Alexandre Stockler

26/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Alexandre Stockler nasceu em São Paulo há 31 anos. Formado em teatro pela USP (Universidade de São Paulo), iniciou suas atividades artísticas como ator. Firmou-se como diretor de teatro e, hoje, volta-se ao cinema. Especialmente depois da criação do manifesto Trauma (Tentativa de Realizar Algo de Urgente e Minimamente Audacioso), reunindo amigos que queriam, basicamente, viabilizar produções de baixo orçamento, como Cama de Gato, seu longa de estréia. Com este filme, que mostra a história de três garotos da classe média paulistana embarcando em uma noite bizarra em busca de diversão, Stockler ganhou muitos elogios e, também, críticas ferozes. Afinal, o diretor não poupa a inclusão de cenas chocantes que, no final das contas, têm o objetivo de fazer com que o espectador pense sobre os rumos tomados pelos jovens brasileiros hoje em dia. Mas isso é o próprio diretor que explica melhor nesta entrevista exclusiva concedida ao Cineclick.Como surgiu a idéia de fazer Cama de Gato?


Naquela época eu era professor de teatro para jovens. Lá, eu tinha contato com todos esses problemas de transformação da informação que eles recebiam. Eles simplesmente não conseguiam transformar essas informações em conhecimento, elaborar pensamentos. Então, de 95 a 2000, fui simplesmente juntando informações que obtinha diretamente deles, ia colecionando algumas histórias absurdas que ficava sabendo e escrevia o roteiro.

Eram informações que você lia no jornal ou que realmente aconteciam com seus alunos?

Informações que eu lia no jornal e também que aconteciam ao meu redor. Por exemplo, teve uma aluna minha que fora estuprada e falou comigo sobre esse problema. Ela foi estuprada por um amigo, era uma história bem parecida com a do filme. Então, à medida que eu entrava em contato com essas informações, ia escrevendo o roteiro.
Depois que o filme ficou pronto, descobri uma sociedade que reúne mulheres estupradas. Lá, me disseram que 85% delas foram violentadas por parentes muito próximos, como pais. As que foram estupradas por amigos são 12% enquanto que, por estranhos, são somente 3%. Isso é uma informação que não é divulgada, não se discute isso. Hoje, a nossa juventude tem acesso à informação como geração anterior nenhuma teve, só que não sabe como transformar isso em conhecimento.
Tem gente que diz que o filme é amoral. Sim, ele é amoral, pois estou colocando o pensamento dos jovens, e eles são amorais.

Você vê a juventude brasileira como amoral?
Não em seu todo. Na verdade, eu vejo a juventude brasileira querendo se divertir a qualquer custo. Em busca da diversão, passa-se em cima de uma série de questões éticas e morais quando tem formas de se extrapolar pela diversão sem, necessariamente, estragar a vida do outro.

Quanto tempo você levou desde o nascimento da idéia de fazer Cama de Gato até sua estréia nos cinemas?
Escrevi o roteiro em 1998. No ano seguinte, saí em busca de dinheiro para realizá-lo, mas nenhuma empresa queria investir nele, pois questiona uma série de assuntos pesados. Eles até se propuseram a mudar o roteiro para tornar o filme mais leve, mas isso não me interessava. No final, acabei usando um dinheiro que eu tinha guardado. Para rodar, gastamos R$ 13 mil. Isso porque tivemos ajuda de amigos. Agora, para fazer o transfer do filme para 35 mm, gastamos mais de R$ 80 mil.

Você usou os depoimentos reais de Cama de Gato para dar sustentação às situações surreais que vemos no filme?
Na verdade, no roteiro eu já defini que queria usar entrevistas. Questionamos as pessoas com as mesmas situações pelas quais os personagens passam. À medida que fazíamos as perguntas, os entrevistados foram elaborando respostas muito piores do que as que aconteciam no roteiro. A idéia era brincar, exagerar, e eles foram respondendo a partir do ponto de vista deles, pois ninguém sabia da história de Cama de Gato.
O filme foi rodado para mostrar o ponto de vista dos jovens, por isso os jogos de câmera. Essas variações na forma que cada personagem enxerga a realidade estão sugeridas no filme, mas não mastigadas como seria em uma produção americana, por exemplo.

O filme é repleto de cenas que incômodas, fortes. Qual foi a mais difícil de rodar?
Tivemos cenas com dificuldades diferentes. A do lixão foi a mais difícil. Ficamos muito tempo naquele ambiente inóspito, foi uma coisa horrorosa. Por isso, foi o pior lugar. A cena do estupro é muito delicada. Primeiro por que tinha de ter muito realismo, uma coisa posada ficaria falsa demais. Ao mesmo tempo em que tinha um peso, eu queria colocar uma leveza no jeito de eles fazerem. Então, foi muito difícil encontrar esse tom, mas acho que eles fazem brilhantemente.

