Críticas

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O MENINO E O MUNDO

(O MENINO E O MUNDO, 2013)

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15/01/2014 13h02
por Cristina Tavelin

Várias vozes

"Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos", já diria Ney Matogrosso na música Sangue Latino. A história que segue em nosso sangue - nós que somos os "outros" do mundo - levou Alê Abreu a conceber o documentário Canto Latino. No processo de desenvolvimento dessa ideia, surgiu a figura principal de O Menino e o Mundo e o projeto mudou de rumo, transformando-se em ficção. 

Há três anos, o diretor de Garoto Cósmico realizava a busca para compor uma animação baseada nas canções de protesto dos anos 60 e 70, na mensagem entoada por vozes fortes como as de Victor Jara e Violeta Parra. A percepção desse cenário e os caminhos dessa pesquisa o levaram a construir o ambiente de seu trabalho que chega aos cinemas.

Traços de lápis de cor desenham a história de Cuca, menino que vive no interior e se vê perdido quando o pai vai embora atrás de emprego. Envolvido por um ambiente miserável e pela lembrança do afeto, passa a sonhar com o reencontro até ser carregado pela brisa, sempre guiado pelas cores emitidas nas notas de uma flauta.

A trilha sonora composta especialmente para a animação traz um tom folclórico que funciona bem, apesar de o tema principal tonar-se repetitivo. Vai de GEM - Grupo Experimental de Música ao rap do Emicida.

Apostando na estética minimalista e colorida, apenas com o suporte necessário dos instrumentos da era digital, a trama levada à tela surpreende pela profundidade que consegue extrair do simples. Exatamente o efeito inverso de grande parte das produções de Hollywood: vazias, mesmo com tantos recursos.

Metáforas da América

Em seu percurso, Cuca encontra figuras centrais no desenvolvimento subjetivo e social da trama: um velho doente que tenta fingir disposição para manter-se na lavoura; e o jovem operário de uma fábrica, exausto de tanto trabalho. Por meio deles somos apresentados à hostilidade do "mundo lá fora", levados de volta à face do indivíduo antes deste ser transfigurado na massa.

Na lavoura, a velhice e o esquecimento consomem. Na capital globalizada, a crítica em relação ao trabalho mecânico e desumano mostra-se incisiva. Recortes de revistas e jornais misturam-se ao lápis para compor uma cidade caótica e fria por baixo da ordem imposta à força da necessidade. Uma opção esteticamente criativa com efeito marcante.

Os personagens deste mundo têm um idioma próprio, ótima ideia para aproximar o espectador do estranhamento causado em Cuca no contato com o desconhecido. Além disso, as formas longilíneas, rostos com olhos cortados e sem boca causam certo incômodo. Suas expressões estáticas e extremamente similares ganham força pelo contexto.

As passagens noturnas também têm destaque ao serem mostradas em neon, em negativos, nas cores vibrantes traçando caminhos pelo plano de fundo negro. E há muita beleza na representação simbólica. Numa das passagens mais bonitas e poéticas, um pássaro formado pelas cores vindas de instrumentos musicais é abatido pela ave representante da grande corporação. Som e imagem integram-se em um novo sentido.

Animação não é um estilo voltado às crianças. Longe disso. Apesar de atrair parcela considerável de público infantil, o alcance criativo possibilitado pelos traços vai longe - pode e deve ser explorado em diversas vertentes. Felizmente, o cinema nacional ganha uma obra de altíssimo nível com O Menino e o Mundo, onde o atual conceito de desenvolvimento é questionado por meio de um olhar ao mesmo tempo inocente e revelador.

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