TURNÊ

TURNÊ

(Tournée/ On Tour)

2010 , 111 MIN.

14 anos

Gênero: Drama

Estréia: 08/04/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Mathieu Amalric

    Equipe técnica

    Roteiro: Élodie Van Beuren

    Produção: Laetitia Gonzalez, Yael Fogiel

    Fotografia: Christophe Beaucarne

    Estúdio: Les Films du Poisson

    Distribuidora: Imovision

    Elenco

    Anne Benoît, Aurélia Petit, Damien Odoul, Julie Atlas Muz, Julie Ferrier, Mathieu Amalric, Suzanne Ramsey

  • Crítica

    05/04/2011 14h53

    Tudo é colorido. O vultoso pôster é vermelho, com uma retumbante mulher envolvendo um magricela. Os adereços brilham, a música explode, o público não se segura com o show desavergonhado de todas elas. São gordas e gostosas, sexy, um verdadeiro atentado à ditadura da magreza.

    Tudo indica que Turnê, o quarto filme do ator Mathieu Amalric na direção - que inclusive lhe rendeu uma Palma de Ouro no Festival de Cannes -, será um poço de felicidade, quase com função terapêutica. Mentira. A boniteza do filme é um arcabouço estético sobre a dificuldade de colocar o ser humano de pé, dia após dia, sejam operários que trabalham a preço de banana ou lindas mulheres, dançarinas bem humoradas que fazem os outros rir. Elas também penam – e muito. Quem dá conta do vulcão de sentimentos dessa trupe de teatro burlesco que parte para turnê existencial pelas beiradas da França?

    No enredo, Mathieu Amalric (007 Quantum of Solace, Um Conto de Natal) é Joachim, o agente e líder do grupo. Francês, emigrou para os Estados Unidos há muito, muito tempo. Nem sabemos quanto de tão distante. No filme, acompanhamos, na derradeira volta à França, o Jonathan que conhecemos buscando um Jonathan desconhecido para nós e uma figura distante para si próprio. Casado? Filhos? Amantes? Desafetos?

    Quando as meninas chegam numa cidade, um repórter as entrevista. “O que é o Novo Burlesco?”. “É um show feito por mulheres e para as mulheres, nós nos expressamos. Os homens não mandam nada aqui”, responde a mais atrevida, de codinome Dirty Martine. “O que Joachim fazia antes disso?”, questiona a artista ao repórter. “Ah, ele era uma pessoa muito conhecida, tinha um programa de TV e...”. Conversa interrompida. Não temos o direito de saber quem era Joachim antes de Turnê começar.

    O filme investe pesado na estrutura de enfocar o que está no quadro, o que a câmera nos mostra, mas manter um mundo acontecendo fora dela. A câmera é como os personagens: todos têm muito mais a revelar, mas cabe ao espectador puxar os fios necessários.

    Que país é esse?

    A turma do burlesco é formada por artistas americanas que põem o pé na França pela primeira vez. Paris, como era de se esperar, é o destino final, a consagração do trabalho, o ápice do glamour. O grande momento para elas, mas também para Joachim, que ilusoriamente espera ser carregado e reconhecido como um rei saudado pelos súditos, um gladiador exaltado pelos feitos heroicos ou um jogador que volta ao clube de coração depois de anos fora do país.

    Em Casablanca, Humphrey Bogart diz que “sempre teremos Paris”. Para a trupe burlesca, Paris pode nunca chegar, sendo apenas uma ilusão distante de glória. Turnê nos traz uma França fora dos cartões-postais, de localizações portuárias, de deslocamento.

    A direção de ator

    Atores que realizam trabalhos como diretores de cinema costumam dizer que fazem os filmes para o ator brilhar. No Brasil, os filmes recentes de Selton Mello (Feliz Natal) e Marco Rica (Cabeça a Prêmio) reforçaram essa tese. Então podemos supor que Amalric faz o mesmo em Turnê? Sim e não. Existe um carinho fortíssimo ao olhar para suas atrizes, ao aumentar com a câmera sua beleza e sensualidade, a torná-las excitantes e humanas.

    Mas existe um trabalho de composição cênica que inspira liberdade. Talvez talento de Amalric como diretor ou necessidade de cobrir a falta de traquejo das atrizes/dançarinas no cinema, já que as estrelas de Turnê vivem vidas muito parecidas com as suas na tela: artistas que protagonizam shows de teatro burlesco. Ou, outra hipótese, inteligência ao aproveitar o frescor das dançarinas frente às câmeras e deixá-las livres para compor.

    Na cena mais bonita do filme, Joachim e Mimi (Miranda Colclasure), sua mais misteriosa dançarina, estão no corredor de um hotel à noite, iluminado por lâmpadas ao longo do caminho. Eles duelam, disputam território como dois animais – e como tudo no filme, sempre há o que é mostrado e o que fica de fora para ser içado. A cada golpe dele ou dela, as lâmpadas, uma por uma, se apagam. Quando estão próximos do choque mais violento que traria um dano irreversível, eles puxam o freio. As luzes voltam a se acender.

    Turnê é mais que um filme com bons atores. É um pequeno ensaio melancólico sobre o que há de irreversível na vida – e aí vai uma referência ao Joe Gideon de O Show Deve Continuar. E se prepare para não encontrar respostas: Amalric lida com a alegria e tristeza de suas personagens como quem se senta num balanço de um parque de diversões e se deixa levar.

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