Caio Blat (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como surgiu a oportunidade de protagonizar Batismo de Sangue?
Em janeiro de 2005, recebi o roteiro sem nenhuma explicação.

Você já conhecia o livro?
Não... E foi um choque, um susto. Como nunca havia ouvido falar nessa história? Estudei, sou formado! Que País é esse que não sabe de sua história recente, que geração foi essa que não passou o bastão pra gente? Fiquei encantado com a história, corri atrás de ler o livro do Frei Betto e fiquei mais espantado ainda, porque o livro conta toda a história em forma de dossiês, então é muito violento, forte e chocante. Fui a uma leitura do roteiro na casa da Patrícia Pillar e quando cheguei lá não tinha noção de qual papel faria. Chegando lá, estavam vários atores amigos meus, jovens e talentosíssimos. Até que o Helvécio (Ratton, diretor do filme) começou a distribuir os personagens e no final só faltava eu e o Daniel (de Oliveira, co-protagonista de Batismo de Sangue), ao mesmo tempo que só faltavam o Tito e o Frei Betto. Foi uma grande surpresa quando ele me ofereceu o papel de Tito, recebi com grande emoção. Esta foi a primeira leitura, quando já nos apaixonamos e nos envolvemos com a história. Poucas semanas depois, fomos a Belo Horizonte para iniciar o processo de preparação, que daria um filme a parte.

No momento em que você leu o roteiro, se identificou com algum personagem?
É engraçado, quando leio um roteiro de cinema, não enxergo os personagens individualmente, sempre vejo um ensaio coletivo. Não somente quando leio, mas quando faço também, são tantos atores com os quais contracenamos, de vários núcleos, que no resultado final a história que está sendo contada é de poucos, os outros passam e some. Isso cria uma confusão muito grande para mim, pois o processo é muito coletivo. Neste filme, havia o grupo dos dominicanos, dos estudantes da USP, dos policiais, da repressão... Era um filme muito coletivo e quando a gente vê na tela que está conduzindo a história é até estranho pra mim. Então, li o roteiro sem focar muito no personagem, mais entendendo como um filme de um grupo que resolve lutar.

Como foi realizada a preparação do elenco?
Como falei, ela daria um filme à parte. Acho que existe até um projeto de transformar esse processo em documentário, um longa-metragem só sobre a preparação de Batismo de Sangue.

Seria para sair em DVD?
Não sei... Foi um processo muito forte e longo, de um mês, no qual trabalhamos todos os dias com o Sérgio Penna, nosso preparador. Já tinha trabalhado com ele em Carandiru e outros filmes. Ele é maravilhoso porque trata de toda a violência que o filme precisa de uma forma delicada, trabalhando com a subjetividade do ator e também num processo coletivo, como sempre afirmo. O convento foi construído num galpão, para onde íamos todos os dias de manhã. Fazíamos café, limpávamos, trabalhávamos e éramos acompanhados por um frei dominicano.

O filme foi rodado lá?
Não, era somente um galpão, um espaço de trabalho. O frei nos passava todas as práticas religiosas, ensinou a gente a cantar os salmos, vestir o hábito, essas coisas. Tínhamos ensaios, leituras, jogos, escrevíamos poesias e interagíamos com outros grupos. Teve um dia em que estávamos no convento escrevendo poemas e o Sérgio havia combinado com um grupo de policiais que eles invadiriam o galpão. Bem, eles invadiram nosso ensaio, começaram a separar a gente, humilhar, jogar água fria, mandar tirar a roupa... Nem imaginávamos aquilo, foi uma surpresa. Além desse processo todo com o Sérgio, teve minha preparação específica para o Tito, uma quantidade absurda de técnicas: aula de canto, de violão - uma tortura! -; sotaque cearense; uma nutricionista para me ajudar a ganhar alguns quilos e ficar mais próximo da fisionomia do Tito; as provas de maquiagem com látex, que demoravam às vezes dez horas - outra tortura, com o "mestre" Vavá Torres; fora os ensaios físicos com dublês para as cenas de ação. Foi um processo realmente intenso, profundo e também teve um lado muito especial, afetivo, porque fui a Fortaleza buscar conhecer a infância do Tito. Fiquei uns dias na casa da família dele. Eles me deram uns livrinhos de catequese do Tito, me contaram sobre toda a infância e o universo afetivo dele, a formação religiosa fervorosa, tipicamente nordestina. Tive um painel muito grande nesses dois meses de trabalho que passei pesquisando e aprendendo. Até tive aula de datilografia porque o Tito batia na máquina de escrever com só um dedo. Meu quarto de hotel virou um painel, as paredes ficaram cobertas de fotos, documentos, cartas do Tito que eu batia de novo na máquina e punha a minha do lado para ver se estava ficando igual (risos)... Foi um centro de pesquisa.

