Cao Guimarães e Marcelo Gomes falam de O Homem das Multidões

Cineastas dão detalhes da parceria e revelam desejo de fazer um cinema fora do eixo
31/07/2014 09h15
por Roberto Guerra
Cao Guirmarães e Marcelo Gomes

Marcelo Gomes e Cao Guimarães: pensando em novas formas de contar histórias

Conversar com Cao Guimarães ou Marcelo Gomes é sempre uma experiência que agrega, para usar um termo da moda. Bater um papo com os dois juntos é ainda melhor. Criativos e interessados em fazer um cinema que definem como "fora do eixo", a dupla se conheceu em 2004 quando Gomes montava seu premiado longa, Cinema, Aspirinas e Urubus. Tornaram-se amigos e logo veio o desejo de trabalhar juntos. O Homem das Multidões, que chega às telas nesta quinta-feira (31), é o resultado bem-sucedido desta parceria.

A produção é livremente inspirada no conto homônimo do escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849). "O personagem principal dessa história de Poe me marcou muito. É um cara que não consegue nunca estar só. Ele fica seguindo gente na rua, isso no início do século 19, quando as grandes cidades estavam se estabelecendo e patologias urbanas ainda não eram comuns", disse Guimarães à reportagem do Cineclick.

Do primeiro contato ao filme estreando passaram-se 10 anos. Neste intervalo ambos os cineastas dedicaram-se a projetos pessoais. Cao dirigiu o documentário Otto, e Marcelo os longas Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (codirigido por Karim Aïnouz) e Era Uma Vez Eu, Verônica. Quando sobrava tempo, reuniam-se para dar andamento ao roteiro. Na conta ainda entram os anos gastos para captar recursos.

Demorou, foi sem pressa, mas o resultado harmonioso e coeso de O Homem das Multidões compensa. Revela também sintonia fina entre dois diretores autorais e de estilos diferentes. "É muito engraçado porque todo mundo fala isso, principalmente os cineastas e críticos. Porque acham que nossos filmes têm uma assinatura. E têm mesmo. Mas a verdade é que tudo foi muito natural, sem brigas, sem discussões", revela Gomes, que não ignora a distinção de estilos:

"Lógico que o cinema do Cao é mais plástico que o meu. O meu é muito mais de ator. Naturalmente, fui eu quem trabalhou com os atores no início das filmagens enquanto Cao discutia com o Ivo Lopes Araújo, o fotógrafo, sobre lente, enquadramento... Mas, de resto, sempre que havia uma decisão a ser tomada, tomávamos juntos".

O protagonista de O Homem das Multidões é Juvenal (Paulo André), um maquinista do metrô de Belo Horizonte que conduz milhares de pessoas de um lado para o outro todos os dias, mas é profundamente só. Para evidenciar a solidão do protagonista, Guimarães e Gomes propuseram uma ousadia estética: o filme é exibido no formato quadrado, com projeção ocupando o 1/3 central da tela e eliminado as laterais.

O Homem das Multidões

O Homem das Multidões: longa sobre solidão urbana é inspirado em livro de Edgar Allan Poe

A ideia bem-sucedida de casar forma e conteúdo tinha o objetivo de transportar o espectador para a angústia solitária do personagem, para sua bolha de retraimento. "A gente queria passar esse ideia da claustrofobia. E chegamos a esta opção do quadrado. É um formato muito rico no meu ponto de vista. Quando filma uma multidão num quadrado, ela fica mais compacta, mais claustrofobia nesse sentido", avalia Guimarães.

"Claro que nos preocupamos que tudo tivesse relação com as vivências dos personagens, que não fosse só maneirismo estético. Mas quanto mais a gente escrevia e entendia os personagens, mais a questão do quadrado ficava clara, compactuava com nossa ideia", diz Gomes.

Sobre a preocupação de o formato prejudicar o desempenho comercial do filme, foram taxativos: "Futuro comercial de filme é algo com que não nos preocupamos muito. Somos dois cineastas que estamos muito interessados em pensar em novas formas de contar uma história. Nossa intenção é desenvolver a arte cinematográfica e não fazer um pouco mais de tudo que já foi feito", diz Gomes, enquanto Guimarães aprova a declaração do amigo com um aceno de cabeça.

Fazer cinema autoral para a dupla não se resume apenas em ignorar padrões estéticos e narrativos tradicionais, mas também deixar margem à reflexão do público, botar o espectador para pensar. E não são poucos os questionamentos que O Homem das Multidões suscita, como a relação dos moradores de grandes cidades com a tecnologia, que se apresenta como causa e consequência de certo tipo de solidão moderna.

Acho que a tecnologia dá uma doce ilusão de que as pessoas não estão solitárias", avalia Gomes.
Cao concorda, acrescenta, mas se assume duvidoso sobre o futuro: "Acho que a fisicalidade é essencial para as relações humanas. Se você se vicia cada vez mais numa relação intermediada por um aparelho, vai criando outra forma de relação. Pra dizer a verdade, não sei onde isso vai parar, mas me parece assustador às vezes".

Esta e muitas outras ponderações os cineastas deixam para o público em O Homem das Multidões. Bom cinema "fora de eixo" para um mundo em transformação e pessoas atrás de refletir sobre ele.

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