Bruno Barreto e Bráulio Mantovani (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Última Parada 174 junta-se a outros filmes brasileiros recentes que abordam a temática da miséria social, como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Como tratá-lo de uma forma que o tema não se torne batido?
Bráulio Mantovani
: Como foram feitos filmes que bastante impacto sobre esses temas, fica mais difícil fazer outros, mas isso não significa que os temas estão exauridos, só significa que, para fazer novos filmes sobre esses temas, talvez - e insisto no talvez, essas coisas não têm muitas regras - seja preciso encontrar pontos de vista insuspeitados, que ninguém está vendo ainda. A gente vive essa situação, então isso sempre nos influenciará. Os temas não se esgotam. Veja quantos filmes os americanos já fizeram sobre a Guerra no Vietnã ou sobre a Segunda Guerra Mundial, quantos filmes espanhóis têm como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola? O Labirinto do Fauno, do Guillermo Del Toro, é uma história fantástica e tem como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola. Essa realidade de violência é a nossa Guerra Civil Espanhola, seria muito difícil não falarmos disso. O que acontece é que os cineastas terão de buscar pontos de vista diferentes.
Bruno Barreto: Quantos westerns os americanos fizeram?
Bráulio Mantovani: Depois de tantos anos, quando o gênero parecia morto, veio Os Imperdoáveis, do Clint Eastwood, que é um clássico. Quem podia esperar que os roteiristas poderiam encontrar um ângulo do western que ninguém tinha visto antes? E virou um grande filme.
Bruno Barreto: Exatamente. E uma questão de viés: se ele for bom, vale a pena voltar a esse universo.

Não foi complicado inventar uma história cuja conclusão se dá num fato real, tão recente na memória do brasileiro?
Bruno Barreto: Nossa proposta sempre foi fazer um filme de ficção, não ficar preso à realidade. Por isso, nunca foi complicado, sempre foi muito clara a "pegada" que queríamos: queríamos nos apropriar da realidade para criar uma história de ficção. A ficção é uma reflexão sobre a realidade, mas não é a realidade. É complicado quanto você fica tentando reencenar o real, você fica aprisionado e muito provavelmente seu filme ficará um híbrido: não é um documentário, porque você já reencenou e nisso você já toma liberdades, ao mesmo tempo em que não tem o vôo da ficção.
Bráulio Mantovani: Não dá para ter medo dessas coisas. Se é uma boa história, ela tem de ser contada. Como espectador, nunca vou ao filme, mesmo quando é um documentário, achando que verei a realidade. O documentário é o recorte da realidade, ela mesma é passível de muitas interpretações. Então, essa história não aconteceu exatamente como está no filme, mas poderia ter acontecido. Nesse sentido, ela é verdadeira. As pessoas têm discernimento para saber que é um filme; se elas quiserem saber mais sobre o fato, pesquisa-se em jornais, conversar com as pessoas... Não é vendo um filme que tomamos conhecimento de um fato.

Por que você escolheu visitar a mãe adotiva de Sandro? Como foi o encontro?
Bráulio Mantovani: A Marisa verdadeira não existe. Uma senhora chamada Elsa inspirou a personagem do filme. Não escolhi, achei que tinha de ir, não sei se foi o Bruno que pediu ou se o (José) Padilha (diretor do documentário Ônibus 174) insistiu muito. Na verdade, não gosto de me aproximar dos personagens da realidade, acaba me travando muito. Se crio um vínculo com a pessoa real, fica mais difícil inventar um personagem, a pessoa real vai se impor muito na minha cabeça, nos meus sentimentos. A Elsa é uma pessoa muito deprimida, muito triste, é lacônica e falava muito baixinho, era impossível entender tudo que ela dizia. Meu encontro com ela me deixou muito triste, fiquei com muita pena dela, senti esse desejo de me afastar o máximo possível. Pra mim, foi a atitude de respeito que poderia ter, não querer saber mais da vida dela, não insistir em fazê-la relembrar dessa experiência tão dolorosa e partir realmente para a ficção. O que ficou da dona Elza na Marisa foi essa obstinação em reencontrar um filho perdido. Certamente, é um fenômeno com o qual qualquer mãe deste planeta vai se relacionar: e se eu perdesse meu filho, poderia vê-lo em outro? Para as mães, é uma questão universal. Graças à dona Elza, conseguimos entrar nessa história, mas não é a dela, ela não teve nada com consumo de drogas, não foi expulsa de favela... Aquilo tudo é uma construção ficcional pra gente chegar àquele final do filme que não vou contar qual é, mas é realmente uma grande surpresa! A gente acabou construindo o personagem daquela maneira.

