O FIM DA PICADA

O FIM DA PICADA

(O Fim da Picada)

2008 , 80 MIN.

18 anos

Gênero: Terror

Estréia: 21/08/2009

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Christian Saghaard

    Equipe técnica

    Roteiro: Christian Saghaard

    Produção: Christian Saghaard, Jorge Guedes

    Fotografia: Janice D’ávila

    Estúdio: Cinerama Filmes

    Elenco

    Analú Silveira, Cláudia Juliana, Edu Guimarães, Ricardo De Vuono, Sandro Acrísio, Thais Pavão

  • Crítica

    17/08/2009 07h00

    O Fim da Picada é um filme de invenção. A afirmação pode ser clara para alguns, mas peço licença para uma pequena introdução sobre o assunto, antes de começar a falar mais especificamente sobre o primeiro longa-metragem de Christian Saghaard.

    Vamos voltar no tempo e sintonizar o Manifesto do Cinema de Invenção do crítico e cinepoeta Jairo Ferreira. No seu ensaio/ inventário sobre cinema experimental, compartilha suas vivências e, a partir de suas referências, defende a invenção como seu cinema. No Manifesto, publicado no livro Cinema de Invenção, quase 15 anos depois da efervescência surgida no Cinema Marginal, Ferreira elenca, em 11 tópicos místicos, os portais para sintonizar esse cinema. Mas o número sete é peculiar em seu simbolismo.

    VII
    Cinema do (G)rito. Cinema (Nô)made.
    Novas percepções no horizonte do (im)provável.


    O Fim da Picada
    começa com uma orgia numa praia deserta no ano 1850, antes mesmo da visão do ritual que acontece. A primeira cena causa um misto de curiosidade e impacto: uma vagina em close com o número 7 marcado. O impacto pode virar repulsa ou sadismo, quando revela do que se trata, mas a curiosidade diante da pergunta "Se o filme começa assim... como será que ele acaba ou o que vem depois disso pode ser pior?" fica ainda maior.

    O protagonista Macário (Ricardo De Vuono), livremente inspirado em Macário, de Álvares de Azevedo, sobe a serra rumo à cidade de São Paulo. Numa taverna, após muitas jarras de vinho, Macário encontra Exu-Lebara, entidade do Candomblé - no filme, representante de Satã.

    Mais vinho, delírios, Macário pede que ela o leve à cidade. Ela aceita, mas o engana e a São Paulo que o protagonista vagará é contemporânea, com personagens bizarros, malditos, tão perdidos dentro do cotidiano perturbador quanto aquele homem.

    O filme pode ser considerado terror porque contém algumas construções de linguagem do gênero. Mas beira o absurdo, pois no universo fantástico da narrativa, Saghaard trabalha com a alegoria. Resgata e resignifica símbolos do candomblé com sua Exu, Mulher, a figura do maldito, a atmosfera ultra-romântica, o folclore brasileiro com Saci-Pererê e a magia para os inserir no caos sem tempo de São Paulo.

    O Fim da Picada
    dialoga com a forma anárquica, onírica e debochada do inventário do absurdo na metáfora da criação do Brasil de João Silvério Trevisan, em Orgia ou o Homem Que Deu Cria, e na constante reafirmação do caos do mundo de O Bandido da Luz Vermelha, reverberando na frase proferida por seu anti-herói “O terceiro mundo vai explodir! E daí?”, na cena final da obra-prima de Rogério Sganzerla.

    Como bom antropófago, Saghaard usa suas referências em benefício da construção do seu universo cinematográfico e contextualiza-as em seu mundo. Num exercício radical de “novas percepções no horizonte do (im)provável”. O registro de quão absurda pode ser aquilo que chamamos de realidade. A crítica visceral é aberta e não se fecha no espectador.

    O Fim da Picada é um filme difícil porque incomoda, faz ruminar e talvez enxergar mais coisas em comum com os nossos “demônios” de cada dia, que normalmente têm muito mais a ver com a gente do que gostaríamos de admitir. Um filme para ser visto com olhos, ouvidos e sentidos abertos.




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