Andréa Beltrão

30/09/2009 17h06

Por Angélica Bito

Andréa Beltrão é figura bastante conhecida da TV desde aos anos 80, quando participou de programas como Armação Ilimitada. Até hoje, ela circula muito bem entre trabalhos para a televisão, teatro e cinema. Conhecida mais por seus trabalhos como comediante, Andréia mostra sua veia dramática em Salve Geral, em papel criado para ela por Sérgio Rezende, diretor e roteirista do drama, que culmina nos ataques do PCC a São Paulo em 2006. Conversamos com a atriz sobre este trabalho:

O Sérgio Rezende disse que você mudou todas as falas da Lúcia. Foi complicado conseguir isso? Tem diretor que não gosta...
Ah, eu pedi, né? Realmente, quando li o roteiro, fiquei apaixonada, mas quando comecei a estudar, cismei que a Lúcia tinha de se comprometer o menos possível com tudo, expor quase nada, busquei a maior aura de mistério que conseguisse. Entrei nessa viagem que ela tinha de falar muito pouco, precisamente. Para ser entendido por quem está lendo, o diálogo precisa de muitas informações que estão no ator. Numa demonstração de enorme confiança e parceria que eu e o Sérgio fizemos desde o começo, ele me deu essa liberdade. Mexia tudo, mas não mostrava para ninguém, falava sempre com o Sérgio antes. Ele autorizava, ou não, mas acabou deixando todas as vezes! Isso me ajudou muito na construção da Lúcia, saber que tudo tinha de estar preso nela, ela só desmonta na última cena, quando finalmente aparece uma pergunta prosaica.

Você concorda com o Sérgio quando ele diz que a Lúcia manipula o tempo todo, inclusive no romance dela com o Professor?
Num primeiro momento, ela o conhece e se encanta como mulher quando vê um homem bonito daquele olhando interessadamente, o que não ocorria há algum tempo e, se ocorreu, ela não percebeu porque não estava interessada. Depois que ela namora o Professor, percebe que aquele cara, mesmo dentro da prisão, tem valores semelhantes aos dela, uma ética com a qual ela pode argumentar. As atitudes dele a deixam mais à vontade e ela se aproveita também, no melhor dos sentidos, do poder que aquele cara tem. Ela se sente protegida e forte para ir mais além na busca pela integridade do filho. A Lúcia não quer fugir com o filho, o tempo todo ela busca pela integridade da vida dele. Quando a Lúcia vê que isso só existe na cabeça dela, que o mundo real não caminha como ela quer, percebe que terá de agir diferente. É quando ela começa a afundar e se sujar toda nessa lama. Quando o Professor morre, ela está mais forte.

Tanto que ela não faz dramas...
Ela chora, faz a tatuagem e acabou.

É um filme que te incomoda?
Não. Não gosto da cena do estilete. Ela sofre muito, mas é tão real... Geralmente, as pessoas fecham os olhos para o sofrimento, querem evitar, como a história dela fechar os olhos no trem fantasma.

E você, como intérprete da protagonista, sofreu no processo de realização do longa?
Não, tenho muita técnica para não sofrer. Trabalhar com grandes atores brasileiros me deu esse presente de eu admirar e aprender a técnica desenvolvida por eles. A profissão não é de emoção, é precisa. Emocionar é difícil, tem timing, quando você passa do ponto fica chato...

Aliás, uma cena muito boa sobre isso é quando sua personagem chora cobrindo o rosto, o que remete também ao Jogo de Cena, quando a Marília Pêra diz que quando as lágrimas são reais o ator cobre o rosto.
Não concordo com a Marília. Ela ali bateu firme no martelo, fechou demais a questão. Claro, ela não estava nem falando dela por ser uma atriz sensacional, fora do normal, um ícone, uma referência mundial, mas já vi a Marília fazendo cenas emocionantes sem esconder o rosto. Depende do contexto, depende do papel, da trama, de tudo. Talvez ela estivesse se referindo – e eu concordo em gênero, número e grau – a um atual abuso da expressividade no ator. Chorar é muito fácil, não leva a lugar nenhum. Me incomoda muito quando uma atriz chora e não fica com a cara toda torta, é isso o que acontece quando choramos: pinta uma veia na testa, sob uma bolsa [sob os olhos], a boca entorta, vem uma baba, escorre meleca... É humano! As atrizes que choram lindas não existem. Acho que ela estava se referindo mais a esta questão. Foi engraçado você se lembrar disso porque me incomodei muito porque a menina não chorava. Foi mais forte do que eu. Ensaiei o tempo todo para não chorar. O Coutinho me falava: “Andréa, ela é Olímpica, heim? Ela não chora!” E aí aconteceu. Chorei muito mais, ele foi bonzinho na edição final, tive uma crise em frente à câmera. Fiquei irada de ter chorado!

