AJ Schnack (Exclusivo)

17/07/2009 18h33

Por Heitor Augusto

O ano de 2009 marca o 15º aniversário da morte do cantor, compositor e guitarrista Kurt Cobain, um menino atormentado da década de 80 que deixou o grunge como herança ao conturbado início dos anos 90. Um gênio da música que, não raramente, recebe a alcunha de “roqueiro complicado viciado em heroína”.

Kurt Cobain – Retrato de Uma Ausência, que chega ao Brasil com três anos de atraso, vai além da definição simplista sobre sua vida e obra. O documentário traz o áudio de longas entrevistas de Cobain ao jornalista Michael Azerrad, autor de Come As You Are: The Story of Nirvana, com as imagens capturadas pelo diretor AJ Schnack.

Nesta entrevista exclusiva concedida ao Cineclick por e-mail, Schanck, que já havia dirigido um documentário sobre o They Might Be Giants, avalia: “É horrível a sensação de que nós nunca poderemos saber qual teria sido o caminho musical de Cobain”. Confira a íntegra do bate-papo:

Quando e por que você decidiu fazer um filme sobre Kurt Cobain? Afinal, fazia doze anos de sua morte quando você começou a rodar...
Na verdade, eu nunca pensei em fazer um filme sobre Cobain, apesar de eu ser um fã do Nirvana e interessado na figura cultural e social de Kurt, que em pouco tempo de vida foi brilhante. Eu conheci Michael Azerrad [autor das entrevistas utilizadas no filme] durante a produção de meu primeiro filme. Certa noite, ele me contou que tinha fitas com as entrevistas gravadas, notícia que ele me contou logo após que tive a ideia de fazer o documentário.

Uma das razões que me motivou nesse projeto foi olhar para o meu sobrinho de 12 anos, que acabara de se tornar fã do Nirvana, e perceber que sua imagem do Kurt estava permeada pelos acontecimentos do fim de sua vida: o suicídio, o vício em drogas, a relação com sua mulher, etc. Esses acontecimentos sobrepuseram, na mídia, a contribuição dele no diálogo da galera da minha idade com os mais velhos, no início dos anos 90.

Seu filme não tem imagens de Kurt, apenas o áudio das entrevistas e filmagens em cidades ou lugares que marcaram a vida do cantor. Como você decidiu o que filmar?
Enquanto eu transcrevia as fitas, trabalhava simultaneamente com minha produtora Shirley Moyers e o meu fotógrafo Wyatt Troll para escolher as locações no estado de Washington. Quando tínhamos o áudio completo, fui conversar com os meus compositores, Steve Fisk e Ben Gibbard, para criar a trilha.

Somente então desenhamos um plano detalhado de filmagens, utilizando como guia uma série de fotografias de lugares que iríamos filmar – basicamente concentrados em espaços ligados à vida de Kurt. Rodamos por três semanas em Aberdeen [cidade natal do músico], Olympia [onde ele se aproxima da música] e de Seattle [onde ele conheceu o auge e a morte].

Você poderia falar da influência de Michael Azerrad no processo? Vocês trabalharam em parceria? Ele deu opiniões a respeito de como deveria ser o filme?
Michael trabalhou comigo por duas semanas transcrevendo as fitas, além de ter sido um grande consultor. Todas as vezes que eu tinha dúvidas com o material, ele me guiava e me apontava se estava no caminho certo. Este foi um dos projetos nos quais eu e Michael tínhamos os mesmos pensamentos, foi uma grande colaboração.

Após 18 anos do lançamento do álbum Nevermind, que jogou o Nirvana para o mundo, podemos imaginar qual seria a direção da carreira de Kurt? Sair da banda? Trabalhar com Michael Stipe, do R.E.M.?
Como eu nunca conheci Kurt, só posso falar a partir do que eu ouvi nas fitas. Claro que eu tenho um monte de ideias sobre o caminho de sua carreira, tanto experimentais como mais pop do estilo R.E.M.. É horrível a sensação de que nós nunca poderemos saber qual teria sido o caminho musical de Cobain.

Quais são as bandas que você acha importante para entender Cobain, mas não teve a oportunidade de incluir no filme?
Eu queria ter incluído músicas do Black Flag [banda de hard rock e punk californiana formada nos anos 70], mas a gravadora deles, SST Records, nunca nos respondeu. Tentamos muito por quase um ano, mas simplesmente não tivemos resposta. Eles foram uma ausência sentida.

Você já fez um documentário sobre Cobain e sobre o They Might Be Giants. Pensa em fazer outro filme sobre roqueiros?
Adoro fazer filmes sobre música, mas acabei de finalizar um filme sobre o processo de construção da convenção do Partido Democrático que escolheu Barack Obama como o candidato à presidência. Além disso, estou no meio das filmagens de um documentário sobre uma pequena cidade turista ao sul do estado de Missouri. Provavelmente, vou dar um tempo em documentários musicais.

Sua postura com o Kurt foi horizontal e honesta, o que me fez pensar sobre o subtítulo de seu filme, About a Son (“sobre um filho”), em referência com a canção About a Girl. Por que esse subtítulo?
Que bom que você acha que eu não fui autoritário com Kurt! Nós realmente tentamos deixá-lo falar por si próprio, nem demonizá-lo ou fazer algo “chapa branca”. Minha impressão é de que o filme não é apenas sobre ele, mas também sobre o lugar do qual ele veio, aqueles cidades em Washington.

Acho que o filme também é sobre aquele momento, início dos anos 90, que definitivamente marcou a maneira e a mentalidade que dominou a cultura norte-americana nas duas décadas anteriores. Ou seja, quando penso em Kurt, eu o vejo como um filho de seu tempo nos Estados Unidos. Daí vem o título Kurt Cobain – About a Son [que no Brasil está sendo lançado como Kurt Cobain – Retrato de Uma Ausência].