Durante um bom tempo, o Tito ficou num convento na França. Como foi realizada esta parte do trabalho?
Foi o momento mais difícil até porque toda essa coletividade fundamental foi perdida nesse momento, eu estava exilado sem mais companheiros. Foi um processo muito delicado, conversei até com o psiquiatra do Tito porque não queríamos de jeito nenhum mostrá-lo como um louco, uma pessoa que perdeu a razão. O Tito estava sofrendo as marcas colocadas dentro dele, ele foi destruído por dentro na tortura. Os princípios e valores dele foram destruídos, aquilo dele ter sido torturado por um cara vestido de padre dando choques na boca dele... Ele não conseguiu se reconciliar nem com a própria religião. O trabalho delicado foi trabalhar com o fechamento do Tito e também suas alucinações sem nenhum aspecto de loucura; ele realmente achava que o Fleury (o principal condutor das sessões de tortura, interpretado por Cássio Gabus Mendes) estava ali e reagia naturalmente como se estivesse sendo perseguido não como um louco. A gente conseguiu compor com muita dignidade esse exílio do Tito, insuportável para ele, que dedicou a vida inteira pela justiça e pelo povo brasileiro e de repente se viu exilado do Brasil, sozinho, sendo mal-recebido na Europa, onde foi recebido como um padre traidor em Roma. Foi levado a um lugar totalmente inóspito, que é esse convento em Lyon, no interior da França.

Vocês foram lá?
Sim, ficamos lá um mês, filmamos aquelas partes lá mesmo e o convento é pior do que um presídio; é uma caixa gelada de cimento, onde fazia -10 ºC. Então imagina um cearense fervoroso e comunista sozinho nesse ambiente, com todas essas memórias terríveis. Ele não suportou.

O período da ditadura militar rendeu vários filmes. Em que Batismo de Sangue acrescentaria nesse painel que vem sendo construído?
Realmente, é um painel que tem de ser construído. Vários filmes sobre a ditadura são bem-vindos e em diferentes linguagens. Fiz o filme do Cao Hamburguer (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) que também aborda a ditadura que não se mostra a violência, é totalmente subjetivo no qual uma criança se encontra sozinha por causa da perseguição sofrida pelos pais. Então, acredito que todo esse panorama de filmes feitos sobre a ditadura é fundamental pra gente compor um registro dessa época e também para que esta geração nascida em 80 tenha acesso a isso, porque é impressionante como a gente não aprende, debate e discute sobre isso. Eu mesmo devo uns 90% do que sei sobre a época ao cinema e ao teatro. É importante que se faça esse registro. O Helvécio vem com uma proposta muito clara de fazer uma denúncia sobre como a tortura foi usada metodicamente pelos militares brasileiros como método de investigação sofisticadíssimo. Ele mostra isso no filme claramente, existiam até médicos que acompanhavam as torturas. O Helvécio quer que o filme venha de encontro a uma nova linguagem visual contemporânea; ninguém mais lê, então a gente precisa falar em imagens, e ele quer mostrar explicitamente como foi sombrio o tratamento que os presos políticos receberam nos porões da ditadura.
Ao mesmo tempo, este filme pode fazer com que as pessoas se interessem pelo livro do Frei Betto, o que é valioso numa época em que ninguém lê, como você mesmo disse.
O livro é um marco da época, mas que não chegou para nossa geração e é sobre isso que estou falando. É importante que ele seja retomado, que estudemos isso. Quando jovens em 2007 imaginariam que falar em justiça e liberdade significava risco de morte. É um período que a gente precisa conhecer.

