PACIFIC

PACIFIC

(Pacific)

2010 , 72 MIN.

12 anos

Gênero: Documentário

Estréia: 19/08/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Marcelo Pedroso

    Equipe técnica

    Roteiro: Marcelo Pedroso

    Produção: Milena Times, Perola Braz

    Distribuidora: Vitrine Filmes

  • Crítica

    01/09/2011 14h34

    Pacific é um filme inusitado, instigante e inquieto na sua proposta. Passageiros de um cruzeiro rumo a Fernando de Noronha registram a viagem com suas câmeras. No final do passeio, alguns são abordados por pesquisadores e convidados a ceder seus registros íntimos para a construção de um filme. O resultado é o longa-metragem dirigido, roteirizado e montado por Marcelo Pedroso (KFZ - 1348).

    Não há uma imagem deste longa que não pertença a um dos passageiros, opção que já coloca o primeiro questionamento: como eles se veem? Qual é a imagem que guardam de si mesmos e qual retrato gostariam de passar com elas? Apesar da questão explícita, a resposta é difícil de ser dada, já que eles, autores e personagens de Pacific, interpretam a todo momento para a câmera.

    Qual é o gesto genuíno que não passa pela mediação da câmera? O sono de uma personagem, provavelmente. Pois, no restante do filme, temos pessoas que se aprumam na cadeira ou colocam um sorriso no rosto para terem seus corpos transformados em imagem. Ou soltam o típico riso constrangido de quem é assaltado pela câmera, ou fazem um “v” de vitória. Em última instância, fazem até palhaçada, gracinhas e piadas para a câmera.

    Atores permanentes como todos nós quando existe a mediação. Neste documentário, só temos contato com o que está além das aparências quando os personagens não filmam a si mesmos, mas os outros. Então, eles, os outros, reagem com uma certa naturalidade de quem não está sendo surrupiado pela câmera.

    Desses momentos, tomamos contato com uma alegria tão intensa quanto a de uma criança, sem freios ou cabrestos sociais. A partir daí, entendemos quem são esses frequentadores do navio Pacific: pessoas que realizaram os sonhos de suas vidas. Um quase alumbramento existencial.

    Imagem cansativa

    Há, porém, o custo de se realizar um filme com imagens geradas sem o apreço de um olhar voltado para o registro cinematográfico. Amadores como muitos de nós, realizam imagens, não planos. Encenam, sim, mas não dá para qualificar essa encenação de cinematográfica – com exceção de duas cenas envolvendo o mesmo casal.

    Das câmeras tremidas surge um certo cansaço indissolúvel dentro da proposta de Pacific: é também um exercício de resistência acompanhar tantos “planos” sujos e despreocupados com uma estética cinematográfica. Afinal, são imagens feitas deles para eles mesmos, mas que se tornaram filme pela montagem de Marcelo Pedroso.

    Outro questionamento à natureza do filme envolve as fronteiras do público e do privado: como esses frequentadores do cruzeiro aceitam expor momentos de intimidade com um filme que conversará com desconhecidos? Que mundo é esse em que essa fronteira já nem parece mais uma questão?

    Preconceito?

    Quando passou pela Mostra de Tiradentes em 2010, o festival de cinema brasileiro mais disposto a mergulhar a fundo nos filmes, Pacific sofreu a injusta acusação de preconceituoso. Um suposto cinismo na montagem teria olhado para as pessoas que cederam as imagens de cima para baixo. Nessa leitura, o filme seria superior aos seus personagens, fazendo troça deles.

    Discordo. O julgamento do que é felicidade para os frequentadores do Pacific vem, sim, do espectador, que se coloca a olhar como igual ou diferente ao que está no filme. Pacific dá essa liberdade ao espectador. Por isso, assumo como minha leitura o que virá daqui em diante.

    É de arrepiar de medo os valores do bizarro espetáculo desse cruzeiro! Temos uma antropofagia não da cultura, mas do consumismo. Um microcosmo de pessoas que acessaram o mundo do consumo pela porta dos fundos, pelas cópias do cinema de Hollywood ou das músicas americanas.

    É uma pena que o sinônimo de boa música seja uma encenação de Bossa Nova com atores emulando as areias de Copacabana. Medonho que, com zilhões de oportunidades de entretenimento na cultura, as pessoas paguem R$ 3 mil para ficarem enfurnados num navio com festas.

    Mas, repito, esse julgamento é meu. Seria um engodo acusar Pacific de olhar preconceituoso. A montagem é até carinhosa e terna, olhando para aquele bizarro espetáculo como a felicidade do outro.

    Pra mim, uma pessoa que faz isso está a um passo de levar uma piscina de plástico para a praia, fugindo do mundo real, como lembra o maravilhoso Praça Walt Disney.

    O estado das coisas é medonho.

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