ONDE A CORUJA DORME

ONDE A CORUJA DORME

(Onde a Coruja Dorme)

2010 , 72 MIN.

Gênero: Documentário

Estréia: 02/11/2012

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Márcia Derraik, Simplício Neto

    Equipe técnica

    Fotografia: Mauro Pinheiro Jr

    Estúdio: Antenna, TV Zero

    Distribuidora: RioFilme

  • Crítica

    27/10/2012 15h00

    Na trajetória dos grandes compositores e intérpretes de samba, Bezerra da Silva costumeiramente fica em segundo plano. Com um estilo que foge do samba-canção e está mais próximo ao partido alto, parece que a História reservou a ele o posto de “figura folclórica”.

    Um perigo, pois o paternalismo mora ao lado da cordialidade e da conciliação. Por isso, é importante um filme como Bezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme: tirá-lo do limbo do sub-samba e posicioná-lo no pelotão de elite do morro e do asfalto.

    Mas o documentário Márcia Derraik e Simplício Neto não é apenas “necessário”. Trata-se de um baita filme, que alinhava uma cadeia de personagens que está por trás da música de Bezerra. Uma realidade bem distante da zona sul carioca, com outros códigos de conduta e culturais: a baixada fluminense.

    Algumas razões que me motivam chamá-lo de um baita filme. A primeira é a completa ausência de acadêmicos para “ratificarem” que aquela música vinda do morro é de boa qualidade. Não há sabedores ou, como me disse uma vez Heitor dos Prazeres Filho, “esse povo que quer entender o mistério do samba sem vir ao morro”. Os protagonistas de suas próprias músicas problematizam suas composições.

    A segunda grande qualidade de Bezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme é justamente descobrir onde a coruja, se entendermos o termo como sucesso, está. No filme, Bezerra é um instrumento que empresta prestígio para uma balaio de compositores se equilibram entre o trabalho do dia a dia e a música.

    Técnico em ar-condicionado, carteiro, encanador, camelô e outra penca de ocupações. É desse mundo que vem o que Bezerra canta. Prestar atenção em quem está atrás dele é adentrar em uma organização muito diferente da política, amizade, sobrevivência, inspiração, amor, falta de comida. Da malandragem, do mané e do cagueta.

    Essa estrutura do documentário leva a sua outra terceira qualidade: explicar Bezerra sem ser didático. Por priorizar claramente quem produz o discurso, e não quem está de fora, nos proporciona compreender como o que Bezerra e seus compositores produzem estão inseridos em um tempo e um lugar. Uma linha de argumentação que rende ótimos frutos antropológicos (e musicais), a exemplo de Cartola – Música Para os Olhos e O Homem que Engarrafava Nuvens.

    Não precisa muito para entender Bezerra, Carola, Humberto Teixeira ou Luiz Gonzaga. Basta apenas escutar a crítica que concilia bandidagem com as autoridades, a culpa cristã, o homem nordestino e o lugar de onde veio, alguns dos sentimentos que os quatro cantores e compositores acima despertam em suas canções.

    A grande força de Bezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme é olhar para as pessoas certas e nos permitir ouvir com atenção qual o significado do que eles cantam. Aí, a Academia só serve de apoio à verdade popular.

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