No filme, tem outro componente da personagem: ela está muito envergonhada, é inacreditável aquilo acontecer a um filho educado por ela com o maior amor do mundo, com possibilidades de uma vida bacana e alegre, normal. É uma situação de horror e a Lúcia esconde a cara naquele momento também por isso. É uma escolha que não foi da atriz, mas da personagem, em relação à situação que ela estava vivendo. Achava que eu mesma não ia segurar ali, é uma cena muito forte.

O Sérgio comentou sobre você ter opinado sobre uma sequência entre a Lúcia e a Ruiva. Teve alguma outra cena que você mudou?
Não, este caso foi pontual. O Sérgio dá liberdade total, mas sabe tudo que quer. E se ele lembra somente dessa cena, foi só essa porque ele é um computador, lembra de tudo! Não dá nem vontade de falar perto dele, só de ouvir, que homem poderoso! Ele está num momento magnífico, né?

Como surgiu o convite?
Ele foi me ver no teatro, na peça As Centenárias, que eu faço com a Marieta [Severo], o Sávio [Moll], e me convidou para fazer este filme. Não entendi nada, ele tinha acabado de me ver de nariz de palhaço, vestida de homem, falando “pernambuquês” com “ceares", e ele me saca essa mulher? Nem acreditei que ela para mim o papel.

Qual foi sua sensação depois de ler o roteiro?
Fiquei eletrizada, muito emocionada, chorei logo no começo, lendo. Fiquei eletrizada pela construção do filme, pela excelência da construção dos papéis, todos maravilhosos, isso é de uma raridade impressionante. Normalmente você tem uma grande protagonista e uma mega antagonista, que no caso é a Denise [Weinberg], mas um elenco inteiro, todos na mesma altura? Isso é muito raro!

Você é conhecida pelos papéis cômicos, mas tem sido cada vez mais vista em papéis dramáticos. É sua ideia enveredar-se para este gênero?
No Rio, faço muito drama no teatro, adoro fazer drama, pena que algumas peças a gente não consegue trazer a São Paulo. O que parece ser uma novidade, para mim é um caminho bastante percorrido. Fico só contente com isso, mas minha medalhinha de comediante fica aqui para sempre, é um título de nobreza que carrego. Gosto do inesperado, dos convites surpreendentes que acontece. Não gosto e não acredito em planejamento, tudo depende dos fatores envolvidos, agenda, possibilidades, saúde, bom papel, um diretor bacana... Tudo isso, somado, vira uma decisão.

Essa emoção que você diz ter sentido ao ler o roteiro tem a ver com o fato de você ser mãe, como a personagem?
Tem muito a ver, não posso ver uma criança em sofrimento, não aguento. Uma pessoa indefesa, em sofrimento, sem ajuda é uma coisa horrorosa. Sou muito derramada, na minha vida particular, tenho um afeto muito solto, às vezes até me reservo um pouco pela timidez, mas é só bater uma afinidade que a pessoa pode fazer o que quiser de mim. Mas isso não fica a serviço do meu trabalho, sou capaz de separar bem.

E a segunda temporada de Som & Fúria, sai?
Olha, foi um sucesso para o horário, deu um prestigio muito grande para a TV e todos nós que participamos. Foi uma parceria muito bem sucedida da O2 Filmes e a Rede Globo por meio da figura do Guel [Arraes], o produtor. Então, a possibilidade é enorme. O Fernando [Meirelles] já está conversando com o Kenneth Brannagh para trazê-lo para fazer! Está ficando grande! Eles são amigos e o Brannagh está querendo fazer uma participação na série.

Leia também entrevista com Sérgio Rezende.