casa, percebemos que acabamos de entrar em um quebra-cabeças que exige ir além das aparências.

    Fazer troça do casamento e desconstruir as primeiras impressões é o que Melancolia faz de melhor em sua primeira parte, construída em cima de pequenas sobras ou deslocamentos nas cenas que colocam pontos de interrogação no espectador. O sorriso de Justine é verdadeiramente feliz? Por que ela insistiu numa cerimônia requintada, caríssima e cheia de rituais que não consegue cumprir? Qual a origem da agressividade em seu comportamento?

    Von Trier é muito bruto com a câmera. Por vezes tosco, tenta laçar o espectador a todo custo com uma câmera absurdamente tremida, lembrando os momentos menos atraentes de Festa de Família. Quase um manifesto da impossibilidade de retratar uma situação tensa com uma câmera que não crie ânsia de vômito ou que permita observar a beleza do quadro.

    Outro problema dessa primeira parte é o jeito meio en passant que personagens importantes nos são apresentados. Gaby (Charlotte Rampling), mãe de Justine e Claire, é um tipo histérico que só entra para justificar o comportamento da filha depressiva. Mesmo cacoete para o pai, Dexter (John Hurt), que serve de comentário irônico sobre o que o cineasta pensa do casamento. Entre eles, o pior é Jack (Stellan Skasgard), chefe caricato de Justine.

    Se coadjuvantes importantes vão e vem, ao menos um deles é magnífico: trata-se do organizador da cerimônia (Udo Kier). Dos convidados endinheirados que participam do circo casamenteiro, ele é o único que demonstra estar estupefato com duas irmãs que considera boçais e ultrajado com tamanho desrespeito aos rituais da festa. Um discreto coadjuvante bem mais interessante do os outros.

    Pura beleza

    Se nessa primeira parte, que funciona como uma apresentação do enredo, o filme titubeia, quando passa a se concentrar na história de Claire, Melancolia atinge momentos mágicos. Como cinema, chega-se a enquadramentos lindos que aproveitam as possibilidades do scope (formato retangular).

    Além da beleza da imagem, o filme se torna mais sério e profundo ao discorrer sobre o impacto da finitude e a consciência da morte em diferentes pessoas. Quando vai se encaminhando para o fim, Melancolia torna-se cada vez melhor até chegar à sua grande cena, quando Claire e Justine orientam o filho da primeira a se esconder numa cabana imaginária que protegeria o garoto quando o fim chegasse. Lindo, terno e dolorido. O encerramento astronômico dessa sequência é justamente o que deixa a sensação no espectador de ter compartilhado um grande filme. Com o passar dos dias, porém, a poeira baixa e o alumbramento pode arrefecer.

    Ao mostrar como a melancolia pode se desdobrar em dois comportamentos diferentes, Von Trier leva uma discussão filosófica a sério criando um interessante contraponto: que bicho estranho é esse o ser humano que, se de um lado, apega-se à vida, de outro é inteiramente indiferente a ela?

    Por sua irregularidade, Melancolia é um bom aquecimento até a estreia de A Árvore da Vida, o filmaço de Terrence Malick que deve entrar em cartaz em 12/8. Dois filmes com bem-vindas aspirações filosóficas: Von Trier é mais bruto, enquanto Malick se deixa levar pela fluidez e realiza um trabalho de câmera fenomenal.

    O espectador atento às (poucas) boas opções no circuito comercial não pode deixar de assistir aos dois filmes e criar leituras entre eles e para além deles.


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