Bianca Comparato (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O que a fez ter vontade de fazer parte deste projeto?
Na verdade, fui convidada a fazer os testes para este filme. Pelos testes, fui recebendo as cenas e lendo sobre o projeto. Nesse período, fui me apaixonando por Anjos do Sol. Quando eles deram certeza sobre minha participação no projeto, já estava querendo fazer o filme, então foi muito boa a notícia. Este é um projeto importante, principalmente pelo tema. O roteiro é difícil, mas dá a possibilidade para o público digerir, assistir até o final e pensar sobre o assunto. Isso me instigou a fazer. Além disso, gostei da Inês desde o primeiro momento. Precisamos de mais "Inêses" em nossa sociedade.

Como foi a construção de uma personagem tão forte como Inês?
Ela é bem diferente de mim. Ela vive noutro contexto: morando na Bahia, foi expulsa de casa cedo. Eu, na idade dela, estava no colégio, vivia para estudar. Não cheguei a fazer laboratório, li o livro do Gilberto Dimenstein, Meninas da Noite. Criticam o jornalista pelo fato dele ter usado fotos das meninas no livro, mas isso me ajudou muito na composição. Porque, nos documentários que vi, os rostos estavam escondidos. Claro que essa proteção é necessária, mas ver as fotos do livro me ajudou a compor o gestual da Inês. Elas têm outra relação com o sexo, não são femininas. Também fiz um trabalho corporal. A idéia de passar a noite inteira num quarto, fazendo sexo com garimpeiros, era completamente fora do meu mundo. Aquilo é muito distante da minha noção de sexo. O trabalho corporal foi feito com a Helena Varvaki e ajudou muito a trazer isso para o corpo. Também fizemos um trabalho com a Paloma Riani, que prepara atores. O que me ajudou nos ensaios, antes da filmagem, foi a música. Meu roteiro era todo rabiscado e relacionado a músicas.

Músicas da trilha?
Não, a trilha sonora foi feita depois... A Paloma trabalha muito com música clássica e gostei muito desse método, até então inédito para mim. Pegamos algumas músicas da trilha de Fome de Viver (1983). Tem uma música desse CD que é meio paranóica, só tem barulhos, o que foi ótimo. Todas as cenas foram trabalhadas tendo como base algumas músicas.

Quais foram as maiores dificuldades em Anjos do Sol?
Sempre tive essa preocupação de não estereotipar a Inês, como fazer a menina andando de pernas abertas (risos). Minha dificuldade constante foi saber até que ponto ir. Nos ensaios a gente exagerava numas cenas para depois pegar a essência. Como nunca tinha feito cinema e gosto muito de assistir a filmes, sei que a interpretação em cinema é muito mais sutil. Então, tive de ficar muito atenta a isso. Mas, como ensaiamos bastante antes das filmagens, nesse período fui trabalhando essas minhas dificuldades. Antes do filme, eu achava que a prostituição infantil estava muito longe da realidade, mas hoje sei que em qualquer esquina existe. A cada vez que vejo o filme, mais "fichas vão caindo". Cada vez que dou entrevistas, penso mais ainda. Por exemplo, fomos a Salvador divulgar o filme entre os jornalistas e saí muito mexida depois dessas sessões, o que também é um desafio. Durante as filmagens, estava tão concentrada na Inês que na época não pensei tanto no assunto. É agora que estou digerindo.

Como uma pessoa apaixonada pelo cinema, você pensou em algum personagem dos filmes para compor a Inês?
Até tentei. Por exemplo, para fazer a Maria João da novela (Belíssima), vi muito Nikita (1990), porque acho que as duas têm um jeito parecido. Já a Inês tem um contexto tão diferente que nem pensei em referências cinematográficas, fiquei mais no livro do Dimenstein e alguns documentários que vimos. Na verdade, quis olhar crianças interpretando porque eu tinha 18 anos na época e minha personagem tinha 13, 14. E a interpretação da protagonista de Encantadora de Baleias (2002) (Keisha Castle-Hughes, indicada ao Oscar por esse papel) chamou muito a minha atenção, apesar de eu nem ter gostado tanto do filme. Ela é uma criança muito adulta, sabe? Acho que essa foi minha maior referência.

Anjos do Sol traz uma história extremamente forte. Que tipo de aprendizado você tirou após este projeto?
Foram dois aprendizados. Primeiro foi o profissional, amadureci muito como atriz após este filme. Eu estava nessa definição de ser uma atriz profissional. O outro foi em relação à minha visão sobre a prostituição infantil. Também aprendi como um trabalho de arte pode provocar a sociedade para que nossa vida comece a mudar. Quando vi Anjos do Sol pronto, fui surpreendida. Espero que mais pessoas sintam o que eu senti ao assisti-lo.

Você disse que, quando filmou Anjos do Sol, ainda não tinha certeza se queria ser atriz. Você diria que esse trabalho foi decisivo para essa resolução?
Foi. Eu já sabia que queria ser atriz, mas antes de fazer Anjos do Sol, não sabia que podia. Depois do filme, passei a ter mais segurança quanto a isso.

O filme foi feito antes mesmo de você ganhar notoriedade após a novela. Talvez uma coisa tenha puxado a outra, não?
Com certeza. Até que tem uma relação engraçada da novela com o filme. Quando terminei o filme, fui chamada para fazer a novela Senhora do Destino nos últimos dois meses. Para o filme, como você deve ter reparado, fiz um permanente e fui tirando aos poucos porque não queria ficar com o cabelo muito curto. Quando fiz Senhora do Destino, estava com a raiz do cabelo lisa e o resto encrespado, uma beleza! Mas, quando a novela terminou, pensei que não poderia correr o risco de estar com o cabelo assim para o próximo trabalho, então resolvi cortar de vez. Quando fui fazer os testes para Belíssima, o Silvio de Abreu, autor da novela, adorou meu corte porque a Maria João tinha um lado masculino e um mais feminino. Então, ele achou que combinou. Diretamente, esse filme ajudou! (risos)

Você já tem trabalhos engatilhados no cinema? Quais?
Vou fazer o novo filme do José Padilha (Ônibus 174) e é sobre o BOE (Batalhão de Operações Especiais da Policia Militar) do Rio de Janeiro, abrangendo a corrupção, o tráfico e a violência dentro da polícia. É um filme de ficção e eu serei uma personagem da faculdade, meio "patricinha". No final do ano, devo fazer algo na TV, depois de rodar o filme.

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