Cao Hamburguer (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como surgiu a idéia de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias?
Estava morando em Londres na época. Foi quando comecei a ter algumas idéias, até porque era um estrangeiro. Tive vontade de falar sobre algumas coisas do Brasil, sobre a diversidade cultural. O mais importante, no entanto, era falar sobre essa fase da vida que a gente passa da infância pra adolescência, acho que é o primeiro grande amadurecimento. E por que não a minha? Levamos a história, então, para os anos 70 com todo o pano de fundo.

Você tinha a idade do Mauro na época?
Tinha...

Então, há algo de autobiográfico nessa história?
Tem muitos elementos que vivi. Por exemplo, sou metade judeu e metade católico. Também fui goleiro. Meus pais tiveram algum tipo de problema com a situação política, mas não morei no Bom Retiro. Eles não eram ativistas - mesmo porque tinham cinco filhos -, mas ajudaram muita gente que ficou escondida em casa. Por conta dessa solidariedade com amigos, eles "tiraram férias".

E eles falaram isso para você, que tirariam férias, como no filme?
Não me lembro de terem falado de férias, mas eu desconfiava que algo estava errado. Lembro de ter ouvido pela fresta da porta meu tio falando com minha avó. Ele pedia a escova de dente da minha mãe... Era um ambiente bem misterioso.

O fato de você ter vivido tudo isso foi mais fácil ou difícil na hora de construir o personagem principal do filme?
A grande salvação foi não fazer um filme biográfico. Ficamos livres para usar nossas experiências, mas focamos numa história original. Isso ajudou a criar um distanciamento.

Por que você escolheu o bairro do Bom Retiro para ambientar esta história?
Porque o Bom Retiro era o retrato da diversidade cultural que eu queria falar. Lá moravam judeus, italianos, negros e até alguns árabes. Era o lugar perfeito. Também queria que O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias se passasse na comunidade judaica porque é uma cultura muito interessante e existe esse paralelo com o exílio, todos vieram fugidos da perseguição, mais ou menos como Mauro.

Como foi encontrar o ator que interpreta Mauro?
Muitos testes. Depois de encontrá-lo, ainda demorei para escolher porque, além de ver o talento e o carisma, queria saber como era o caráter dele, a generosidade, convivência em grupo e ele (Michel Joelsas) só tirou dez em todos os quesitos. É muito importante tudo isso para um garoto entrar numa viagem tão maluca como esta, tão diferente das experiências de todos os seus amigos. É muito importante ter uma família e uma cabeça boa.

Quanto tempo durou a filmagem?
Oito semanas.

Quais foram as maiores dificuldades que vocês enfrentaram nesse processo?
Cada cena é uma dificuldade diferente. Mas não foi um filme de dificuldades, mas sim de soluções; tudo foi se encaixando e todos caminhavam para o mesmo lugar. O elenco entendeu minha vontade de fazer um filme cuja maior importância era mostrar a história do personagem, ninguém precisava fazer bonito: um solo maravilhoso na direção de arte ou um plano incrível de movimento de câmera. Tudo tinha de ser em função da história. Quando percebemos que era esse o caminho, todos entraram nele. Trabalhamos muito na presença da memória, mesmo as pessoas que não viveram nessa época. Todos pensaram pelo menos nessa fase da vida delas. A equipe é co-autora do filme porque todos estavam tão envolvidos, entenderam tanto o que eu queria fazer.

Você vem de uma carreira voltada ao público infantil e todo o ambiente de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é infantil, mas a história é muito dura, madura. Que tipo de público você acha que o filme deve atrair?
Ainda estou tentando descobrir. Pelo que tenho visto, o filme agrada a todos. Os mais velhos têm se encantado; entre as pessoas da minha idade, é uma emoção incrível sentir aquilo tudo de novo; os que nasceram depois de 70 têm um interesse por esse momento tão conturbado da história mundial. Sinto que os jovens querem uma ideologia para viver, como disse Cazuza. As crianças também têm gostado. As pessoas se identificam com passagem da nossa vida, a separação dos pais e na repentina solidão que o personagem sente. Ainda não consegui detectar qual é a faixa de público que gosta mais do filme.