Pôster de Vidas ao Vento

VIDAS AO VENTO

(Kaze Tachinu)

2013 , 126 MIN.

12 anos

Gênero: Animação

Estréia: 28/02/2014

página inicial do filme
  • Ficha técnica

    Direção

    • Hayao Miyazaki

    Equipe técnica

    Roteiro: Hayao Miyazaki

    Produção: Nobuo Kawakami, Toshio Suzuki

    Trilha Sonora: Joe Hisaishi

  • Crítica

    27/02/2014 18h49

    Você precisa viver - essa ideia, essa necessidade, permeia Vidas ao Vento quase como uma justificativa tanto para as ações quanto para a omissão das mesmas. Com trama irregular, mas personagens ricos em suas indefinições, Hayao Miyazaki (A Viagem De Chihiro) traz uma obra bela e polêmica que concorre ao Oscar 2014 na categoria Melhor Animação.

    Jiro Horikoshi, personagem central, desenhou o famoso avião A6M Zero. Foi com ele que os japoneses fizeram voos fatais na Segunda Guerra Mundial, lançando-os em Pearl Harbor e tantos outros ataques kamikazes da época. 

    Acompanhamos a trajetória do designer desde os primeiros anos do seu sonho, sempre permeada pelas aparições do pioneiro aviador italiano Giovanni Caproni em belas imagens. No decorrer da animação, a estética de traços simples se mistura a momentos de paisagens quase impressionistas.

    Em uma de suas viagens de trem, ainda na juventude, o protagonista enfrenta um terremoto e acaba por conhecer Nanoko ao ajudá-la numa situação de dificuldade. Os dois se separam e vão se cruzar novamente ligados pelo vento, por objetos que voam ao encontro deles e chamam a atenção de um para o outro.

    O dia a dia de Horikoshi desenhando aviões, tendo ideias inovadoras, lidando com a perseguição de autoridades e o drama relacionado à doença de Nanoko embalam a história que começa bem, perde o ritmo no meio e retorna com impacto no final.

    Vidas ao Vento não é envolvente como o doce A Viagem de Chihiro, longa que levou Miyazaki a ter sucesso de público e respeito da crítica. Pelo contrário. É áspero e implica numa reflexão tanto sobre a escolha de se retratar a história desse personagem controverso quanto por deixar dúvidas morais e éticas em relação a suas atitudes.

    Por mexer no vespeiro, Miyazaki não tardou a sentir os ataques por todos os lados. Os sul-coreanos o acusararam de glamourizar a figura do principal símbolo militar japonês pelo qual milhares deles foram forçados a trabalhar. Já os nacionalistas japoneses o criticaram por mostrar a guerra como algo fútil.

    Lançado na metade de 2013 por lá, chegou no momento em que o primeiro ministro Shinzo Abe tentava modificar a constituição para aumentar o poder militar do país, atitude criticada duramente pelo diretor em uma carta aberta. Apesar dos conflitos políticos, Miyazaki tentou retratar justamente a beleza que os olhos do designer viam na máquina de fazer sonhos, como o mesmo chamava os aviões.

    Se pensarmos a partir do ponto de vista pelo qual a falta de ação também é uma ação, podemos encontrar um meio de condenar o Horikoshi ao continuar trabalhando em um projeto com uma terrível finalidade. Mas, naquele contexto onde sobreviver era um desafio diário e as certezas não existiam pois a história estava sendo escrita, fica muito difícil julgar.

    O cinema explorou esse dilema em diversas ocasiões. O conflito entre ação e omissão é retratado com louvor no belíssimo Europa, de Lars von Trier, que se passa na Alemanha destruída após a insanidade de Hitler.

    Outro momento de escolha importante surge da relação do protagonista com Nanoko. O tempo de vida da jovem pode ser breve, então os dois decidem ficar juntos e enfrentam os riscos dessa decisão.

    No fim das contas, o verdadeiro protagonista desta animação é o próprio vento: que dá suporte aos aviões, guarda o oxigênio que falta aos pulmões da amada com tuberculose, guia o invisível caminho da história em um mundo ainda cego.

    A frase de Paul Valéry estampada no início o revela por completo: "O Vento se eleva, devemos tentar viver". Assim, Hayao Miyazaki fecha sua carreira de forma discreta - se esse realmente for seu último filme.

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus