Anna Muylaert (É Proibido Fumar)

03/12/2009 15h31

Por Ana Martinelli

Depois do sucesso de públido e crítica de seu primeiro longa-metragem, Durval Discos (2003), Anna Muylaert prepara-se para a estreia de É Proibido Fumar, protagonizado por Glória Pires e Paulo Miklos. A diretora recebeu o Cineclick em sua produtora, mostrou 12 minutos de seu segundo longa, mesmo sem estar finalizado e; conversou sobre seu processo criativo, suas influências e expectativas para este filme.

Na sequência de abertura de seu primeiro longa, Durval Discos passeamos pela Rua Teodoro Sampaio ao som de Mestre Jonas, de Os Mulheres Negras. Em É Proibido Fumar você apresenta os protagonistas na abertura do filme com Taj Mahal, numa versão cantada por Gilberto Gil e Jorge Ben Jorge. Em seus filmes a trilha sonora é um personagem fundamental. Você acredita que a vida tem trilha sonora?
Acho que sim. No caso dos filmes as duas músicas aconteceram por acaso, mas elas reforçam os personagens. No Durval Discos por causa da loja de discos e no É Proibido Fumar porque a Baby (Glória Pires, Se Eu Fosse Você 2) toca violão e o Max é um roqueiro frustrado. Nos dois filmes, a música tem um papel importante. E no meu processo criativo, ajuda a criar e entender a personalidade dos personagens que eu escrevo. Pessoalmente, eu sou um “Durval” (risos), eu não me ligo muito em coisas novas, costumo ouvir as coisas que eu sei que gosto. Mas acho que a ligação com a música é ainda mais profunda, música e moda andam muito juntas. Você pode ver no figurino do Durval, a roupa também reflete quem ele é. Se você prestar atenção no figurino da Baby, vai sacar que ela gosta de MPB e é fã de Chico Buarque.

Qual é a trilha sonora do casal Baby e Max (Paulo Miklos, Estômago)? E como isso influência o relacionamento deles?
Como eu disse, a Baby gosta de Chico e o Max é um cara mais Jorge Ben Jor. É como se um fosse um cachorro e o outro um gato. O nome de cada um já diz alguma coisa sobre eles: a Baby se diminui, muda pelo outro, em nome do grande amor que ela acha que precisa e o Max, se coloca mais do que é. E a música marca várias passagens do relacionamento deles e eles discutem sobre isso dentro do filme. De certa forma, serve como uma metáfora sobre o amor.

Paulo Miklos já era músico antes de virar ator. Mas no filme, a Glória Pires também toca. Como foi a escolha dos atores?
A Glória leu o roteiro e topou, mas ela não sabia tocar. Isso foi um ano e meio antes das filmagens, então ela começou a fazer aulas de violão por causa do personagem. O Paulo é músico, então para ele foi muito mais fácil nesse sentido. Porém, não foi o único critério para a escolha do ator, eu queria uma interpretação desencanada para o Max. Mas até por ser músico e saber muito a respeito, a colaboração do Paulo no filme não se limitou a tocar. Ele sempre aparecia com várias sugestões, umas 90 músicas... (risos) sem brincadeira. Então, todo o processo foi muito tranquilo e prazeroso também.

Além dos protagonistas, em É Proibido Fumar você voltou a trabalhar com vários atores que fizeram seu primeiro filme como a Marisa Orth e a Etty Fraiser.
Eu sou uma taurina fiel. Gosto de trabalhar com os meus amigos, sei que dá certo. Não somente na frente das telas, parte da equipe também filmou o Durval Discos comigo.

Além de dirigir, você também é roteirista dos seus dois filmes. É mais fácil dirigir assim ou tem a ver com você ser roteirista mesmo antes de estrear em longa-metragem?
Eu me formei em cinema e comecei como roteirista na TVCultura (nos programas Mundo da Lua, Castelo Rá-tim-bum, por exemplo), mas acho que não dirigiria um filme que não escrevi. Para mim, o cinema é um processo inteiro. Quando decidi que queria fazer um filme. eu parei de trabalhar por um tempo, aluguei uma casa em Paraty e resolvi que queria ser uma diretora que tem um tipo. Que tipo era esse? Eu não sabia. Fiquei me debatendo, escrevi contos e comecei a trabalhar no embrião que viria a ser o Durval Discos.

Foi um processo longo com muitos tratamentos, mas foi nele que eu reconheci um humor que é meu. Acho que o Durval e o É Proibido Fumar são irmãos na ironia. Pode parecer pretensioso, mas eu penso em criar uma obra, no sentido de um universo particular, um cinema que as pessoas reconheçam como meu. Eu fiz cinema porque os meu ídolos são diretores como Federico Fellini (Amarcord), Woody Allen (Tudo Pode Dar Certo), Pedro Almodóvar (Abraços Partidos). E quando você assiste um filme deles sabe que ali tem uma visão de mundo. É o meu barato.

Você citou diretores consagrados. Quem mais te faz sair de casa para ver filmes?
Mais recentemente, eu gosto muito dos irmãos Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez) e do Wes Anderson (Viagem a Darjeeling).

Depois de uma boa estreia de crítica e público com Durval Discos, a pressão de fazer o segundo filme foi maior?
Eu fiquei um pouco tensa durante as filmagens do É Proibido Fumar, mas nada é maior que a pressão do primeiro filme. Claro que há expectativas, mas isso é normal. Neste filme, pela primeira vez, fizemos um teste de audiência e foi bem legal. Eu estou envolvida no filme desde agosto e, confesso, chega uma hora que você não aguenta mais. Apresentar e discutir com uma platéia deu outro ânimo. Foi muito importante ver as reações, ouvir os risos, sacar o que estava bom e o que precisava mexer. Quanto a expectativa do lançamento no cinema, estou mais ou menos tranquila... Até porque já aprendi que essas coisas não têm muito como prever.

Essa foi a primeira exibição?
Não, no final do ano passado fiz uma exibição fechada para amigos e equipe. Foi terrível, as críticas foram bem duras, mas acho que era o que eu precisava ouvir. Como eu escrevi e dirigi meu distanciamento é menor, por isso eu acho importante ter mais alguém pensando com você no filme na montagem. Quando vimos que o filme não estava funcionando, eu e o Paulo Sacramento (Encarnação do Demônio), montador do filme, voltamos para a ilha e em uma semana cortamos 17 minutos. Mudou completamente o andamento da história. Nesse sentido acho que sou bem radical, se é para cortar, eu corto. O teste de audiência foi bem depois disso, e como disse foi ótimo. Acabamos mexendo mais um pouco, mas foi bem mais tranquilo.