TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS

TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS

(Lung Boonmee Raluek Chat)

2010 , 113 MIN.

Gênero: Fantasia

Estréia: 21/01/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Apichatpong Weerasethakul

    Equipe técnica

    Roteiro: Apichatpong Weerasethakul

    Produção: Apichatpong Weerasethakul, Keith Griffiths, Simon Fields

    Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom, Yukontorn Mingmongkon

    Estúdio: Illuminations Films, Kick the Machine

    Distribuidora: Filmes da Mostra

    Elenco

    Jenjira Pongpas, Matthieu Ly, Sakda Kaewbuadee, Thanapat Saisaymar, Vien Pimdee

  • Crítica

    19/01/2011 15h13

    Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, o vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes em 2010, pede um olhar praticamente virgem, desprovido de pré-conceitos, para embalar o espectador na realidade fantástica do filme.

    Uma ambição difícil de alcançar num momento em que o pensamento corrente, indiretamente trazido pela televisão, diz que só é possível acreditar nas coisas quando é possível olhá-las enquanto imagens do “real”. Tio Boonmee respeitosamente nos convida a assentir que o personagem do título pode realmente recordar suas vidas passadas, e mais, materializar essas vidas na tela, em forma de fantásticos macacos fantasmas de olhos profundamente avermelhados.

    Sim, macacos fantasmas surgem na tela do filme. Temos personagens inteiramente conectados à natureza, sendo praticamente impossível dissociar um a outro. Ao optar por belíssimos planos gerais, Tio Boonmee forma um amálgama do personagem com os seres da natureza que não conseguimos enxergar a olho nu. Somente a imagem, e o cinema, para conseguir materializá-los numa fantasia que, sem o cinema, poderíamos apenas imaginar.

    Apichatpong Weerasethakul, o diretor tailandês que usa o apelido “Joe” para os que (como eu) tem dificuldade de pronunciar seu nome, realiza Tio Boonmee sem uma vez sequer cair no ridículo. Não é fácil magnetizar o espectador a um personagem que consegue se comunicar com os mortos que habitam a natureza, chamá-los de “macaco fantasma”, inseri-los na cena conversando com os personagens vivos sem provocar risos. Acredite, o filme consegue, tamanha sua delicadeza e precisão cinematográfica.

    Qual o limite entre o homem e a natureza? Numa fábula como a de Joe, essa linha é tênue, assim como a divisão entre “verdade” e “mentira” dos mitos como explicação da humanidade. Num filme de estética tão bela e de textura tão consistente, não há como se render nas metáforas do preparo para a morte pelo qual tio Boonmee atravessa.

    Tio Boonmee é um ritual cinematográfico transcendental irretocável que trabalha com uma ideia contraditória do espírito: em vez de imaterial e incorpóreo, o filme propõe sua materialização e impressão na película.

    No momento que isso ocorre, numa cena durante o jantar da família do tio Boonmee, Apichatpong consegue o efeito sublime que Antonioni obtivera na cena final de Blow-Up – Depois Daquele Beijo, quando os mímicos jogam tênis sem bola ou raquete. Acreditamos na realidade daquela imagem.

    Vá ao cinema assistir a Tio Boonmee sem resistências prévias e se permita embarcar numa fábula sobre a morte e num filme que constitui, na verdade, um pequeno exercício sobre a crença nas imagens e como nos relacionamos com elas – nesse sentido, novamente está próximo de Antonioni.

    Nesse longa-metragem tailandês, homem e natureza são uma coisa só.

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