Caio Blat e Maria Ribeiro (Exclusivo)

10/03/2010 00h59

Por Heitor Augusto

Zeca (Caio Blat) tem 30 anos e não quer crescer. Prefere viver no mundo ideal a provar (ou não) que é um escritor de futuro. Já Julia (Maria Ribeiro), sua esposa, é o oposto: independente, decidida e pronta a buscar novas experiências. No meio do caminho, aparece Carol (Luz Ciprota), uma jovem (e sedutora) argentina que abre outros caminhos ao casal.

Em linhas gerais, assim se estrutura Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, estreia do experiente roteirista Paulo Halm na direção. Na entrevista exclusiva concedida ao Cineclick, Caio Blat e Maria Ribeiro falam de seus personagens e do principal elemento dramático da comédia: a dificuldade de uma geração em amadurecer e dar a cara a tapa:

Por que vocês estão tão empolgados com o filme?
Caio Blat: Por que?! Porque a gente acha que é muito legal! Quando lemos o roteiro, antes de topar fazer, vimos que era o filme que a gente queria ver no cinema. Fala da nossa geração, da nossa galera, são personagens conhecidos nossos, e existem poucos filmes que falem de relação, de pequenos temas. E ele fala de gente como nós. Um filme como gostaríamos de fazer, achamos que seria muito bem-vindo, não só para a nossa carreira, mas para o público...
Maria Ribeiro: Porque é herdeiro de Woody Allen, Domingos Oliveira, conversa com as chanchadas e tem um clima de sensualidade, coisa que no cinema está sendo perdida, com conteúdo. Acho um filme tesudo, tem um lado leve, mas, fala, de fato, de geração, da nossa.

Lá no início da minha carreira, quando tinha uns 20 anos, eu pensava “que saco, Malhação!”, e então fiz um curta, o 25, que falava de geração. Quando lemos o roteiro, percebemos como conhecíamos aquelas pessoas. Não somos nós, não nos identificamos com o Zeca e com a Julia, mas conhecemos isso, galera com 30 anos que não sai de casa, promessas de talento que não se cumprem...

Mas por que essas promessas de talento que não se cumprem são uma coisa da geração dos 30 hoje?
Caio: Porque o mundo tradicional, as profissões e o papel do homem provedor e reprodutor estão entrando em crise. Tem muita gente que evita sair de casa, as pessoas se entregam menos no relacionamento porque é mais fácil a separação. O filme diz que as histórias de amor duram apenas 90 minutos, e eu tenho vários amigos que estão esperando o momento certo. Cineastas que não terminam o roteiro, amigas que estão esperando o momento certo de ter filho mas, quando percebem, já chegaram aos 45...
Maria: Acho que a falta de ideal também, o que é muito triste. Quando as pessoas têm 20 anos, têm de querer mudar o mundo. Aos 30, fazer coisas relevantes. Claro que há a preocupação de pagar as contas, mas tenho a impressão de que antigamente as pessoas nessa faixa de idade queriam mudar o mundo, hoje pensam aprender inglês, iniciar plano de previdência. Isso forma geração mais cética e menos românticas, o que se revela em casamento, escolha política, entre outras.

No filme, o Zeca é muito sério e raramente sarcástico. Por que, frente às suas questões, o personagem é tão auto-indulgente e transmite uma certa sensação de pena e necessidade de colo?
Caio: Porque ele tem um ideal romântico, se inspira naqueles poetas, quer morrer por amor. Os poetas românticas morreram cedo ou fumaram ópio até a morte, ele queria ser assim, mas não tem coragem. Ele não é! Ele é um bundão, um garoto mimado que tem dificuldade de realizar coisas e vive se protegendo do mundo.

Ele se sente mal no próprio corpo, no lugar errado, em um Rio de Janeiro que pede corpo, mas ele detesta praia, samba. Toda hora quer o colo, é inseguro. Na verdade, o que ele não quer é amadurecer. Ele sonha que seu livro pode ser melhor, não consegue lidar com o mundo real. Por exemplo, em Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, eu nem sei se a história toda aconteceu ou se passou na cabeça dele, se tudo é uma possível trama para um romance que está escrevendo. Será que essas mulheres passaram e ele não aprendeu nada?

Pois é, para quem faz arte, dar a cara, no mundo real, é doloroso, mostrar um trabalho não é fácil...
Maria: Tem uma frase do Herman Hesse que eu adoro: “Só o pensamento vivido tem valor”. Na verdade, se você escreve bem com 15 anos, está certo. Com 20 anos, vai lá. Com 30, tem de ter algo publicado, ou um blog! Enfim, “tem que” porque, senão, você vê a vida passar. Não tem jeito, tem de colocar a cara a tapa, mesmo que seja ruim. Acho que a nossa geração padece um pouco disso.

Vocês contracenam com a Luz Ciprota, que é uma argentina, e a história se passa com um clima Lapa-Santa Tereza, pedacinhos do Rio de Janeiro. Vocês tiveram que explicar para ela o que era aquele lugar?
Ela é o elemento externo mas, na verdade, a personagem, Carol, é a que mais se parece carioca. Conhece todo mundo, vai no samba, adora a noite. Nós somos os mais estrangeiros, não gostam muito de praia. Mas isso dá um ingrediente legal. E a Luz estava empolgada, com disponibilidade, então ia em baladas, aprendeu português.

Já que estamos falando de geração, você acha mesmo que, como acontece no filme, uma mulher contemporânea pensaria duas vezes em deixar o marido para ir em busca de um projeto de vida?
Maria: Tão libertador quanto queimar sutiã e ter filho sozinha é uma mulher falar para o companheiro “prefiro ficar com você”, ou escolher não trabalhar e ficar em casa. Eu acho que a gente pode voltar para isso se é nossa opção. Hoje em dia até pega mal mulher que não trabalha. Acho que tem direito a isso. Eu ficaria infeliz se não trabalhasse, mas tenho várias amigas que querem cuidar dos filhos. Ou homens que gostam de cozinhar e ficar com os filhos. Num mundo ideal, acho que temos o direito de escolher.

Confira também a entrevista com o diretor Paulo Halm