Anke Wilkening (Exclusivo)

17/10/2009 10h00

Por Heitor Augusto

Em 2001, foi lançada a mais completa versão, até aquele momento, de Metrópolis, filme de Fritz Lang de 1927, que teve cerca de 30 minutos limados quatro meses após a estreia. Desde então, os rolos ficaram perdidos.

No ano passado, o Museu de Cinema Pablo C. Ducros, em Buenos Aires, encontrou os minutos restantes e contatou a Fundação Friedrich Murnau, que detém os direitos do filme. Começou então o processo de remontagem, que deve ser finalizado em 2010.

Em entrevista por e-mail ao Cineclick, Anke Wilkening, que comanda a restauração, explica como os trechos descobertos na Argentina vão alterar profundamente a narrativa e a compreensão de alguns personagens.

Quais passos da restauração já foram percorridos?
Começamos a reconstrução da primeira versão lançada. Ela é tocada por Martin Koerber, da Deutsche Kinemthek Berlin (responsável pela restauração de 2001), Frank Strobel, responsável pela adaptação e condução da trilha sonora composta por Gottfried Huppertz e eu.

Comparando a versão de 2001 com a argentina, percebemos novas questões em torno da edição. Decidimos trabalhar, em paralelo, com a reconstrução da montagem e a adaptação para o piano da trilha – já que a música tem sido muito útil na edição, já que os negativos da cópia original lançada na Argentina sumiram.

Então vocês estão apenas completando o que falta?

Apesar que já sabemos quais são os buracos no filme, nosso trabalho não consiste simplesmente em preencher lacunas, especialmente por duas razões: 1) mesmo que essa seja a maior versão disponível, ainda restam pequenos trechos desconhecidos; 2) para alguns pedaços de cenas da versão de 2001, os trechos da Argentina sugerem uma edição diferente.

A restauração digital começou recentemente. O que queremos é melhor a qualidade da imagem sem usar artefatos digitais que alterem a textura do filme. O problema é que a cópia original que foi usada na distribuição da Argentina não existe mais e a cópia em 16mm está riscada e já impregnou na imagem.

A Fundação Friedrich Murnau pretende lançar nos cinemas alemães? Já existe algo planejado? Os brasileiros poderão conferir Metrópolis nas telonas?
Em linhas gerais, vamos restaurar e deixar disponível a versão completa para qualquer cinema que requisite. A Transit Film, de Munique, nossa parceira na distribuição, é a responsável pelo relançamento nos cinemas.

Certamente as partes encontradas vão mudar o entendimento do filme, mas de que maneira e em qual intensidade?
A estrutura vai mudar radicalmente, especialmente o entendimento dos três personagens coadjuvantes: Josaphat [o empregado demitido por não alertar sobre a rebelião], Georgy [que tem um colapso causado pelo trabalho excessivo] e “der Schmale” [o espião], que foram renegados aos extras do DVD.

Outras duas cenas básicas explorando a relação de Freder [filho do dono de Metrópolis] com Josaphat e Georgy foram eliminadas pela Paramount no lançamento para o mercado norte-americano e pela UFA na Alemanha.

Também será alterada a relação entre Rotwang [o inventor da máquina] e Fredersen [dono da cidade] e a razão pela qual a amizade deles foi destruída vai ficar evidente graças à famosa cena Room of Hel, quase completa na versão argentina.

De que maneira os rolos foram encontrados no Museu de Cinema Pablo C. Ducros? Eles entram em contato?
Eles nos procuraram por meio do restaurador Luciano Berriatúa, que foi o primeiro a ver o material após ele ter sido encontrado. Depois, Paula Felix Didier, do museu, veio até Berlim com um DVD feito por eles a partir do material em 16mm e, apenas aí, tivemos a oportunidade de ver o material.

Quando a restauração vai acabar?
Nosso objetivo é terminar o projeto no início de 2010.