Amauri Tangará (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Seus dois longas são sobre personagens tipicamente brasileiros. O que te inspira ao fazer um filme?
O universo que me cerca. Vivo na zona rural da Chapada dos Guimarães. Os únicos barulhos que ouço são dos pássaros e do vento, o ritmo de vida aqui é outro. É lento. A histórias que ouço dos amigos, dos meus vizinhos, da família, são de gente comum, com suas sabedorias de vida sedimentadas no cotidiano de um Brasil profundo. Estamos mergulhados num universo diferente dos grandes centros urbanos. Conseqüentemente, meus filmes seguem nessas direções. Daqui da minha casa consigo ver quase todas as locações do meu último filme (Ao Sul de Setembro). Esse Brasil existe e eu enxergo, ouço, toco, bebo, como, piso... Esse Brasil está nos meus filmes. Os "contadores de causos" de hoje e da minha infância camponesa são minha grande escola narrativa. Embora estranhos, diferentes, meus filmes são tão brasileiros quanto todos os outros filmes do Brasil.

Como surgiu a idéia de Ao Sul de Setembro?
De onde moro, consigo ver uma casinha velha, quase em ruínas, à beira do despenhadeiro. Essa visão sempre me inquietou e eu vivia dizendo pra mim mesmo: "Preciso fazer alguma coisa com aquela casinha". Assim, surgiu a idéia de fazer um filme sobre a história de alguém que quer fazer um filme (nada biográfico!) sobre um poeta que chegou na Chapada, na década de 70, acompanhado de uma bela mulher, fugindo da repressão política.. Um dia, a mulher desaparece e ele, enlouquecido, vai todos os dias, durante 30 anos, esperar por ela à beira da estrada, com um buquê de flores e um poema. Os buquês são jogados num terreno e os poemas colados nas paredes da casinha. Esse "causo" é contado, no filme, por um ex-garimpeiro, apaixonado por cinema, para uma jornalista que veio ajudar alguém a fazer um filme. Dá pra entender? Tomara que não!

O que você diria aos jovens brasileiros que querem, como você, fazer filmes?
Que é possível! Qualquer um que tenha um pouco de vontade e uma boa história pra contar, pode fazer. Se não der pra fazer em 35mm, faça em 16mm, em digital, em VHS... Tem de experimentar! Ninguém nasce Glauber Rocha ou Pasolini, mas quem tenta poderá um dia ser melhor que eles.

Fazer cinema no Brasil já é difícil. No Mato Grosso, então, deve ser mais ainda. Fale um pouco sobre isso.
Faço cinema no Brasil de Mato Grosso. A nossa maior dificuldade é convencer a mídia, os críticos do setor, que o cinema que fazemos aqui, pelas próprias condições geográficas, sociais, etc, possui uma narrativa, um ritmo, uma abordagem diferente do cinema que se faz nos grandes centros urbanos. Mas, nem por isso, é menos brasileiro, menos interessante e menos importante para a cultura do nosso País. Tenho dito e repetido por aí que não concordo que chamem meus filmes de "cinema regional". Acho isso excludente, divisionista, preconceituoso. O que se faz em São Paulo ou no Rio de Janeiro é "nacional" e o resto é "regional", por quê? Eu faço cinema brasileiro em Mato Grosso, da mesma forma que tem gente fazendo cinema brasileiro no Maranhão, em Santa Catarina, em Minas Gerais, São Paulo, etc.