Beto Silva e Tabajara Ruas (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O filme Netto Perde Sua Alma é inspirado no romance homônimo de Tabajara. Como e quando surgiu a idéia de transpô-lo para às telas?
Tabajara - A idéia surgiu de um fato concreto, que foi o lançamento de um concurso de roteiros, organizado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e pela RGE (Rio Grande Energia). Era um prêmio importante, R$ 1,1 milhão para cada um dos três roteiros premiados. Então o Beto e o Esdras (Esdras Rubim, produtor do filme) me procuraram dizendo que aquela era a grande oportunidade de conseguirmos uma base para realizar uma produção. E a idéia, desde o início, era criar o roteiro em cima de um de meus romances. Nós acabamos optando pelo desafio de filmar Netto Perde Sua Alma, justamente o menos cinematográfico de meus livros. Eu insisti que fosse o Netto pelo que ele tinha de desafio e exercício cinematográfico. Era como se estivéssemos filmando um épico, um western, um filme romântico. A história tinha vários gêneros dentro dela. Preparamos o roteiro, demos sorte e fomos um dos contemplados.


Por ter uma linguagem pouco cinematográfica, Netto apresentou muitas dificuldades de adaptação?
Tabajara - As dificuldades foram grandes. Primeiro, queríamos ter um contato com o público que não se perdesse. O filme tem seis partes e, cada uma delas, se fecha em si mesma; cada parte é uma história individual. Elas, juntas, formam um contexto, um conjunto, a grande história. Fazer isso em literatura não é nenhuma novidade, mas no cinema é difícil. Tínhamos que fazer com que o espectador percebesse o tempo presente da narrativa. E o tempo presente foi o hospital (onde o personagem Netto é internado ferido). Daí, a narrativa passa a se dar em flashback, o que é bem diferente do romance. Quando descobrimos como manter a narrativa presente, tudo ficou mais fácil. Depois, reduzimos o número de personagens, acrescentamos cenas necessárias ao entendimento etc.

Como surgiu a parceria de vocês?
Beto Souza - Eu e o Tabajara já tínhamos trabalhado na idéia de um curta-metragem experimental chamado Cem Anos Depois, que acabou não se concretizando. Tínhamos o sonho de trabalhar juntos um dia. Até que surgiu esse concurso do governo do Rio Grande do Sul, no final de 1998. Achamos que era o momento de partir para um outro patamar de produção. E o filme foi um desafio enorme. O primeiro longa-metragem dos dois e, ainda mais, dessa magnitude: complexo, histórico, difícil de fazer.

Netto Perde Sua Alma tem ares de épico, com cenas de batalhas etc. Um orçamento de R$ 3 milhões não é baixo para os padrões brasileiros, mas para um filme como esse, sim. Vocês tiveram problemas para administrar o orçamento?
Beto - Não chegamos a ter problemas, mas tivemos que nos planejar muito para que não acontecessem. Como você mesmo disse, R$ 3 milhões não é pouco dinheiro, mas um filme do tamanho do Netto deveria ter um orçamento maior. Então, planejamos muito e sempre tivemos os pés no chão. É que a gente sempre sonha quando vai fazer um filme; sonha em ir para a Lua, mas ir para Lua custa caro. Você acaba tendo de 'baixar a bola', reescrever algumas coisas e derrubar outras. Me lembro que tinha uma cena que gostaríamos de ter feito e tivemos de deixar de lado por causa do orçamento, para poder finalizar o filme. O bom é que, depois que o filme ficou pronto, concluímos que foi até uma decisão acertada do ponto de vista da narrativa. Talvez ela embrulhasse, enrolasse mais a história.

Tabajara - As decisões que tomávamos eram sempre em cima da questão estética. Sabíamos que não podíamos filmar essa cena, que era a de uma festa tropeira com mais de cem pessoas, uma longa seqüência. Daí, fomos atrás de uma alternativa que esteticamente valorizasse a troca. Era até uma forma de auto-estímulo, justamente para não cair naquela de achar que não estávamos fazendo o filme que queríamos fazer. Por isso, sempre buscávamos uma idéia, uma alternativa que restabelecesse a questão estética.

