Atores de Linha de Passe

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Me parece que os diretores buscaram atores que tivessem em sua carga pessoal algo a acrescentar aos personagens. Como vocês se identificam com os personagens que vemos em Linha de Passe?
João Baldasserini: O Vinícius (de Oliveira) foi o primeiro a entrar no projeto e imagino que ele tenha sido a base de todas as outras escolhas. Me identifico com o Dênis em muitas coisas. A preparação para o filme foi a partir das minhas emoções, vivências, histórias de vida e necessidades humanas. Me identifico e agradeço ao personagem porque descobri muitas coisas verdadeiras em mim com as quais não tinha contato até então. Foi um presente.
José Geraldo Rodrigues: Também acho que há muitas semelhanças entre mim e o personagem. Ao mesmo tempo, teve um trabalho de caracterização, uma imersão no que cada ator deveria viver o que o personagem passava.
Kaique de Jesus Santos: Eu me identifico com o Reginaldo porque, quando ele quer uma coisa, vai atrás, persiste até conseguir.

Você já imaginava que queria trabalhar com cinema e perseguia isso ou descobriu no set mesmo?
Kaique de Jesus Santos: Não, descobri quando fui descoberto! (risos)
Vinícius de Oliveira: Ainda na pergunta anterior, o que está de principal nosso em cada personagem são as emoções. Trabalhamos com a Fátima (Toledo, preparadora de elenco) exatamente isso para dar mais realidade às emoções dos personagens, por mais que não sejam do nosso dia-a-dia, mas estão dentro de nós.

Que tipo de referências vocês buscaram para compor os personagens antes de filmarem?
João Baldasserini: Tirei carta de moto, convivi com motoboys. Paralelamente ao trabalho com a Fátima, fazia treinamento de moto, andava diariamente durante duas horas por São Paulo, com um motoboy do lado, para pegar a manha da moto, me sentir à vontade. Também fiz laboratório numa agência de motoboys. Fiquei ali uma semana, convivendo com eles, que sempre me contava histórias, que foi fundamental pra mim. Pensar naquele peso de não saber se você voltará ao sair de casa todos os dias foi importante. E, realmente, quando você começa a andar de moto em São Paulo, tem de ter atenção 24 horas, tua proteção é teu corpo. Isso foi naturalmente. Também notei como eles se relacionam. É uma realidade difícil: arrisca-se muito, ganha muito pouco. Tanto que o sonho de ninguém é ser motoboy, é uma necessidade. Ao mesmo tempo, ninguém olha pra motoboy, tanto que ele pede para ser olhado, mas isso não é específico dele, é coisa do ser humano mesmo essa necessidade.
Vinícius de Oliveira: Eu perdi o sotaque carioca; é engraçado que, sempre que venho para São Paulo, falo como paulista. A preparação envolveu quatro anos de treinamento em escolas de futebol.

Por que tanto tempo?
Vinícius de Oliveira: É que, quando comecei a treinar, havia uma previsão de um ano e meio ou dois até o início das filmagens, mas ele foi sendo adiado e eu continuei treinando. No Clube Santo André, tive oportunidade de participar de peneiras e senti na pele o que é isso.

E você, José, freqüentou cultos evangélicos?
José Geraldo Rodrigues: Freqüentei. Do momento em que a gente passou no teste até efetivamente começarmos a ensaiar, foi um tempo longo. Eu e o João tínhamos uma dúvida: se eu seria o evangélico ou ele. Essa dúvida era só nossa, na verdade, só descobrimos quando começamos a filmar. Neste momento, o filme foi adiado por um problema com o roteiro, então nesse meio-tempo comecei a ler a Bíblia e passei a freqüentar um culto evangélico aqui em São Paulo, no Ipiranga. Procurei muitas igrejas e nessa encontrei um pastor muito sensível, as pessoas iam ali para se encontrarem, para saírem dali com mais vontade de serem sinceras com a família, com mais vontade de entender o outro. Pra mim, foi uma experiência única.

Você seguia alguma religião antes disso?
José Geraldo Rodrigues: Sou católico, mas não ia à igreja. Não tenho uma religião, apesar de acreditar na fé. Freqüentar a igreja evangélica e, principalmente, os ensaios com a Fátima Toledo, mudaram minha vida. Ela foi a pessoa que mais me encorajou a procurar o que eu acreditava. Nesse ponto, a Fátima Toledo foi a Quadrangular da igreja do Dinho.

Kaike, você dirigiu um ônibus?
Kaique de Jesus Santos: Pois é, eu fiz aulas na auto-escola. Quando não tinha filmagem, eu ia para a escola e ficava observando os motoristas dos ônibus que tomava. Até que chegou o dia de dirigir o ônibus, mas não estava sozinho, tinha um motorista abaixado pra me ajudar caso desse problema. Mas é como eles disseram, sem a Fátima não teria existido o Reginaldo.

O treinamento da Fátima é conhecido por ser muito rigoroso. Vocês sofreram neste processo?
Imagina! (neste momento, os atores todos fizeram coro, brincando com a pergunta)
Vinícius de Oliveira: Foi muito difícil, mas no final ficou um resultado bonito.
João Baldasserini: Eu li o roteiro antes de começar o processo da Fátima e pensei: "Nossa, este personagem só é mal, não tem uma oscilação". Naquela época, não conseguia ver o tamanho e a profundidade que existia naquilo. O processo da Fátima é dividido em três partes, tem toda uma desconstrução envolvida. Entrei com várias interrogações sobre quem eu era e é bonito porque ela te coloca no chão. É bonito o trabalho dela. Depois de mostrar ao ator o que ele é, ela entra com essa parte de personagens, de roteiro mesmo. Você realmente descobre com o trabalho dela que você tem ódio, raiva, carência, medo... Mas ela também te mostra que o outro também é importante. Não é só porrada. Você aprende a amar com ela e isso é bonito.

Vinícus, você estuda cinema e pretende ser diretor. Como que te influenciaram os trabalhos com Walter Salles nesta sua escolha?
A visão que ele tem de cinema e do nosso país mexe comigo. Esta é sua principal característica que faz com que eu tenha vontade de ser diretor como ele. Quero sempre ter um olhar diferente do que já está aí.

Você já tem algum projeto mais próximo a esse seu desejo de ser diretor?
Ainda não. Penso muito, mas em algum momento preciso colocar tudo isso no papel, é que não tenho muita disciplina para escrever, daí precisaria de um roteirista. Em breve, farei parte da equipe de A Morte e a Morte do Quincas Berro D'Água, do Sérgio Machado, como assistente de direção.

Leia também entrevista com os diretores Walter Salles e Daniela Thomas.

Leia também entrevista com a atriz Sandra Corveloni.