Anna Muylaert (Durval Discos)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Como surgiu Durval Discos?
Depois de muito tempo trabalhando para os outros, resolvi que estava na hora de realizar um projeto meu. Passei um ano e meio me dedicando à criação de um roteiro. Eu queria contar uma história da relação entre patrão e empregado. Cheguei ao roteiro de um longa, que tinha a ver com Durval no tom. Mas conclui que era difícil de dirigir para um primeiro filme. Comecei, então, a tentar transformar em algo mais fácil de dirigir, com poucos personagens e bastante locações fechadas. Daí, por meio da minha irmã, isso em 1996, conheci a história do Edgard, dono de uma loja de discos que se recusava a vender CDs. Achei que era um bom ponto de partida e comecei a criar a história a acrescentar e elementos.

Durval Discos começa como comédia e no meio do caminho a trama dá uma reviravolta e se transforma numa trama policial sufocante. Você não teve medo que essa guinada radical não soasse real?
Tive, claro. Quando fui para o laboratório de roteiros, em Sundance, essa era minha grande preocupação. Lá, conversei com um roteirista americano que me disse para ir em frente porque isso era o bom do filme, o legal do roteiro. Ao mesmo tempo, fui entendendo que o tom tinha de ser sempre realista para o filme funcionar. Se as pessoas notarem bem, mesmo enquanto Durval é uma comédia estão presentes as sementes do que está por vir. Afinal, um cara de 45 anos com aquele cabelo morando na casa da mãe não é normal. Essa é a grande ousadia desse filme mesmo. Eu trabalhei muito o roteiro para que ele fosse milimetricamente plausível, para que cada passo fosse aceitável.

Como se deu a escolha do elenco, já que o bom resultado do filme dependia da química entre Durval e sua mãe?
Em 1996, quando fiz a primeira leitura do roteiro, convidei vários amigos e, entre eles, estava a Etty. Nessa época, nem pensava nela para o papel. Aliás, pensava numa atriz mais velha. Mais aí ela leu o roteiro e, com aquele jeito dela, me disse: "Me dá aqui que eu vou fazer e tal..." Ela se apossou da personagem. Só que estava tão longe de filmar que eu nem levei a coisa muito a sério. Mas acabou que não tive como dissuadi-la da idéia. A Etty é tão decidida que me gerou até alguns problemas durante as filmagens. Ela simplesmente se recusava a me obedecer (risos). Eu tive que falar: 'Etty, pelo amor de Deus! Se você não fizer assim você vai ter de sair'. Já o Ary, escolhi por meio de testes mesmo. Foram 25 candidatos e, de cara, gostei muito dele. O Ary deu o tom diferente ao personagem. Mesmo fazendo o Durval como estava previsto no roteiro, ele acrescentou bastante.

E a escolha da trilha sonora?
Essas eram as músicas que eu curtia na década de 70, os discos que eu tinha e ouvia na minha vitrolinha. Depois o Pena (Pena Schimidt, produtor musical) entrou para a equipe e me ajudou na seleção das canções para que elas se enquadrassem no filme.

Por você diz que dirigir um filme é pura solidão?
Porque, de um lado, você tem muita gente envolvida no processo criativo, tem de organizar toda a equipe e fazer com que ela entre num eixo de trabalho. Mas toda decisão que você vai tomar gera sempre polêmica. São 25 a favor, 15 contra, outros 12 que querem uma terceira solução.... É estresse para todo o lado. E você tem que definir na sua solidão o que é melhor, aquilo que, no todo, vai funcionar bem. Nem sempre o que você gosta é o melhor. Essa é a grande questão da direção.

Qual seu próximo projeto?
Estou pensando numa história em que os personagens centrais serão uma mãe, um filho e uma babá. Eu quero tratar essa questão da babá, do lance da mãe sair e vir alguém de fora cuidar, educar seu filho. E, no caso do roteiro que estou pensando, a babá larga uma filha na Bahia para cuidar do filho de outra pessoa aqui. O filme vai explorar essas contradições: quem cuida de quem e a criança no meio disso. Mas ainda é só uma idéia, preciso de tempo para trabalhá-la.