Ângelo Antônio fala sobre experiência de filmar em lixão em Entre Vales

Ator conviveu com catadores de lixo para compor seu personagem e diz que vivência mudou seu olhar

05/05/2014 22h14

Por Roberto Guerra

Entre Vales

Ângelo Antônio em cena de Entre Vales: "Hoje não passo impune por um cara na rua catando lixo"

Foto: Divulgação

Entre Vales, segundo longa do premiado diretor Philippe Barcinski (de Não por Acaso), foi rodado em 2012 e nesta quinta-feira (8) chega às telas brasileiras depois de percorrer o circuito de festivais no país. Em mais um trabalho elogiável, Ângelo Antônio (2 Filhos de Francisco) dá vida ao protagonista, Vinícius, empresário bem-sucedido que vê seu mundo ruir sem prévio aviso depois de uma perda dolorosa. Ao longo da trama seu personagem passa por uma jornada de transformação e perda de identidade que o leva a virar catador de lixo. O ator conversou com a reportagem do Cineclick sobre as exigências do papel e seu processo intuitivo de compor personagens.


Seu personagem em Entre Vales não é um tipo fácil de interpretar e o filme se sustenta inteiramente em sua transformação intensa ao longo da narrativa. Como se preparou para o papel?
Eu sou completamente intuitivo. Gosto de ler coisas que tenham a ver com personagem, ver filmes que se relacionem com o que vou fazer. Para fazer Entre Vales, por exemplo, assisti àquele filme do Javier Badem, Biutiful. Achei que aquele pai, que aquele universo era inspirador para eu compor meu papel. Em suma, gosto de ler, de ver coisas. E, claro, de vivenciar a realidade de pessoas que tenham uma vida semelhante a do personagem. Para fazer este filme fui conviver e conhecer pessoas que moram no lixo, que vivem do lixo, saber suas histórias.

Como foi a experiência?
80% das pessoas que aparecem ali no lixão comigo são catadores e não atores. Eu convivi com eles e com muitos mantenho contato até hoje. Levei essas pessoas para conhecer minha mãe, que faz trabalho social. Outra coisa que me surpreendeu e ajudou muito no trabalho foi ouvir suas histórias de superação, de como foram parar ali. Eles dão graças a Deus por ter o lixo. Com o lixo eles conseguiram construir famílias, criar filhos.

O que tirou para você dessa relação?
Por meio dessa convivência você começa a dar valor a coisas que não exergava antes, passa a ter outro olhar. A gente só pensa no lixo como o lixo, mas eles veem aquilo como possibilidade de transformação. E o filme no fundo trata disso, de gente se transformando, se adaptando. Hoje não passo impune por um cara na rua catando lixo. Sei dar valor e respeitar essas pessoas.

Foi difícil se desligar do personagem e de tudo que presenciou?
Sonhei muito com isso na época. O barulho dos caminhões, dos tratores, o cheiro de lixo, os urubus voando sobre nossas cabeças, aquilo não saiu fácil de mim. Eu virei um catador, catei lixo ali com eles, experimentei a força que eles têm. E não é uma força só física, mas de caráter, de traçar e buscar objetivos. E não havia tristeza ali, mas sempre um clima agradável. Eles brincavam me vendo catar lixo e diziam: 'A gente achava que ator era só para dar beijo em mulher bonita' (risos).

Entre Vales

Entre Vales: ator teve dificuldade em abandonar experiência intensa 

Há uma cena no filme bem tensa, que marca a espiral de decadência do personagem. Foi complicada fazê-la?
Aquela era um cena que tive preocupação justamente para evitar passar do tom. Jamais poderia liberar a energia acima do que era previsto. É um estudo mesmo. Naquele momento o personagem deixa de pensar, ele se solta e temos de ver o que sai dele organicamente. O grande barato dessa cena é ter conseguido essa medida. Até o último momento discutimos bastante ela. Na hora de filmar foi bacana, forte, todo mundo que estava no set se emocionou. Eu trabalhei muito para chegar nesse momento, mas sem querer desenhar muito tecnicamente o que seria.

Ser menos técnico e mais intuitivo o faz se cobrar muito a cada papel?
Meu problema nem é ansiedade diante de um trabalho novo. É diante da cada cena. Fico tenso até numa cena em que vou entrar para colocar isso aqui na mesa (se referindo a um copo d'água durante a entrevista). Minha busca é me cobrar menos. Acho que hoje controlo a ansiedade um pouco melhor. Estou na busca disso há anos, de me libertar um pouco desse ego. Ainda me cobro muito, me critico muito e sofro. Já procurei até homeopata atrás de uma coisa para dar uma relaxada, mas nada adianta. Acho que vou morrer assim. Meu descanso mesmo é quando paro de trabalhar, fico sem fazer nada, vou pro mato. Aí relaxo de fato.

Quais são suas impressões sobre o cinema brasileiro feito hoje?
Fico um pouco preocupado com o que o público está querendo ver. Eles só querem ver comédia, seja no cinema ou no teatro. Fernando Meirelles desistiu de filmar Grandes Sertões Veredas por causa do desempenho de Xingu. Isso é triste, assustador, não pode! A gente tem de resistir. Fico me perguntando aonde a gente vai parar. Não é que tenha uma visão pessimista, mas sim realista; isso está acontecendo agora. Mas tudo passa, afinal, e daqui a pouco estaremos em outra fase. É que nem o lixo, que depois vira adubo, vira rosa.

Então não há possibilidade de vê-lo numa comédia?
Não, nada disso. Eu faria uma comédia, inclusive tenho vontade de fazer um personagem engraçado. Acho que sou engraçado, as pessoas é que não sabem disso (risos). Tenho vontade de fazer uma coisa engraçada, mas que fosse leve. Não queria fazer nada escrachado, até porque não saberia fazer. Quem me conhece mais intimamente sabe que sou engraçado.