Breno Silveira (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como foi a preparação do elenco antes das filmagens? Qual era o principal objetivo desse processo?
Queria trazer a verdade, para que a atuação seja sincera, envolva o espectador; não gosto de interpretações exageradas. Em alguns filmes isso cabe, mas não foi o caso. Para mim foi um presente saber que o Thiago tem esse tipo de envolvimento com a história, que a vida dele era parecida com o do personagem, isso me ajudou a descobrir que meu personagem deveria falar muito com o olhar, raramente ele é verborrágico, gosto desses personagens. O Francisco (de 2 Filhos de Francisco) também era assim. Isso vai te deixando muito dentro da cabeça dos personagens. A Laís Correa me ajudou a preparar os atores, mas ela trabalhou mais com o PC (Paulo César Grande) e com os meninos, o PC principalmente porque ele foi o último a entrar no projeto. Os atores principais, o Thiago, a Vitória e o Rocco, não queria que ninguém mexesse, eu já havia descoberto como eles eram. Mas sempre queria que ela trabalhasse antes, não gosto de preparador no set.

Afinal, o diretor é você...
Sim. Quando fiz 2 Filhos de Francisco, ficava nervoso porque tinha vindo de trabalhos como diretor de fotografia, minha maior insegurança era dirigir atores e acabei estragando o trabalho dos fotógrafos porque queria sempre que a atuação se destacasse mais. Neste filme, deixei os fotógrafos trabalharem um pouco mais, ele vem com uma beleza mais forte, bem acabada, mas não perdi a insegurança com os atores, é uma coisa que não posso parar de desenvolver; tentar entender o mundo deles, ainda dou dez vezes mais atenção pros atores do que pras câmeras. Um dia, quando eu tiver muito bem com os atores, farei um filme fotografando também. Afinal, foi onde comecei, mas, por enquanto, atuação é tudo para mim e estou amando isso. É um trabalho muito bonito, de sensibilidade, não é técnico.

O fato de você ter dirigido 2 Filhos de Francisco ajudou você a filmar este filme no morro?
Este filme abre todas as portas possíveis e imaginárias em qualquer lugar do planeta, é uma loucura o que este filme faz! Pra filmar no morro, distribuí o filme antes.

E o pessoal conhecia o filme?
Sim, 100%, é impressionante! Dei o filme para todo mundo, inclusive pra polícia. E ele abre muitas portas. Até hoje me espanto com isso. Ele é um cartão de visitas que me ajuda muito, até mesmo na empolgação dos atores, todos vieram com o coração aberto. 2 Filhos de Francisco foi uma sorte em minha vida. E aprendi muito com ele. Aprendi que meu assunto principal eram os laços emotivos que juntam e separam as pessoas, ao mesmo tempo que fazem elas cometerem grandes enganos na vida.

O roteiro de Era uma Vez... já existia antes de você fazer 2 Filhos de Francisco. Quais foram as mudanças que você implementou na história deste filme, baseado nos aprendizados que você teve em sua estréia como diretor?
Quando comecei este roteiro, ele ainda tinha a estrutura do menino pequeno que queria ser bom, que tinha um irmão que admirava... Era mais centrada na primeira parte do filme. Ele tinha uma virada forte com o irmão, mas falava de uma coisa que já foi muito dita. O argumento estava certo, mas não tinha amor ali. Descobri que gosto de fazer as pessoas rirem, chorarem, se emocionarem; a emoção está no cerne do meu trabalho. Baseado nisso, transformei aquela história em Era Uma Vez.... A Patrícia Andrade (roteirista) me ajudou nisso, ela é uma pessoa muito delicada, também gosta de trabalhar com isso, e acho que o público brasileiro quer se emocionar, somos um povo emotivo e o filme não tem vergonha de emocionar. Ele tem essa gangorra emotiva, que é tão boa no cinema.

Imagino que a exibição de Era uma Vez... no Festival de Cinema de Paulínia foi o maior terreno que você teve até então pra ver como funciona essa gangorra emotiva com o público (o Theatro Municipal de Paulínia, onde o longa foi exibido, tem 1.350 lugares). Como foi?
Fiquei muito nervoso, nem consegui assistir ao filme inteiro, entrei só no final. Achei até que a platéia não ia reagir. Com a quantidade de palmas que vieram depois do filme, comecei a chorar; fui abraçar meus atores e não conseguia parar de me emocionar. Percebi que o público entendeu e isso é o mais importante. Gosto de fazer filmes de estrutura simples, mas capazes de atingir todos os tipos de públicos. Queria até que a censura não fosse muito alto porque sou bobo, ainda acredito que os filmes podem ter mensagens. Se no outro eu dizia que as pessoas têm de acreditar em seus sonhos, neste eu falo para que as pessoas olhem para o lado. Eu tenho essa coisa boba, talvez ingênua. É uma história que pode atingir o público independente da classe social; também os adolescentes, já que é uma história sobre jovens. Eles vão se identificar, mas o pai e a mãe também podem.

O que você acha do cinema brasileiro produzido para os jovens atualmente?
A gente precisa que esse público volte ao cinema. É muito duro fazer filme sabendo que somente 10% do público vê cinema nacional. Depende de nós, cineastas, dos meios de comunicação de do público acreditar nas histórias. É um momento muito cruel. Fiz o primeiro filme da retomada - Carlota Joaquina - A Princesa do Brazil -, como fotógrafo, foi quando vi que existia uma possibilidade de levar o espectador ao cinema. Estamos vindo num constante crescimento, até 2 Filhos de Francisco, e agora fazemos uma curva para baixo, o que me preocupa muito. Precisamos conquistar o adolescente de volta. Não adianta fazer um filme para jovens se eles não vêem filmes nacionais. Mas espero que eles acreditem no filme e falem sobre ele. Estou fazendo vários debates em escolas e universidades para que abram esta porta pra gente poder entrar.

E como tem sido a recepção do filme junto a esse público juvenil que você tenta formar?
Eles se surpreendem tanto com o cinema nacional e suas histórias que a reação é excelente, acima do que eu poderia esperar. Todos ficam pro debate... Então, existe um preconceito deles também que, nessas ocasiões, começam a se romper. Fico feliz, mas não sei se esse grupo vai passar adiante... Lançamos o filme perto do final das aulas, então tentei fazer máximo de debates com estudantes. Mas já vi que no Orkut tem várias coisas sobre Era Uma Vez..., debates diferentes de pessoas que viram o filme. Ou seja, é algo espontâneo do próprio público jovem. Isso é bacana.

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