RÂNIA

RÂNIA

(Rânia)

2011 , 85 MIN.

14 anos

Gênero: Drama

Estréia: 22/03/2013

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Roberta Marques

    Equipe técnica

    Roteiro: Luisa Marques, Roberta Marques

    Produção: Alessandra Castañeda

    Fotografia: Heloísa Passos

    Trilha Sonora: Bernardo Uzeda

    Estúdio: Latitude Sul

    Distribuidora: Tucumán

    Elenco

    Ângela Moura, Demick Rocha, Dora Iório, Graziela Felix, Kennedy Saldanha, Mariana Lima, Nataly Rocha, Paulo José, Paulo Victor Clareano, Renan Pereira, Rob Das

  • Crítica

    18/03/2013 18h50

    O ponto forte desse longa cearense, dirigido pela estreante em ficção Roberta Marques, é a composição cuidadosa de sua personagem central, a jovem que dá nome ao filme. Rânia (Graziela Felix) é uma adolescente pobre da periferia de Fortaleza que ocupa seus dias entre a escola, tarefas domésticas, banhos de mar e o sonho de ser bailarina, mesmo que por enquanto só exiba seus dotes artísticos no palco do Sereia da Noite, boate de prostituição da cidade.

    Sua vida cotidiana pouco promissora ganha alguma perspectiva quando conhece a coreógrafa Estela (Mariana Lima, de A Busca). Esta a faz tomar contato pela primeira vez com a disciplina rígida que a carreira de bailarina exige e abre a possibilidade de um futuro alternativo para a jovem, que envolve necessariamente uma viagem ao exterior e o distanciamento da realidade sem esperança que a cerca.

    Enfrentando esses dilemas temos uma adolescente autêntica. Rânia passa longe do estereótipo da menina sonhadora deslumbrada com possibilidades irreais. Encara suas dificuldades com a espontaneidade de alguém que formou sua visão de mundo em ambiente árido. De comportamento ambíguo, ora menina ora mulher, se divide entre o dinheiro fácil da vida noturna e a vontade de se tornar uma dançarina de verdade. Enfrenta também, sempre com a maturidade forjada pela vida difícil, obstáculos externos como a ignorância dos pais, por exemplo.

    Interessante notar ao longo do filme que a ligação de Rânia com a arte da dança também passa pelo inconsequente frescor da idade. Ela não consegue compreender a questão artística e a seriedade que envolve a manifestação do corpo. Apenas gosta de dançar, processo que a ajuda conhecer melhor a si mesma. E quando dança, seja no palco do Sereia da Noite ou nas aulas da professora Estela, o que se vê é alguém possuidor de uma habilidade que vive o prazer intrínseco vinculado à própria prática.

    Mas Rânia, como todos que cruzam a fronteira entre a infância e a vida adulta, precisa comerçar a assumir o comando da própria vida. Tentar conduzir de maneira racional sua existência na direção das metas que traçou (ou acha que traçou), mesmo que o futuro seja uma incógnita incerta e muitas vezes distante da realidade que possa imaginar. E como toda adolescente, Rânia carrega consigo dúvidas e incertezas. Conflitos internos levados na produção de forma natural e distante da caricatura.

    Outra personagem que segue na mesma linha é Zizi (Nataly Rocha), veterana garota de programa e melhor amiga da protagonista. Ela, como Rânia, tem sonhos de uma vida melhor – quer um marido, uma casa -, mas não ignora sua realidade de prostituta. Parece saber, como Rânia, que trilhar um caminho diferente não é somente uma questão de opção para quem não teve tanta sorte na vida e vive na capital cearense.

    A Fortaleza da diretora Roberta Marques, retratada em belas imagens, é a antagonista do filme. É a cidade – mais até que a condição social das personagens – que parece tolher qualquer possibilidade de vida melhor. Uma realidade diferente da que levam - tanto para Rânia como para Zizi (que já passou uma temporada na Itália) - está do lado de fora, longe do lugar que esconde a falta de oportunidade por trás de suas belezas naturais. Trata-se de uma visão de Nordeste um tanto ultrapassada, sem dúvida, mas condizente com a vivência da própria cineasta. Roberta é uma entre os muitos cearenses que foram buscar uma vida melhor longe - ela mora atualmente na Holanda.

    Dirigido com delicadeza e sensibilidade, Rânia escorrega eventualmente na construção dos diálogos. É recorrente a sensação de que algus deles parecem sem propósito claro para a trama, como que improvisadas na hora. Uma melhor direção de atores também poderia evitar que muitas falas soassem recitadas na boca das atrizes. Deslizes que não chegam a causar grande dano à naturalidade da história, que convence pelas atuações sinceras e boa ambientação da complexidade urbana e social da capital nordestina.


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