PIETA

PIETA

(Pieta)

2012 , 105 MIN.

16 anos

Gênero: Drama

Estréia: 15/03/2013

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Ki-duk Kim

    Equipe técnica

    Roteiro: Ki-duk Kim

    Produção: Kim Soon-Mo

    Fotografia: Jo Young-Jik

    Trilha Sonora: In-young Park

    Estúdio: Fine Cut, Good Film

    Distribuidora: Califórnia Filmes

    Elenco

    Jung-jin Lee, Min-soo Jo

  • Crítica

    11/03/2013 16h30

    Se fosse necessário traduzir Pieta em apenas uma palavra, esta seria “violência”. O longa do diretor e roteirista sul-coreano Ki-duk Kim (Casa Vazia) explicita esse sentimento em todos os sentidos: na estética de uma periferia sucumbindo aos arranha-céus, na mutilação emocional e física, na solidão alimentando um ciclo vicioso e destrutivo.

    Kang-do é um agiota que vive isolado no bairro de Cheonggyecheon, em Seul, em meio ao lixo de seu apartamento. Foi abandonado na infância e não tem muita paciência para lidar com maus pagadores. Quando não lhe devolvem o dinheiro na data certa, tem uma solução simples: provoca um “pequeno” acidente para receber o seguro da pessoa em questão.

    Geralmente, seus clientes trabalham com máquinas arcaicas das mais diversas, em condições precárias. A ferrugem desses aparelhos se funde à fotografia esverdeada gerando um clima incômodo e pútrido.

    Entretanto, ao tentar ser extremamente pesado, Pieta perde naturalidade. As passagens nas quais o agiota ameaça seus devedores soam apelativas diversas vezes. Mães vendo os filhos que as sustentam perderem braços, dedos, evidenciam situações até recorrentes nesse tipo de negócio. Mas a repetição excessiva gera efeito inverso e perda de impacto narrativo.

    Quando uma desconhecida bate à porta de Kang-do afirmando ser sua mãe, ele hesita, se enfurece e a obriga a passar por situações abomináveis para provar tal afirmação. Mi-son o persegue até ser aceita. A criança que não pode existir começa a ganhar espaço nos braços da estranha.

    Não compreendemos como a personagem consegue ter tanta compaixão. A cena de estupro fez muitos espectadores abandonarem a sala durante o último Festival de Veneza, onde Pieta ganhou o Leão de Ouro. Quem assisti-lo entenderá o nível da violência emocional nesse determinado ponto da trama.

    O filme mostra o pior da vida em imagens e metáforas dolorosas, com animais representando símbolos vivos. A morte do coelho liberto premedita um final desagradável. A enguia deslizando escada abaixo como um verme vira bicho de estimação na falta de companhia. Os pedaços de carne na cozinha lembram a crueza do dia-a-dia. O único vislumbre colorido está atrás das portas de um templo budista, aberto apenas por uma fração de segundo.

    Após resistência inicial, os protagonistas passam alguns momentos típicos entre mãe e filho, que fazem emergir alguns sorrisos na face ríspida do agiota. Quando Mi-son desaparece misteriosamente, Kang-do começa a própria via-crúcis. Visita cada uma de suas vítimas em busca do possível sequestrador e vê de perto as consequências de seus atos como agiota.

    De certa forma, a imposição de hábitos ocidentais deixou marca indeléveis naquele lado do mundo. A busca por iluminação se perdeu quando rituais foram extirpados; no lugar deles, uma vida sem sentido ganhou campo. O próprio nome do filme, referência à famosa escultura de Michelangelo mostrando Jesus morto nos braços de Maria, traz em si a dualidade entre culturas distintas. Além disso, por aludir a um mito católico em contrapartida ao Oriente, mostra um aspecto global: o confronto entre a tradição religiosa e o esvaziamento da modernidade.

    A reviravolta impressionante do final causa ainda mais ânsia e certeza sobre como um ciclo destrutivo pode se repetir incessantemente, mesmo quando alguma chama nasce em meio à frieza de uma existência solitária. E o pior juiz, no final das contas, é o próprio individuo quando toma consciência do resultado de suas ações.


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