Como você achou esses atores?
Por meio de uma campanha feita pela internet, os atores vieram até a gente e fizeram testes.

Isso também aconteceu com o Caio Blat?
Não, o Caio foi o seguinte: tinham algumas pessoas da Rede Globo interessadas em fazer. Então, uma pessoa que ajudou a fazer o casting perguntou se tinha alguém da Globo que me interessava. Falei do Caio Blat, que viu o projeto na internet e, pouco tempo depois, me procurou dizendo que estava muito a fim de fazer. Eu já estava com o elenco fechado, mas ele insistiu para fazer o teste. O Caio fez uma leitura do roteiro muito boa, mas o primeiro teste não ficou legal, mas, aos poucos, foi se entrosando com os outros atores, no segundo teste ele foi bem e acabou ficando, ajudando bastante na produção.

A produção de Cama de Gato funcionou, então, como uma espécie de cooperativa com o agrupamento de amigos interessados em fazer cinema. Você acha que esse é um caminho para se produzir cinema barato no País?
Com certeza. Os custos de se fazer filmes são altos, mas aqui no Brasil acontece uma inflação desses valores. Na Argentina é mais barato fazer cinema do que aqui e eles têm o mesmo custo que a gente. Por que, então, é mais barato? Eles aproveitam os valores de outra maneira. A gente gasta muito dinheiro em grandes produções e não deveria ser assim. Esses valores deveriam ser distribuídos entre mais projetos de cinema. Se o dinheiro for bem aproveitado, o retorno vem através da bilheteria.

Quando Cama de Gato ficou pronto, afinal? Pois ele já foi exibido em diversos festivais antes de estrear nos cinemas.
O filme ficou pronto em 2002. Já havíamos sido convidados para alguns festivais anteriormente, mas o transfer não tinha ficado pronto. Quando levamos para o Festival de Montreal, já ganhamos um prêmio. Foi muito importante para a carreira do filme porque ele foi visto por muita gente nesse festival, como o Gérard Depardieu, Brian De Palma, grandes estrelas do cinema viram e adoraram. Lá no Festival o filme foi bastante elogiado, o que fez com que as pessoas começassem a se interessar, especialmente o júri, que nos premiou.

Em Festivais, Cama de Gato tem tido uma boa recepção. Como você acha que o grande público vai recebê-lo?
Adoraria que as pessoas refletissem sobre o filme e, a partir daí, pensassem no Brasil. Cama de Gato foi feito para que repensássemos a estrutura do País, no que a gente ta aceitando. Está todo mundo se acomodando demais e é preciso um pouco mais de verdade às coisas.

É isso que sugere o manifesto Trauma?
Isso mesmo.

Como as coisas estão acontecendo no Trauma?
Estamos com um filme para ser rodado em Barcelona (Espanha). É uma produção espanhola e a gente foi convidado para fazer esse projeto depois que Cama de Gato foi exibido em Miami (EUA). O bom é que lá na Espanha tem mais estrutura do que aqui, o filme não vai demorar tanto para ser lançado.
Tem também um outro roteiro meu de um filme que se chama Alfavela. É uma continuação de Cama de Gato, mostrando as famílias dos garotos e famílias de classe baixa.

Em que contexto surgiu o Trauma?
Foi uma resposta irônica ao Dogma 95. Eu pensava em fazer filme digital no Brasil há muito tempo. Uma parte de uma peça minha era gravada e foi feita em digital, em 1996. Em 1998 fiz isso de novo. Nessa época eu brigava com o Ministério da Cultura para fazer filme digital, mas eles diziam que esse formato não é cinema. Quando apareceram os filmes do Dogma, mostrou-se que isso é realmente possível. A gente tem uma mentalidade colonizada, tem de sempre ir atrás dos caras. No Brasil ainda demorou dois anos pra sair algum filme digital. Quando fiz meu filme, nem podia fazer em digital para poder captar verba do governo. Falei "foda-se, vou fazer cinema" e é mais ou menos essa a idéia.

Você acha que há espaço para o cinema independente no Brasil?
É isso que o Trauma quer fazer, abrir espaço para as pessoas que têm vontade de fazer e, também, qualidade no trabalho. A gente enfrentou muitos problemas com distribuidoras e exibidores, eles não queriam porque o filme é muito pesado. Vários exibidores proibiram Cama de Gato.

O engraçado é que esses mesmos cinemas exibem filmes como de Larry Clark (Ken Park), que são parecidos com o seu, não?
Pois é. Porque ele é americano e vem com a força dos exibidores, aí os caras exibem. Filmes como Cama de Gato, feito na raça, são rejeitados. E olha que eu acho tolos os filmes do Larry Clark. Este filme tem muito conteúdo, ele questiona a nossa sociedade. A nossa violência é completamente diferente da dos americanos e dos europeus, é outra coisa. Como se estabelece as relações, aqui, é doentio. Aqui, quem tem dinheiro acha que pode passar por cima de qualquer coisa.