Ninfomaníaca - Parte II

NINFOMANÍACA - VOLUME II

(Nymphomaniac - Volume II)

2014 , 124 MIN.

18 anos

Gênero: Drama

Estréia: 13/03/2014

página inicial do filme
  • Ficha técnica

    Direção

    • Lars von Trier

    Equipe técnica

    Roteiro: Lars von Trier

    Produção: Louise Vesth, Marie Cecilie Gade

    Fotografia: Manuel Alberto Claro

    Estúdio: Zentropa Entertainments

    Montador: Molly Marlene, Stensgaard

    Distribuidora: Califórnia Filmes

    Elenco

    Caroline Goodall, Charlotte Gainsbourg, Christian Slater, Connie Nielsen, Hugo Speer, Jamie Bell, Jean-Marc Barr, Jens Albinus, Jesper Christensen, Michäel Pas, Nicolas Bro, Omar Shargawi, Shia LaBeouf, Sophie Kennedy Clark, Stacy Martin, Udo Kier, Uma Thurman, Willem Dafoe

  • Crítica

    12/03/2014 18h03

    "Eu não consigo sentir nada!!" Foi com essa frase que Lars von Trier cortou o Volume I e qualquer prazer que poderia existir em Ninfomaníaca. Agora, na segunda parte, voilà: deu vazão à toda insensibilidade germinada anteriormente e finalizou um retrato da sociedade contemporânea de forma ímpar.

    Enquanto os corpos estão expostos em carne viva ao longo das duas obras - na escatologia provocada pela loucura, nas marcas de dor desenhadas pelo masoquismo -, as almas estão profundamente secas como árvores no inverno.

    A primeira parte se atém com afinco às raízes da protagonista, enquanto este desenrolar tem mais movimento para alcançar o desfecho. Começa do amanhecer de Jerome (Shia LaBeouf) e Joe (Stacy Martin) após a primeira noite de amor e percorre a relação quase infantil do par, durante a qual a personagem tenta voltar a sentir algum prazer.

    A transição para Charlotte Gainsbourg no papel principal ocorre de forma abrupta, mas muito bem colocada para expressar sua "maturidade". A jovem Joe sorria. Já mais velha, fecha-se em si mesma e no tal egoísmo feminino indicado em Anticristo, tanto que há referência direta à emblemática cena da criança caindo da janela.

    Mas não se engane com a suposta ideia de misoginia semeada no início da trilogia da depressão (composta por Anticristo, Melancolia e Ninfomaníaca), quando acusaram o diretor de jogar os males do mundo nas mulheres.

    Em Ninfomaníaca - Volume II, Joe segue relatando sua história a Seligman (Stellan Skarsgård) e logo de cara conta sobre uma visão mística que teve durante a primeira masturbação. Acreditou ter encarado duas santas, entre elas, Virgem Maria. O ouvinte ironiza e destaca o fato de a personagem ter visto a representação da ninfomaníaca Messalina e da maior prostituta da Babilônia.

    Essa eterna caça às bruxas do prazer feminino, pelo qual mulheres são julgadas como santas ou devassas segundo a expressão de seu desejo, definitivamente não foi obra de von Trier.

    Fica mais claro ao longo desta parte que o cineasta coloca o espectador no lugar de Seligman - o homem feliz, de bem, cheio de pudores e com incríveis teorias para interpretar qualquer questão. Mas, outro mérito do longa, é não colocar Joe no superficial lugar de heroína; suas contradições parecem deixá-la tão imersa quanto o outro num profundo jogo de hipocrisia.

    Os personagens travam um embate sem fim entre opostos: Deus e o Diabo, castidade e sexo, felicidade e sofrimento, masculino e feminino. Tudo isso numa mistura sem fronteiras como se os dois fossem apenas aspectos exagerados de um mesmo sistema.

    Joe narra suas tentativas de recuperar a sensibilidade principalmente por meio do masoquismo. A violência sistematizada pelo jovem K (o excelente Jamie Bell) a várias mulheres é cruel, doentia, assim como o ambiente hospitalar que a reveste. O personagem mais famoso com essa alcunha reside em O Processo, de Franz Kafka. Não há de ser mera coincidência, ainda mais com a ênfase dada aos sistemas de violência implicados no filme.

    Ninfomaníaca - Volume II também se aproxima mais dos problemas de comunicação. A tão divulgada cena do ménage à trois envolve a falta de palavras e uma tentativa de entendimento por meio do corpo, algo que faz muito sentido no cerne da trama.

    Já na discussão entre Joe e Seligman sobre hipocrisia, a personagem de Gainsbourg fala sobre tabus e como a sociedade acredita se livrar do mal extirpando apenas as palavras. Livra-se da forma, da fala, mas o conteúdo permanece logo abaixo da superfície. 

    O ótimo Willem Dafoe entra em cena para direcionar a suposta perversidade de Joe a uma finalidade corrompida. Se, na primeira parte, a personagem domina os demais, na segunda, é dominada, vira um instrumento nas mãos dos homens. Um discurso sobre a liberdade sexual feminina precede justamente um desfecho que resume perfeitamente o machismo. 

    Com atores impecáveis, um roteiro profundo e bem filmado, Lars von Trier talvez tenha feito a obra que melhor traduz os dias de hoje, jogando luz ao debate sobre gênero, moralismo e sexualidade, além de enfatizar a apatia angustiante da busca excessiva por prazer.

     

    + Análise: Lars von Trier, Carax, Bowie e a falta de amor

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus