ÔNIBUS 174

ÔNIBUS 174

(Ônibus 174)

2002 , 128 MIN.

Gênero: Documentário

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • José Padilha

    Equipe técnica

    Produção: José Padilha, Marcos Prado

    Fotografia: Cesar Moraes, Marcelo Duarte

    Trilha Sonora: João Nabuco, Sacha Amback

    Estúdio: Zazen Produções

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Pode não ser o melhor, mas certamente Ônibus 174 é um dos mais emocionantes documentários brasileiros desta nova safra (que inclui Janela da Alma, Edifício Master, Rocha que Voa e vários outros). Trata-se de um violento soco no estômago de todo e qualquer brasileiro. A primeira cena é um longo plano seqüência tomado de um helicóptero que mostra, em poucos minutos, o descalabro da desproporção de renda da cidade do Rio de Janeiro (e, conseqüentemente, do País). No mesmo vôo, sem cortes, o espectador vê a imensidão da favela separada por poucos metros das mais luxuosas mansões. Ainda sem cortes, a câmera prossegue seu vôo até o centro da cidade e dali para o bairro do Jardim Botânico, local onde se desenrolaram os trágicos acontecimentos de 12 de junho de 2000, envolvendo o ônibus 174 que iria para Humaitá. Iria.

    Naquela tarde, o ex-menino de rua Sandro Rosa do Nascimento, de 21 anos, seqüestrou o ônibus, tomou os passageiros como reféns e durante horas forneceu todos os elementos necessários para que várias chagas da desorganização brasileira fossem expostas para todo o Brasil, ao vivo, via Embratel. Cuidadosamente, o filme Ônibus 174 investiga não apenas o fato em si, como também suas causas e desdobramentos. Baseado em impressionantes imagens das televisões que cobriram a tragédia, documentos oficiais e corajosos depoimentos, o cineasta carioca José Padilha, que já trabalhou para a National Geographic Television, toma o cuidado ético e jornalístico de ouvir todas as partes envolvidas. Colhe depoimentos importantes de policiais (alguns preferiram não ser identificados), de ex-meninos de ruas colegas de Sandro, de sua mãe adotiva, da tia que o criou, de jornalistas que testemunharam o caso, de reféns que viveram de perto toda a situação e até de um criminoso foragido. De passagem, mostra a situação do sistema carcerário do Rio e das crianças de rua que povoam os semáforos do País.

    Ao final de mais de duas horas de projeção, Ônibus 174 deixa um gosto extremamente amargo na platéia. O total despreparo da polícia, a preocupação maior das autoridades com o televisionamento do caso, a incompetência generalizada de todos os envolvidos, a invasão selvagem dos populares quando o seqüestro finalmente termina, a pobreza crônica, o abandono total, tudo leva à conclusão que é sorte – muita sorte – o fato de não haver um “ônibus 174” por dia, em todas as cidades grandes deste País. O filme mostra claramente que vivemos sobre um gigantesco barril de pólvora prestes a detonar um ônibus por hora, se preciso for.

    Ônibus 174 foi escolhido pela Associação Internacional de Críticos de Cinema como o Melhor Documentário do Festival do Rio BR 2002 e da 26ª Mostra de São Paulo.

    4 de dezembro de 2002
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. [email protected]

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