No Brasil, há alguns anos a TV ainda era o mais importante para a carreira de um jovem ator, pelo menos em termos de popularidade e dinheiro. Hoje em dia, com a volta do desenvolvimento do cinema brasileiro, este quadro mudou?
As necessidades são sempre pessoais, você pode ser extremamente realizado fazendo seu teatro de grupo. A gente está vivendo uma fase inédita e excepcional em nossa história recente que é essa produção que o cinema brasileiro está nos oferecendo. Enquanto ator, só posso celebrar isso e cuidar para que minha carreira esteja antenada a esse movimento que acontece no Brasil. E sou muito feliz porque sou um ator desde pequeno de TV, já fui protagonista de muitas novelas, e estou conseguindo fazer essa travessia que às vezes é difícil, de um ator conhecido trabalhar tanto quanto estou trabalhando no cinema, com diretores avessos à linguagem e aparência dos atores de televisão, como é o caso do Cláudio Assis, com quem acabo de filmar (em Baixio das Bestas), do Cao Hamburguer num filme só com atores desconhecidos (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias). É um grande privilégio poder me afinar e dissolver naquela palheta de elenco que o Cao estava procurando. Celebro este momento que o cinema brasileiro está vivendo. Acho que estamos construindo nossa identidade visual. Proibido Proibir, por exemplo, é um registro da nossa época porque tem muitas produções sendo feitas sobre favelas, presídios, sertão, mas e sobre nós, que vemos esses filmes? Proibido Proibir é um registro de nossa juventude pós-ditadura, um filme fundamental. Agradeço a Deus por estar sendo aceito nessa travessia de ser uma pessoa conhecida e estar sendo bem-recebido no cinema. Acho que tenho uma cara muito comum, então isso me abre portas. O cinema é feito por pessoas comuns, a película tem uma coisa documental e precisa de pessoas normais. Essa minha cara comum também me ajuda a atravessar vários ambientes. Tanto que trabalhei com diretores de linguagens antagônicas; filmei com o Cláudio Assis e o Babenco (Hector Babenco, que dirigiu Blat em Carandiru)! (risos)

Fale um pouco mais sobre o filme do Cláudio Assis que você filmou...
É Baixio das Bestas, acabamos de chegar de Tolouse, na França, e ganhamos o principal prêmio no Festival de Roterdã (Holanda), o primeiro brasileiro a ser premiado lá. O filme está fortíssimo, também foi premiado em Brasília no fim do ano passado. Ele atrai quem gosta da renovação dentro do cinema nacional. Porque ele está dividido entre as produções de concepção mais clássica, tradicional, e quem está aí "chutando o balde", criando o novo cinema brasileiro, caso do Cláudio Assis, dos pernambucanos, aqui em São Paulo tem o Beto Brant e a Laís Bodanski... Enfim, mexendo um pouco coma estrutura do nosso cinema. Fico feliz de ser aceito nessas duas comunidades.

São três filmes seus estreando na seqüência...
Sim, mesmo se eu tivesse produzido todos pessoalmente não conseguiria essa proeza! (risos) Adoraria discorrer exaustivamente sobre cada um deles, são todos importantíssimos. Os espectadores vão se surpreender ao me ver em Baixio das Bestas, é bom avisar que sou eu, por que estou irreconhecível! (risos) Estou viajando muito e acompanhando os filmes em festivais internacionais, como San Sebastian (Espanha), Roterdã...

Como tem sido a recepção dos filmes internacionalmente?
Nos festivais mais avant-garde, independentes, como de Roterdã, Baixio das Bestas é recebido com glórias e prêmios; nos mais tradicionais, nos quais o pessoal busca mais as novelas e romances, ele é rejeitado pela força de sua violência. Em Tolouse, uma região mais católica e tradicional da França, ele foi totalmente rejeitado. O filme é muito forte e no final a platéia costuma ficar muda. É frustrante para os atores porque ninguém vem falar com a gente depois da seção. Mas é muito provocante. Já a história de Proibido Proibir começa em San Sebastian e é um megasucesso na França, já tem distribuição lá, até.