Alice Braga (Exclusivo: Cidade Baixa)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Ser sobrinha da Sonia Braga atrapalha ou ajuda?
Não ajuda nem atrapalha, é engraçado porque, independente da Soninha, minha irmã faz produção de cinema, a Dani, minha prima, era atriz e começou a dirigir agora, meus tios trabalham com outras coisas, mas também são atores e minha própria mãe, que exerceu uma grande influência na minha vida, era atriz e agora trabalha com publicidade. Então, para mim, é uma coisa bacana ter alguém na família que tem esse tipo de sucesso como incentivo mesmo. Profissionalmente, não faz muita diferença porque cada um tem de correr atrás do seu. Nepotismo é algo que não funciona muito. É um exemplo de sonho virando realidade, mas não ajuda, muito menos atrapalha. As comparações acontecem porque tem essa coisa de sangue, sabe? As Bragas são baixinhas, falam rápido, são desbocadas. Todo mundo fala que sou igual à minha mãe em várias coisas, são coisas de família. Mas é a tia Soninha, né? Não dá pra negar isso.

Você estreou no cinema em Cidade de Deus, que foi um fenômeno. Os outros dois filmes que você têm no currículo também não são nada fracos (Só Deus Sabe, produção entre Brasil e México, e Cidade Baixa). Como você sente a responsabilidade em relação a essa carreira tão curta e já tão brilhante?
É muito legal, pois me jogo muito nas coisas que acredito, que tenho vontade de enfrentar. A responsabilidade existe, e é grande por que, quando você é protagonista de um filme, o trabalho de toda a equipe do filme depende de você. Dá um frio na barriga, mas, quando estou filmando, nem penso nisso. Eu só penso em ir fundo e ser feliz.

A preparação dos atores foi muito importante em Cidade Baixa. Como ela foi para você?
Intenso. A Fátima (Toledo, preparadora dos atores) tem um método que trabalha com o sensorial e te bota na situação do personagem. Eu não era mais Alice, era Karinna, sabe? Ela faz com que você sinta com seu coração, com seu batimento cardíaco, o que o personagem sente. Isso é muito forte. Fiz exercícios para soltar minha pélvis, kundalini para soltar meus chacras, trabalho de voz, para soltar minha dicção porque falo rápido... Muita coisa. Isso foi crucial para o filme, pois, quando chegamos nos set já estávamos bem preparados. Estávamos entregues ao desejo de fazer. O filme foi 100% dos atores. Todos estavam dançando com a gente, mas davam prioridade ao nosso trabalho.

O que era mais difícil, nesse processo, entrar ou sair da Karinna?
Entrar, porque é uma vida muito forte, você vive entre a vida e a morte 24 horas por dia. Sair não foi difícil porque a Fátima trabalha muito com o sensorial, o que nos dá mais controle do que o trabalho emocional. Sair é só você fechar os olhos e respirar fundo, entrar é furação, vida, pulsação, sabe?

Você fez algum laboratório?
Não. Fui só um dia no puteiro para sentir a energia, mas a Fátima não queria que freqüentássemos esses lugares para não cairmos em estereótipos ou julgamento. Era totalmente o que eu vivia. É um pouco parecido com Cidade de Deus.

Cidade de Deus foi o começo de tudo. Como você entrou no filme?
Cresci em set de filmagem por causa da minha mãe e sempre fiz muitos comerciais. Num desses comerciais eu conheci o Fernando (Meirelles, diretor de Cidade de Deus). Para o filme ele precisava de uma menina desconhecida, foi quando ele lembrou de mim. Conversamos e foi superlegal, ele me contou sobre o que era a história e eu topei.

Como você se envolveu com Cidade Baixa?
Naquela época eu estava morando mais fora do que aqui. Quando eles estavam fazendo testes, não me acharam. Escolheram uma outra menina e ensaiaram com ela por três semanas, mas não rolou. Aí o Sérgio (Machado, diretor do filme) lembrou de mim.

Você já o conhecia?
Não, conhecia a Fátima e o Lázaro (Ramos, ator), mas o Wagner (Moura, ator) e o Sérgio não. Quando ele me ligou fiquei super a fim, mas estava viajando para divulgar Cidade de Deus lá fora, pro Oscar. Falei que queria muito, mas só voltaria depois de uma semana. Fui, li o roteiro e amei, fiquei com mais vontade ainda de fazer o filme. Voltei e fui direto para a Bahia, onde fiquei três meses. Foi muito louco porque minha vida mudou radicalmente de uma hora para outra. Mas foi muito legal.

O Lázaro e o Wagner já são amigos há muito tempo, então já havia uma dinâmica prévia entre eles. Foi difícil para você entrar nisso por conta do filme?
Foi muito engraçado porque minha entrada foi parecida como acontece no filme. Quando eu cheguei, eles já estavam lá há três semanas. Eles foram demais. Foi bacana porque deu a sensação do intruso, mas eles foram de uma generosidade, um carinho, um cuidado... E eles são grandes irmãos, então fiquei apaixonada por eles, pois são muito generosos e apaixonados pela profissão, sabe? O que me ensinou muito. Trabalhar com pessoas que tem muito desejo e alma é muito bacana.

Você pretende focar sua carreira somente no cinema?
Tenho loucura por cinema, mas também tenho vontade de fazer teatro e televisão. A TV é muito válida porque a gente aprende e se abre para um mundo de pessoas e tocá-las é muito bacana. Ainda não deu porque eu tenho me dedicado ao cinema, minha grande paixão. Agora estou louca para fazer teatro.

Agora você tem algum projeto de cinema em vista?
Então, vou dar um tempo, por enquanto. Mas se pintar alguma coisa eu me jogo, né? Foi convidada para fazer um filme da Lila Chamin que se chama A Via Láctea, com o Marco Ricca, mas ainda não sei se vou fazer. Rolou uma conversa rápida, mas é possível. Mas eu também quero muito estudar. Graças a Deus as coisas estão acontecendo muito rápido em minha vida, mas estou precisando dar uma estudada. Ator, na verdade, nunca pode parar de estudar.

O que costuma te atrair num projeto?
O roteiro. Não sou muito difícil de gostar das coisas, mas sempre me atraio às coisas que têm algum porquê. A verdade, as paixões que o diretor está contado me atraem. O Sérgio me encantou muito porque ele era dono daquilo que estava contando, sabia muito bem. Mas para eu dizer "não" para algum filme é tão difícil. Acho que eu nunca recusei um trabalho.

Então você deu sorte.
Super! Só neguei curta porque não cabia, mas tem uma galera jovem muito boa fazendo curtas-metragens. Por exemplo, assista a Alice, do Rafael Gomes, é muito bom. Foi uma amiga minha que produziu, eles deram um gás, sabe? O nome já é lindo, né? (risos)

Como foi filmar no México?
Demais. Trabalhar com outra cultura é muito bacana. Adorei.

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