E qual foi a alternativa nesse caso?
Tabajara - A cena era uma longa seqüência e servia para contar o namoro do general. É claro, ela tinha outras motivações: a descrição do ambiente rural de uma estância rica, de aristocratas estancieiros. Então, quando vimos que era muito difícil fazer, resolvemos centrar em dois elementos que fazem parte do filme: a solidão dos dois personagens. O Netto já era um homem de seus 50 e poucos anos que nunca tinha sido casado; a Maria também era uma solitária, uma viúva que não tinha nem chegado a casar - o noivo dela morreu na guerra. Centramos o filme na solidão de ambos e fizemos uma longa seqüência dos dois andando pelo campo, que surtiu um bom efeito, deu uma quebra no filme, que ficou mais lento, mais pausado, com mais densidade.

O que lhe atraiu no personagem Netto?
Tabajara - Em primeiro lugar, o fato dele ser um personagem real, representante da aristocracia rural riograndense, mas muito singular. Ele era republicano e abolicionista num país que vivia a monarquia, cuja a base da economia era o braço escravo. Ele lutava contra isso. Portanto, trata-se de uma figura singular no cenário, justamente por ter essas idéias progressistas para a época. Ele proclamou a independência da província, ele criou um Estado, criou um país, tudo isso aos 32 anos. Um personagem romântico, porque sonhava alto, e trágico, porque perdeu. No livro, fica mais claro que cada ato é uma derrota: ele perde um amigo, perde a república, a abolição e assim por diante. É quase um personagem de ficção, mas, na verdade, é um personagem da história riograndense muito pouco conhecido, até mesmo no Rio Grande do Sul.

Como foi o trabalho de pesquisa de época?
Tabajara - Além de existir um material iconográfico bastante grande, nós contamos com uma diretora de arte perseverante, a Adriana Borba. Ela foi atrás de informações do tipo: 'Quais eram os arreios de cavalo usados na época?', 'Qual era o tipo de gado que havia naquele tempo?' etc. Havia todo um cuidado com fauna e flora. Não filmamos árvores que não fossem nativas, animais que não tinham na época... Tivemos de ir atrás das oito cabeças de gado franqueiro ainda existente no Brasil, que era o gado comum na época. Nossa figurinista, a Tânia, fez um grande trabalho de pesquisa de roupas, adereços etc. Na verdade, a qualidade técnica do filme existe graças ao trabalho dessas pessoas.

O cinema regionalista gaúcho tem maior dificuldade de penetração no resto do Brasil do que o cinema produzido em outras regiões. Por que vocês acham que isso acontece?
Beto - O imaginário brasileiro tem muito mais elementos nordestinos, até por questão de tamanho da população. Não se trata de um preconceito. O que acontece é que a cultura nacional tem menos signos sulistas. Isso é um fato. O que mais representa esse imaginário nacional são as novelas da Globo. Elas seguem uma seqüência: uma urbana seguida de uma nordestina. E, às vezes, de cinco em cinco anos, eles filmam um Érico Veríssimo. Acho que essa dificuldade, essa estranheza é decorrente do o Sul formar uma minoria, de serem signos exóticos dentro de uma cultura dominada por outra, de outra parte do País.

Tabajara - Concordo com o Beto; o Rio Grande do Sul é muito pouco conhecido na dramaturgia. As paisagens, as roupas, a maneira de falar. Tudo isso causa estranhamento. As pessoas olham e ficam um pouco desconcertadas. Isso vai acabar na medida em que tivermos mais expostos à mídia. No Rio Grande do Sul, hoje, tem 14 longas-metragens em andamento, sendo quatro já filmados e em fase de pós-produção. Isso significa que, nos próximos dois anos, haverão 14 filmes gaúchos circulando por aí. Aos poucos, as pessoas vão se acostumando, perdendo esse estranhamento, afinal, o Brasil é um país tão diversificado.