Última Parada 174 teve sua primeira exibição no Festival de Toronto. Você mesmo tem uma carreira no cinema norte-americano que rendeu alguns filmes. Como você vê a recepção do cinema brasileiro lá fora?
Bruno Barreto: A recepção não poderia ser melhor, você vê a carreira do Walter Salles, do Fernando Meirelles e de outros cineastas, agora o filme Estômago está tendo uma carreira muito boa lá fora... Existe um interesse muito forte pelos filmes brasileiros no mundo inteiro, sempre no mercado do cinema de arte, é claro. A recepção do Última Parada 174 em Toronto, único festival no qual foi exibido até agora, foi muito boa, as sessões foram todas lotadas - até no meio da semana, à tarde -, cinemas de 600 lugares cheios. Dos filmes que passaram em Toronto, foi um dos mais assistidos, e as críticas, de uma maneira geral, foram muito boas mesmo. Não poderia ter ido melhor. Tudo indica que o filme terá uma carreira ao menos razoável no mercado externo.

E quanto à sua carreira internacional?
Bruno Barreto: Não pretendo mais morar fora do Brasil (Barreto voltou a morar no país desde 2005), mas nada impede que eu dirija uma produção internacional nos EUA ou na Europa, enfim, onde se passar uma boa história, com bons personagens. Sinto-me um cidadão do mundo depois de ter vivido quase 20 anos nos EUA, sinto-me um estrangeiro em quase todos os lugares do mundo. Me adapto muito bem. Um dos meus grandes sonhos é fazer um filme na Itália, em italiano. Espero que isso um dia aconteça, tenho de encontrar uma história. Vou aonde houver uma história boa para contar, pessoas interessantes, onde minha curiosidade me levar. Sou movido à curiosidade.

Desde que você voltou ao Brasil, seus filmes anteriores - Caixa Dois e O Casamento de Romeu e Julieta - foram comédias. Por que voltar ao tema social neste novo trabalho?
Bruno Barreto: Uma grande história, grandes personagens, uma curiosidade muito grande por essas pessoas, quais são seus códigos afetivos e éticos. A melhor forma de aprender mais e desvendar um assunto é fazendo um filme e, por isso, resolvi voltar ao drama, o que não fazia desde O Que É Isso, Companheiro?.

Como foi o diálogo de vocês com José Padilha?
Bruno Barreto: O Zé (José Padilha) ia produzir este filme comigo no início. Ele participou muito do começo dos trabalhos, até da formação do viés do filme antes da decisão de procurar o Bráulio - que, aliás, foi minha e dele. Como Última Parada 174 demorou muito tempo para se armar financeiramente, o Padilha começou a trabalhar no Tropa de Elite, que se armou muito mais rapidamente do ponto de vista financeiro, ele se desligou deste projeto para se dedicar totalmente ao Tropa. Foi isso que aconteceu, senão teríamos feito o filme juntos.

O Padilha contribuiu de alguma forma também para a construção do roteiro?
Bráulio Mantovani: Ele cedeu todo o material de pesquisa que tinha acumulado com Ônibus 174. Além disso, ele leu a primeira versão do roteiro e deu palpites. O documentário foi fundamental, o material que não está no documentário também foi muito inspirador, me ajudou muito a mergulhar nos muitos universos desta história, no mundo dos meninos de rua, dos assaltos, na ONG. Documentários sempre filmam muito mais do que acabam ficando, então tive acesso a todo esse universo fantástico, então foi muito bom, não precisei fazer pesquisa.

Obviamente, não poderia deixar de perguntar sobre suas expectativas em relação ao fato de Última Parada 174 ter a possibilidade de ser indicado ao Oscar...
Bruno Barreto: Tenho expectativas sim. Concordo com o Milos Forman: cineasta que diz que não quer ganhar o Oscar ou está pouco ligando pro prêmio está mentindo. Um prêmio dado por profissionais de cinema - e, hoje em dia, cada vez mais, não somente americanos, mas do mundo inteiro; por exemplo, ele (apontando para Mantovani) é um membro da Academia - é muito bacana, é muito mais importante do que ser reconhecido em festivais, por atores, críticos, que têm uma visão diferente da atividade. E um ótimo filme, que comove, ao mesmo tempo em que não manipula, então tenho grandes esperanças.

Se indicado, você votará em Última Parada 174?
Bráulio Mantovani: Claro, sem sombras de dúvidas. Tem até um lado político meu de defender o cinema latino-americano do terceiro mundo. Sempre daria um voto político, mesmo que não fosse um filme escrito por mim. Certamente, vou em oposição ao cinema de primeiro mundo. A indústria cinematográfica norte-americana é muito poderosa. Então, quanto mais gente do mundo inteiro estiver trabalhando lá, melhor. E tem. Aquilo lá é uma salada. Historicamente, Hollywood não tem nacionalidade, tanto que um dos roteiristas mais emblemáticos do cinema norte-americano, o Billy Wilder, é austríaco. É bacana dar visibilidade o cinema marginal do ponto de vista econômico. Economicamente, é mais difícil fazer cinema no terceiro mundo, então usarei meu voto politicamente quando for preciso.

Assista ao vídeo exclusivo sobre o filme

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