RECIFE FRIO

RECIFE FRIO

(Recife Frio)

2009 , 23 MIN.

Gênero: Ficção Científica

Estréia: 24/06/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Kleber Mendonça Filho

    Equipe técnica

    Roteiro: Kleber Mendonça Filho

    Produção: Emilie Lesclaux, Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho

    Fotografia: Kleber Mendonça, Pedro Sotero

    Estúdio: Cinemascópio

    Distribuidora: Vitrine Filmes

    Elenco

    Andrés Schaffer, Lia de Itamaracá, Rodrigo Riszla, Yannick Ollivier

  • Crítica

    22/06/2011 14h27

    Ficção científica? Comédia? Cinema político? Documentário? Recife Frio, o maravilhoso filme de Kleber Mendonça Filho que acumula mais de quarenta prêmios em festivais desde 2009 e estreia dentro da Sessão Vitrine ao lado de Morro do Céu, é tudo isso. Não, é mais que isso.

    Já nos créditos inicias, sobe uma cadavérica música que lembra um tema de algum filme de horror dos anos 50 – no final da projeção, descobriremos que se trata de The Web, de Abe Baker e Tony Restaino, tema de O Cérebro que Não Queria Morrer, de 1962. No canto da tela aparece o letreiro “daqui alguns anos...”. E começa o filme em cima de uma estranha premissa: Recife, uma das cidades mais quentes do Brasil, está fria. Caiu um estranho meteorito na urbe que afetou vertiginosamente a temperatura. Em vez dos tradicionais 30º, chegou-se a 10º. O que acontece? De que ordem é esse frio?

    Todo o filme é construído por meio de imagens de um programa documental de televisão, Mundo en Movimiento, cujo apresentador tem um sotaque argentino. Os turistas foram embora, os símbolos populares viraram do avesso. Bonecos artesanais que antes mostravam pessoas de biquíni e sunga agora são confeccionados com luvas e calças. Até o administrador de uma pousada que vendia o sol como principal atrativo perdeu todos os clientes. O que acontece com Recife?

    Como se relacionar com uma cidade?

    Mostrar “o outro lado de Recife” é uma preocupação constante do riquíssimo cinema produzido em Pernambuco. Mais claramente, essa proposta chegou a um público maior em 2003 por meio de Amarelo Manga, um anti-cartão-postal. Nos últimos três anos, o cinema que se produz lá tem refletido sobre o aumento da desigualdade por meio da arquitetura. Alguns exemplos são Um Lugar ao Sol, Eiffel, Praça Walt Disney (este num apuradíssimo registro irônico).

    Mas por que Recife Frio é uma obra-prima? Entre uma dezena de razões, porque subverte as convenções dos gêneros cinematográficos para utilizá-los em outro contexto, dando às imagens uma potência incomensurável. Este efeito poderoso fica claro em duas sequências – uma de força social, outra de agressividade poética.

    Na primeira, uma família que mora em uma cobertura faz uma inversão na ordem das coisas. A empregada, costumeiramente confinada ao cubículo sem janelas e superaquecido, vai morar na friorenta e ventilada suíte. O filho do patrão, por sua vez, domina o quarto da empregada. Trata-se de um engraçado e violento comentário político sobre a reprodução da arquitetura da senzala em pleno Século 21.

    Já a segunda é para entrar nos anais de como fazer cinema. Após constatar que as ruas da cidade estão vazias, o narrador argentino de Mundo en Movimiento questiona: “Onde estão as pessoas?”. E responde: “No shopping”. Em câmera lenta, pessoas numa imensa bolha dentro de uma piscina em um dos pisos do local. A música é o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven - a mesma usada na última sequência de O Discurso do Rei. Um dos grandes momentos do cinema brasileiro recente.

    Em suma, Recife Frio é comédia, ficção científica, documentário e cinema político. Uma mistura de gêneros que o coloca como um dos filmes mais especiais que circulou por festivais e, felizmente, chega ao circuito comercial dentro da Sessão Vitrine.

    Resumindo: um filme porreta!

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