Pôster de Os Dias com Ele

OS DIAS COM ELE

(Os Dias com Ele)

2012 , 107 MIN.

Gênero: Documentário

Estréia: 24/04/2014

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Maria Clara Escobar

    Equipe técnica

    Produção: Paula Pripas

    Fotografia: Maria Clara Escobar

    Estúdio: Filmes de Abril

    Distribuidora: Vitrine Filmes

  • Crítica

    22/04/2014 21h22

    Maria Clara Escobar teve uma ideia audaciosa: passar alguns dias com o pai ausente desde a infância para tentar conhecer minimamente essa figura tão complexa. Dramaturgo, filósofo e militante de esquerda, Carlos Enrique Escobar sofre de cirrose e não tem recursos para tratá-la. Assim, aguarda a morte em companhia de seus gatos numa casa onde se autoexilou em Portugal.

    Sim, a ideia da jovem diretora foi boa. Tanto que Os Dias com Ele venceu a 16ª Mostra de Tiradentes. Mas, para além de conceitos abstratos e dos meandros da forma documental, há uma pretensão artística mal direcionada que o transforma em uma obra irregular. E apesar de ter sido tão bem recebido pela critica intelectualizada, vamos nos ater ao filme, e não ao consenso.

    O longa consiste em uma câmera ligada e diálogos exibidos sem edição na maior parte do tempo. Se, no início, há um efeito revelador das fragilidades de um personagem intelectual, no decorrer das filmagens tem-se a impressão de um trabalho não terminado.

    O processo é interessante para quem faz cinema, especialmente para os documentaristas, pois revela as dificuldades de um trabalho inserido literalmente na esfera pessoal da cineasta. Mas a repetição exaustiva de todas as rebarbas das cenas torna o todo cansativo.

    Maria Clara tentou rever os silêncios de uma relação particular dentro do silêncio histórico da ditadura militar, como a própria diz. E Escobar rebate essa fala de forma contundente: "Tenha coragem de dizer aonde você quer chegar". Suas explicações sobre os motivos de fazer o filme parecem, na maioria das vezes, uma tentativa de legitimar a grandeza da própria obra.

    E pelo experimentalismo insistente com tom de inovação, não há ritmo fluente. Talvez se mais momentos como a sequência na qual diferentes indivíduos são mostrados e a diretora narra "não é meu pai, não é meu pai" fossem inseridos, teríamos um resultado interessante para o espectador.

    Essa passagem, assim como a delicada festa de aniversário, forjam a construção bem-vinda de uma familiaridade inexistente. Por outro lado, a insistência no relato das torturas da regime militar soa como uma invasão violenta. Até onde se deve ir com a função histórica, quando esta começa a ultrapassar o cuidado com o próximo? A tortura psicológica permanece. Há de se ter cuidado para reavivá-la.

    Para Escobar, houve vaidade da filha em filmar essa tentativa de aproximação. E o documentário realmente deixa esse sentimento nas entrelinhas. Mas, pela coragem sentimental e ousadia na forma, vale a pena conferir Os Dias com Ele - mesmo que a obra pareça mais voltada a estudantes de cinema do que ao público em geral.

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