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O VENCEDOR (2010)

(The Fighter, 2010)

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13/01/2011 16h31
por Heitor Augusto
Em O Vencedor, a direção de David O. Russell nos convida a entrar na vida do boxeador Micky Ward e compartilharmos sua desestruturada família. Supomos como a história vai terminar, mas é espantosa a habilidade de O. Russell em dirigir uma viagem cinematográfica.

Franco Zeffirelli tentara fazer o mesmo com o O Campeão (1979), mas não encontrou o tom e seu filme se tornou um dramalhão sobre um boxeador decadente. O. Russell demonstra como realizar um longa emocionante e caloroso sem sequer aproximar-se do apelativo ou do exagero. O Vencedor usa os temperos certos para a sua receita: contar uma história onde a família é, ao mesmo tempo, abnóxia e daninha.

"Irish” Micky Ward (Mark Wahlberg) é uma promessa do boxe que não consegue vingar. A culpa, em parte, é de seu irmão mais velho, Dicky (Christian Bale), ex-boxeador que perdeu a carreira para o vício do crack, e Alice (Melissa Leo), mãe sem estrutura alguma para a função.

Dicky e Alice deveriam ser a impulsão para a carreira de Micky, mas acabam funcionando como freio de mão. Laços familiares, nos lembra O Vencedor, são realmente complicados. É difícil encontrar a medida certa entre a proteção e a exploração, o amor e o controle, o benéfico e o maléfico, a distância ou a aproximação.

Logo na sequência inicial, Mickey e Dicky pavimentam o asfalto num dia qualquer de trabalho. Em seguida, começam a boxear como velhos amigos e algumas pessoas chegam. Estamos bem próximos desses dois camaradas, que descobriremos irmãos, mas a câmera recua em acelerado travelling e nos pede para assistir, ao menos por enquanto, com um pouco de distância.

O que David O. Russell faz é primeiro indicar o caminho para observarmos com atenção essa família, para depois narrar a partir da perspectiva de cada um. Quando somos Dicky, fantasiamos que um canal de TV está fazendo um documentário sobre a volta do ex-boxeador aos ringues.

Ao adotarmos o ponto de vista de Alice, sentimos a dificuldade de ser uma mãe neurótica e expressamos amor da pior maneira possível. Se encaramos como Charlene, ficamos espantados com a loucura que é a família de seu namorado, Micky. Finalmente, se incorporamos o ponto de vista do protagonista, só queremos que todos nos deixem em paz e entrem num acordo.

O Vencedor nos aproxima para, em seguida, nos distanciar dessa família. Depois, contamos/sentimos essa história de acordo com o ponto de vista de cada um. Ao entendermos que todos têm razão, mas nem por isso deixam de ser nefastos, voltamos a observar com distância. Impossível não se deixar conduzir por essa narrativa cinematográfica.

Dentro da indústria de cinema americana, cada vez menos disposta a correr risco e investindo em filmes sem lastro, David O. Russell conseguiu o que Jason Reitman já lograra: contar, na superfície, uma história de superação, tema caro ao imaginário norte-americano, para, na verdade, discutir, com distância e aproximação, algo mais sério que, no caso desse filme, está nas relações familiares.

Em tempo: merece uma menção a caracterização de Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams em seus respectivos personagens. Especialmente Bale, exímio na postura corporal, embocadura, sotaque e olhar flamejante de alguém que perdeu tudo que poderia ter sido.

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