NA BOCA, NÃO

NA BOCA, NÃO

(Pas Sur La Bouche)

2003 , 115 MIN.

Gênero: Comédia Dramática

Estréia: 16/01/2009

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Alain Resnais

    Equipe técnica

    Roteiro: André Barde

    Produção: Bruno Pésery

    Fotografia: Renato Berta

    Estúdio: Arena Films, Canal+, CinéCinéma, France 2 Cinéma, France 3 Cinéma, Télévision Suisse-Romande (TSR), Vega Film

    Elenco

    Audrey Tautou, Bérangère Allaux, Daniel Prévost, Darry Cowl, Françoise Gillard, Gwenaëlle Simon, Isabelle Nanty, Jalil Lespert, Lambert Wilson, Nina Weissenberg, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Toinette Laquière

  • Crítica

    16/01/2009 00h00

    À altura de Beijo na Boca Não!, Alain Resnais (Hiroshima Mon Amour) já havia feito o inusitado Amores Parisienses, no qual colocava a voz de Edith Piaf na boca de um oficial nazista e vislumbrava possibilidades de cirandas amorosas em uma Paris cantante e alegre, ainda que só na aparência.

    Não havia feito Medos Privados em Lugares Públicos, filme que está em cartaz, com bom público, há mais de um ano na cidade de São Paulo. O sucesso deste último e genial filme de Resnais fez com que a distribuidora se animasse a trazer o anterior que estava injustamente inédito em nossas salas.

    Beijo na Boca, Não! é, pois, seu filme intermediário, o projeto que vai um tanto mais longe na discussão sobre teatro e cinema do que o anterior Amores Parisienses, mas não vai tão longe no desabrochar das emoções que vemos em cena, e que veríamos chegar ao volume máximo em Medos Privados em Lugares Públicos. Nem quer ir tão longe, podemos dizer, ainda que alcance outras alturas. Trata-se de uma brincadeira musical teatral, ou uma versão mais leve e descompromissada de Melô, a obra-prima do diretor, lançada em 1986.

    Em comum com Melô, Beijo na Boca Não! tem o formato ciranda amorosa, os atores Sabine Azéma e Pierre Arditi, constantes nos filmes do cineasta desde A Vida é um Romance, de 1983 (Arditi já estava em Meu Tio da América, de 1980), e as ousadas elipses - efeito em que um acontecimento importante (ou nem tanto), não nos é mostrado, apesar de sabermos de sua ocorrência.

    As elipses dos filmes de Resnais não têm o efeito econômico da maior parte dos filmes que se vale desse recurso, mas um efeito puramente estético. Brinca-se com as possibilidades de um cenário artificial, de um estúdio, de um refletor, das pausas e entonações tipicamente cinematográficas. As elipses servem para trazer o cômico, o bufo, e nesse sentido, o empresário norte-americano vivido por Lambert Wilson (o soldado desiludido de Medos Privados em Lugares Públicos), mais próximo de Jerry Lewis do que de qualquer outro empresário visto no cinema de Hollywood, é muito beneficiado pelo recurso, mesmo quando não está em cena.

    A elipse mais radical de Beijo na Boca Não! é aquele em que Sabine Azéma (a corretora santinha/ fogosa de Medos Privados em Lugares Públicos) desmaia na cozinha ao ouvir o nome de Éric Thomson (empresário interpretado pelo engraçadíssimo Wilson). Ela desmaia na cozinha, mas não cai em um piso frio, ao lado de uma mesa ou uma pia, mas em um charmoso sofá, bem instalado na sala de estar. Elipse radical, pois falseia o lugar onde ela estava, sem tentar esconder que se trata de outro lugar para onde ela vai desfalecer. Elipse que falseia um improvável movimento, uma troca de cômodos para que ela caísse em um móvel mais confortável, que estaria ausente em uma cozinha.

    Uma curiosidade é ver como Audrey Tautou (O Código DaVinci) pode sair de sua personagem mais famosa, Amélie Poulain, e render muito bem numa chave mais cômica, além, claro, da constatação de que Resnais, ao menos neste filme, está muito mais para um tipo de cinema que se fazia nos EUA dos anos 1930 do que para a tradição do musical à francesa, com Jacques Demy (Os Guardas-Chuvas do Amor) como seu maior diretor

    Ao filmar uma opereta nos moldes das que Ernst Lubitsch (A Viúva Alegre) e Rouben Mamoulian (Ama-me Esta Noite) faziam, com leveza e capacidade de observação invejáveis, Resnais não faz teatro filmado como muitos podem dizer, ou ao menos no sentido que muitos podem pensar, mas puro cinema - o que, para outros, talvez com razão, não deixa de ser... Teatro filmado, no sentido de que o cinema é a arte que herda do teatro a encenação, princípio fundamental de sua existência, mas é intermediado por um olho eletrônico, a lente de uma câmera, também essencial.

    Alain Resnais, mesmo em uma obra leve como esta, nos leva, se estivermos dispostos, a esse tipo de reflexão.

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