VALE DOS ESQUECIDOS

VALE DOS ESQUECIDOS

(Vale dos Esquecidos)

2011 , 72 MIN.

Gênero: Documentário

Estréia: 20/04/2012

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Maria Raduan

    Equipe técnica

    Roteiro: Felipe Braga, Maria Raduan

    Produção: Rodrigo Teixeira

    Fotografia: Sylvestre Campe

    Trilha Sonora: Almir Sater

    Estúdio: RT Features, Tucura Filmes

  • Crítica

    17/04/2012 15h00

    Quem ainda questiona a importância do cinema para um país deveria assistir a filmes como Vale dos Esquecidos, documentário de estreia de Maria Raduan. A obra aborda um conflito por terras envolvendo índios, posseiros, fazendeiros e sem-terras que já dura mais de 40 anos no Estado do Mato Grosso. Um assunto complexo, aparentemente insolúvel, que merecia ser esmiuçado num longa-metragem e apresentado aos brasileiros que desconhecem esta e muitas outras realidades insólitas deste país.

    Para documentar é preciso a câmera que registra e a sensibilidade do documentarista que a aponta para o que acredita ser relevante. O trabalho criterioso se repete na montagem, na qual o filme toma forma e deixa de ser um apanhado de imagens e depoimentos. Maria Raduan e a montadora Jordana Berg acertaram a mão em o Vale dos Esquecidos. Jordana dando ao filme um estrutura narrativa ágil e capaz de contextualizar o drama, e Maria captando imagens de eloquência tão grande o maior que os próprios depoimentos reunidos no filme.

    De execução formal e sem inovações narrativas, o filme explora com competência o universo do conflito e tenta entender a disputa por terra colocando-se no lugar de índios, posseiros, fazendeiros e sem-terra num rincão do Brasil em guerra consigo mesmo.

    A região do embate foi considerada o maior latifúndio do mundo na década de 70. Conhecida como Fazenda Suiá-Missú, tinha área é equivalente a 252 vezes a ilha de Manhattan. A fazenda com proporções de país foi criada a partir de um financiamento de US$ 30 milhões dado pela SUDAM a um grupo empresarial. A transação só foi possível graças a um documento da SPI, hoje FUNAI, atestando a inexistência de índios na região, o que não era verdade. Posteriormente, os índios que “não existiam” foram expulsos de sua terra.

    A diretora foi à área, distante 14 horas de Goiânia, atrás da história dos índios, mas diante do quadro que encontrou optou por mostrar os diferentes pontos de vista. A decisão foi acertada. Mesmo sem a necessidade de ser imparcial ou mostrar todos os pontos de vista, dar espaço para os representantes de cada lado do conflito fez de Vale dos Esquecidos uma obra capaz de produzir um entendimento abrangente do drama e um panorama do Brasil que poucos conhecem.

    Elogiável também é o trabalho do diretor de fotografia Sylvestre Campe, que consegue traduzir nas imagens o desolamento do local onde se desenrola a disputa, uma região pouco habitada que vive um ciclo constante de queimadas, espécie de munição nas mãos dos oponentes desta guerra por terras. E a palavra guerra aqui não é uma mera figura de linguagem. Caciques, fazendeiros e posseiros não escondem em nenhum momento a disposição para o enfrentamento violento na defesa do que acreditam ser o correto. O pano de fundo por trás deste faroeste é a inépcia e omissão do Estado.

    Exibido com destaque nos festivais de Chicago, Hotdocs (Canadá) e É Tudo Verdade, Vale dos Esquecidos entra em cartaz em bom momento, quando Xingu, de Cao Hamburger, mostra a saga desbravadora dos irmãos Villas-Bôas no Brasil Central. Dois filmes quase que complementares nos quais ficção e realidade levam ao público um Brasil que insistimos em ignorar.

    Se é difícil para o espectador saber quem está com a razão no enfrentamento, é fácil descobrir a maior vítima desta guerra: a natureza, que padece terrivelmente. As impressionantes cenas de queimadas que abrem o longa não deixam dúvidas sobre isso.


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