A Gaiola Dourada: Ruben Alves fala sobre Portugal, imigração e família

ENTREVISTA

28/02/2014 18h09

Por Cristina Tavelin

As gerações que nos antecedem marcam invariavelmente a direção de nosso olhar. Não foi diferente com o português Ruben Alves, de A Gaiola Dourada. Ao fazer uma homenagem aos pais, imigrantes portugueses, o diretor também retrata a vida de tantos outros que passaram por situação semelhante.

A história que percorre sua família se estende além dos limites de determinado tempo ou espaço: hoje, na Europa, a questão de imigração e identidade toma contornos sombrios diante de grupos de extrema direita protestando contra integração dos que consideram diferentes.

Mas longe de se ater a um discurso político denso, A Gaiola Dourada se desenvolve de maneira leve e amorosa ao focar nos dilemas dos protagonistas que veem a oportunidade de voltar à terra natal após tantos anos dedicados à França.

Conversamos com Ruben Alves para descobrir onde se encontra a "alma portuguesa" nesse mundo de hoje.

Cineclick: O filme foi dedicado a seus pais. Você poderia falar um pouco sobre a história deles e como ela influenciou esse projeto?

Ruben Alves: Esse filme foi completamente inspirado neles. Na vida de imigrante é muito difícil conseguir uma condição melhor. Eles são trabalhadores com valores, falam português e francês, então ajudaram muito a construir a ideia do filme, que é autentico porque é o que eu vi, foi baseado em minhas referências.

Quando os dois assistiram o longa finalizado ficaram de boca aberta: meu pai chorou de tão impressionado. Eles sabiam que eu estava fazendo filme sobre portugueses, mas não tinham noção da proximidade da história. Foi bom trabalhar com outras pessoas para manter uma certa distância emocional, não ficar mergulhado nos sentimentos. Pode ser difícil encontrar equilíbrio. Liguei apenas uma vez para cada um dos meus pais durante o processo para tirar dúvidas que tinha, mas não deixei o assunto explícito.

Por que o título A Gaiola Dourada?

Estava assistindo a uma reportagem sobre uma zeladora portuguesa que mora em Paris e o jornalista perguntou: " Você vive aqui há 35 anos, mas fala de Portugal com muita emoção, pensa em voltar um dia?" Ela respondeu: "Claro que vou voltar ao meu país mas, ao mesmo tempo, me sinto tão bem na minha pequena gaiola dourada..."

Fiquei emocionado e quis falar sobre a condição dessas pessoas, estes imigrantes que estão longe da pátria, mas se adaptaram. E mesmo se muitas vezes as condições são difíceis, o outro país os acolheu e os salvou do pior. Então, viver nessa casa pequena com toda a família parece sim viver numa gaiola, mas dourada, porque permitiu dar aos filhos uma vida melhor.

A Gaiola Dourada

A trama aborda uma questão cada dia mais complexa na Europa, que é a da migração. Maria e José sentem-se intimidados na França, mas o núcleo português do filme também se preocupa com a possibilidade de perder emprego para os Romenos. Qual a sua visão sobre esse círculo de relações?

Minha ideia era fazer um retrato, passar uma mensagem mais profunda sobre ser português. Após a ditadura, os imigrantes portugueses integraram tão bem a França que quase se anularam. Adaptaram-se tão bem que não há muitas pessoas que colocam à frente a própria cultura e a descendência.

Hoje, em Portugal, há um movimento forte de extrema direita e uma crise enorme em relação à aceitação de imigrantes. Por acaso, o longa chegou nesse momento e fez sentido, mas não foi proposital. Não queria falar com entonação política. Foi um retrato, uma simples história de amor. Nos anos 70, quando os portugueses chegaram à França, a situação era parecida. Quis retratar aspectos como fidelidade, confiança, a alma portuguesa e o ser português. 

Outra questão que me pareceu forte é a relação das pessoas com o trabalho, do medo de investir mais na vida pessoal. Você sente esse medo partir da geração dos seus pais?

Essa devoção pelo patrão do filme se vê em muitos imigrantes. Em Portugal se respeita muito quem estuda, por exemplo. Já o francês tem uma coisa natural de acolhimento e também uma postura de superioridade. O português já é mais "sim", "tudo bem", é subserviente.

A nova geração tem uma visão mais forte sobre aproveitar a vida. Mas a Maria, por exemplo, menciona gostar do trabalho. Esse é o jeito do português. Os protagonistas não queriam voltar para Portugal e a única forma de conseguir isso era continuar trabalhando e não fazer barulho. É um povo fechado que não fala de sentimentos, é pudico. Assim, eles mergulharam no trabalho pois sabiam que se dessem à vista teriam de voltar para casa, o que significava voltar para a ditadura.

Os filhos já faziam questão de aproveitar a vida. Tentei retratar esse choque. Mas as novas gerações precisam perceber a diferença e aceitá-la. Não podemos mudar essas diferentes visões, por isso busquei retratar o conflito de uma forma leve e engraçada.

Na sua opinião, o cinema tem o papel de fazer refletir sobre questões sociopolíticas?

É bom ter de tudo. Acredito no engajamento da sétima arte, mas não é a minha praia. Acho mais interessante fazer um retrato, uma mistura para que a equação se dê na cabeça de cada um. A minha verdade é essa, gosto de coisas mais abertas à reflexão.

Sou muito tolerante e curioso em relação a novas culturas, por exemplo. Quando viajo a outro país, quero viver a cultura de lá, experimentar a comida local, busco o espírito aberto de ser curioso e tolerante. Acho que o trabalho do cineasta não é julgar, e sim colocar para pensar. Temos vários elementos em mãos, mas não devemos influenciar o espectador. Crio uma história para divertir e emocionar o público, suscitar emoções.

Alguns personagens do núcleo português são bem caricatos. Foi intencional? Você não estaria reforçando um estereótipo dessa forma?

Estive muito atento durante o processo, gosto da variedade. O que a gente vive é muito mais caricato do que isso. Esses personagens todos são verdadeiros, eu os conheço, representam uma realidade que tenho a minha volta. A personagem da atriz Maria Vieira, por exemplo, é um pouco "too much". Mas Jim Carey também é assim e faz coisas fantásticas. Fiz uma mistura do que vejo a minha volta.

Por que você optou em fazer uma comédia para abordar esses temas?

Comédia pode dizer muita coisa e não dizer nada. Minha comédia dá espaço para pensar porque o tema do filme não é leve, trata de relações de migração e trabalho, mas fiz de uma forma leve, pois a vida já é bem difícil. Há comédias que são feitas apenas para rir, o que também me agrada às vezes. Mas gosto mais do que me toca, do que dá possibilidade para várias leituras. Muitas pessoas me disseram que riram muito enquanto outras choraram durante o filme. Não gosto de comédia básica. Gosto de quando se pode pensar. 

Como foi a recepção do filme em Portugal? Tem alguma história interessante sobre o feedback do público?

Um rapaz me disse que o filme foi uma terapia, mudou sua relação com os pais. Ele nasceu na França, mas tem uma mãe portuguesa que nunca tinha ido ao cinema. Na cena em que o filho rejeita mãe, ele contou que começou a se sentir mal e não conseguia olhar para ela pois havia feito o mesmo quando era mais jovem e o assunto nunca foi discutido. Nesse momento, ele sentiu a mãe segurar em sua mão como se o perdoasse por meio daquele gesto. A partir disso, começou a repensar muitos aspectos na relação com os pais e como educar seus filhos.