MORRER COMO UM HOMEM

MORRER COMO UM HOMEM

(Morrer Como um Homem)

2009 , 133 MIN.

Gênero: Drama

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • João Pedro Rodrigues

    Equipe técnica

    Roteiro: João Pedro Rodrigues, Rui Catalão

    Produção: Maria João Sigalho

    Fotografia: Rui Poças

    Elenco

    Alexander David, Fernando Santos, Gonçalo Ferreira de Almeida

  • Crítica

    29/10/2009 02h53

    João Pedro Rodrigues faz um cinema do choque. Primeiramente interessa a ele impor um ritmo que em Portugal, que já está mais ou menos habituado com filmes de Pedro Costa, João Canijo e Manoel de Oliveira, já é considerado lento, modorrento, chato, como querem os preguiçosos.

    Na Mostra Internacional de São Paulo, a maioria dos espectadores já se habituou com esse tipo de ritmo. Mesmo assim, existem aqueles que reclamam, falam que é tedioso, bufam durante o filme e coisas do tipo.

    Pois é justamente quando Rodrigues faz uma obra mais acabada nesse ritmo, com uma lentidão angustiante em vários momentos e sem concessões, que o público mais o apóia. Não posso deixar de considerar esse apoio como amplamente positivo. Não só porque Morrer Como um Homem é o ápice de sua carreira, como porque é de fato um belo filme.

    Isso não o isenta de ter falhado em alguns momentos. A viagem do grupo, por exemplo, constituia uma barriga até o eclipse estranho, que encheu a tela de uma tonalidade violeta, contrastando com a posição estáticanaqual todos se encontram. É um momento raro de lisergiaque casa muito bem com a viagem - mental, mas também física - do protagonista e dos que o rodeiam.

    No mais, entramos no segundo aspecto de seu cinema do choque, porque nunca ninguém filmou travestis dessa maneira tão despojada e sincera. Almodovar os filma como pessoas, sensíveis e respeitáveis, como se não houvesse um preconceito da parte de ninguém em relação a eles, deixando seus problemas aparecerem sutilmente, subordinados à trama. É a maneira mais digna possível. Mas Almodóvar é um diretor sem igual no trato desses preconceitos. Para Rodrigues é quase o contrário, o que não quer dizer que sua maneira de abordar os travestis seja menos digna. Os problemas por que eles passam são a razão de ser do filme: falta de coragem de assumir outra sexualidade; o desejo de morrer como nasceu, ou seja, como um homem; a aceitação em uma sociedade conservadora como a portuguesa; os relacionamentos amorosos explosivos e tensos; a sensação de perseguição pelo simples estar no mundo.

    É muito fácil, desde a primeira cena, a empatia com a dor de Tônia (nascido Antonio) e de seu namorado, Rosário. A amplitude com que esses personagens nos atingem parece ter sido possível apenas após os filmes de maturação do diretor, Fantasma e Odete, ambos exibidos em edições passadas da Mostra SP. Nesses trabalhos irregulares existia um ensaio, uma procura pelo tom que só se mostra cristalizada nesta obra. Um tom de lamúria, bem português, um tom de quem só consegue lutar contra a tradição que tanto pesa se for meio que em câmera lenta.

    A empatia surge também porque Rodrigues finalmente consegue extrair o máximo possível de seus atores, mesmo nas cenas em que são mais exigidos. Não é o que acontece em seus outros filmes. É o grande trunfo de Morrer Como um Homem, ao lado da câmera que se move com uma elegância incrível, como no belo desfecho no cemitério.

    Aliás, um desfecho que surpreende pela maneira com que dribla a previsibilidade e a pieguice. O espectador pode até pensar que o diretor vai perder o tom, mas isso é contornado de uma maneira que eleva tudo que havíamos visto a um outro patamar. É o tipo de desfecho que nos convida à revisão, e a repescagem pode ser uma benção para quem se dispuser a acompanhar sua última exibição durante a programação normal. Quem embarcar nesse ritmo de almas em lamento, terá uma experiência e tanto.

    Morrer Como um Homem (Morrer Como um Homem), de João Pedro Rodrigues
    - Dia 29/10 (quinta-feira), Cinesesc, 22h30 (Sessão 692)

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