O SEGREDO DE VERA DRAKE

O SEGREDO DE VERA DRAKE

(Vera Drake)

2004 , 125 MIN.

Gênero: Drama

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Mike Leigh

    Equipe técnica

    Roteiro: Mike Leigh

    Produção: Simon Channing Williams

    Fotografia: Dick Pope

    Elenco

    Adrian Scarborough, Daniel Mays, Heather Craney, Imelda Staunton, Peter Wight, Philip Davis

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Os filmes de Mike Leigh (Agora Ou Nunca) costumam ser tristes e O Segredo de Vera Drake não é nada diferente. Só que é mais real ainda: além do diretor sempre escolher para seu elenco pessoas comuns, este filme ainda é inspirado em um fato verídico, acontecido na Inglaterra de 1950. Por isso, se você não quer ficar triste, fuja deste filme. Que, de qualquer forma, é recomendável por ser tão simples e tocante.

    A Vera Drake do título é vivida pela ótima Imelda Staunton. Provavelmente uma das pessoas mais doces do mundo, Vera é mãe de dois filhos - o extrovertido Sid (Daniel Mays, o namorado truculento de Agora Ou Nunca) e a tímida Ethel (Alex Kelly) - e vive um casamento feliz com George (Richard Graham). A família Drake é feliz no meio de sua miséria. Sempre contando as moedas, Vera administra essa família e ainda consegue ajudar sua mãe doente e os conhecidos da família mais necessitados. Além de doce, Vera parece ser uma mãe de família como outra qualquer. Mas eis que, aos poucos, Leigh nos mostra outra atividade da protagonista: Vera faz abortos caseiros. Ela não cobra nada por eles e há vinte anos faz isso para ajudar as meninas que não podem criar seus filhos, como ela mesma diz. Vera não gosta nem de usar a palavra "aborto" para definir essa sua atividade, que é desenvolvida paralelamente ao papel de dona de casa. Paralelamente e em segredo, pois trata-se de uma prática ilegal na época (o aborto só foi legalizado na Inglaterra quase vinte anos depois deste episódio), porém requisitada graças à grande quantidade de jovens despreparadas que ficam grávidas.

    Usando uma seringa, desinfetante, sabonete e água quente, Vera visita as meninas - agendadas por Lily (Ruth Sheen) - para ajudá-las. Aos poucos, o diretor revela a figura que Vera representava para essa sociedade. Paralelamente, ele nos mostra que os hospitais já faziam abortos em troca de dinheiro. Ao mesmo tempo, condenam a prática de pessoas como Vera, especialmente quando uma intervenção dá errado e a menina quase morre. É quando a atividade de Vera é descoberta pelas autoridades e, conseqüentemente, por sua família. Uma curiosidade é que nenhum dos atores envolvidos, exceto por Imelda Stauton, sabia que se tratava de uma história sobre aborto, a não ser quando seus próprios personagens descobriam. O ema do filme não poderia sair dos sets - os atores ficaram proibidos de contar aos mais próximos sobre o que era o projeto.

    O Segredo de Vera Drake é um filme que vai se revelando aos poucos. Sem levantar a questão da legalização do aborto, ele mostra a hipocrisia na qual a sociedade sempre esteve inserida, independente da época ou do local. Quantas pessoas como Vera Drake ainda não existem? Na Inglaterra ou mesmo no Brasil, há pessoas que tentam fazer o bem (pelo menos pensam estar fazendo isso) e ainda são condenadas quando descobertas. Trata-se de um assunto pertinente não somente na década de 50, mas até hoje. E provavelmente sempre será. A questão do aborto, focada em O Segredo de Vera Drake é apenas uma ponta do que é a hipocrisia em nossa sociedade. Porque alguém tem de fazer o trabalho sujo, não é mesmo?

    O Segredo de Vera Drake é sensível a ponto de tocar qualquer um. Além de um bom roteiro, o filme ainda traz belíssimas atuações, com destaque a Imelda Staunton, cujo trabalho rendeu indicação ao Oscar e prêmios no Festival de Veneza, European Film Awards, BAFTA e no British Independent Film Awards, entre outros. O roteiro, inclusive, não existiu, já que o longa foi filmado sem roteiro mesmo, que teve de ser escrito para ser enviado à Academia para concorrer ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Tantas dificuldades para produzi-lo acabaram fazendo com que se tornasse honesto. Há tanto sofrimento nos olhos dos personagens de O Segredo de Vera Drake, tanta verdade em cada cena que todo esse exercício de direção de atores feito por Leigh deu certo. O orçamento do filme era tão apertado quanto o de Vera Drake, veja só. Inclusive, a produção teve de cortar uma semana de filmagem por que o dinheiro havia acabado. Além disso, por não ter dinheiro para comprar os direitos de músicas para a trilha sonora, os personagens vivem cantarolando. Trata-se de um filme sobre pessoas comuns. Não há gente bonita, não há situações mirabolantes nem grandes surpresas no roteiro - tudo que é surpreendente aos personagens nós já sabemos de antemão. Exatamente por isso, O Segredo de Vera Drake é honesto como poucos filmes, tocando o espectador forma verdadeira. Seu fim não importa, mas sim o que ele proporciona ao espectador.

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