Carla Gallo (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Ana Martinelli

O aborto é um tema tabu e que gera muita controvérsia, inclusive, entre as mulheres. Como foi a descoberta do tema?
Sempre tive muita curiosidade em relação ao aborto. Quando minha mãe ficou grávida de mim, o aborto foi uma possibilidade e ela me contou isso no início da minha adolescência. Então, cresci sabendo que a mulher decide. Essa questão se intensificou depois que me casei e comecei a perceber a possibilidade e também ver em mim a necessidade de ser mãe. Pensar em ser mãe para mim é também criar alguns parâmetros: ter um parceiro legal, que eu ame e que vá estar comigo nessa viagem, ter uma vida estabelecida profissionalmente, ou seja, quero estar num momento bacana. Pensando nessas coisas, comecei a observar que algumas mulheres optam pelo contrário por diversos motivos. Com o meu desejo de trabalhar com cinema, senti que o aborto era um tema com o qual poderia não só aprender muito, mas crescer. Assim, ele se transformou no meu tema.

O filme trata do assunto pela perspectiva feminina, se preocupa em ouvir o que as mulheres que estão vivendo essa situação limite na maternidade. Foi difícil encontrar mulheres que topassem falar?
A pesquisa durou cerca de três anos. Nesse período, visitei alguns hospitais que têm o programa Aborto Legal ou Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual; conheci os médicos e profissionais que atendem e prestam assistência às mulheres que procuram o serviço. Acho que ganhei a confiança deles. Então, eles me ajudaram muito a encontrar as minhas personagens, por isso não foi tão difícil. A relação com elas foi de muita intimidade e proximidade, aprendi muito e chorei muito também.

Como foi a relação com as personagens durante as filmagens? Houve algum caso que te tocou mais que outro?
Todas as mulheres do filme foram muito importantes para mim, com todas aprendi muitas coisas. A menina de treze anos me chocou muito, por ser uma menina, por ser um caso de estupro, por ser uma interrupção que durou tanto tempo (foram cinco dias), então foi um processo muito complexo. A mulher que fez cinco abortos também é muito importante no filme porque ela conjuga nela uma série de violências, de deficiências do Estado e dela mesma. Não dá para escolher, todas estão no filme por representarem uma situação específica. Eu me orgulho bastante de ter estabelecido uma relação de tanta confiança e intimidade com essas mulheres e ter deixado elas decidirem até onde eu podia ir. Isso se reflete também no filme porque a gente estava muito perto, em alguns casos, no momento em que o aborto acontecia. Isso para mim era muito importante.

Alguns recursos visuais da narrativa chamam muita a atenção. Uma das características do documentário é o imprevisível. Como você trabalhou isso durante as filmagens?
No documentário tem muita intuição e muito acaso. Havia uma pia num hospital, onde por vários dias acompanhamos um caso. Sentadas (Carla e Julia Zakia, sua assistente) ali no corredor e essa pia pingando... Pingando... Até o dia que eu disse: "gente, preciso gravar, acho que é a única forma de eu me livrar dessa torneira". Não sabia onde usar ou se usar. Quando fizemos o depoimento de uma mulher que já fez cinco abortos clandestinos e só deixou usar a voz, parecia perfeito por várias questões, mas, principalmente, por ser uma imagem não-realista.

Além das imagens não-realistas, você também adota um enquadramento fragmentado, isso se explica pela decisão das mulheres optarem por não mostrar o rosto. Mas no dia-a-dia...
O que eu achei muito interessante no processo do filme é que estabeleci algumas coisas com a pesquisa e o trabalho anterior à filmagem, mas muitas dessas coisas caíram e sempre a realidade me trazia propostas de aprendizado mais interessantes. Eu tinha muito medo quando eu me imaginava fazendo um filme no qual as mulheres não mostrassem o rosto. Acho que é realmente uma descoberta do quanto a narrativa pode ser muito mais do que aquela narrativa mais clássica do close, do rosto. Os detalhes, os símbolos, as metonímias e a fragmentação trouxeram muito para o filme. É possível passar sentimentos, emoções e informações de outra forma. Essa interdição do rosto que muito me amedrontou de início se transformou numa descoberta.

As filmagens acabaram e você tinha 105 horas de material. Era preciso achar um caminho.
Achar o caminho do filme na montagem foi bastante impressionante, e eu tive uma parceira fundamental, a Idê Lacreta (Corpo, de 2007) que é uma montadora experiente. Houve muitas conversas e trocas de experiências entre nós. Foi assim que discutimos a relação das mulheres, a narrativa e o que devia ficar ou não. Foi difícil, em 105 horas eleger 72 minutos é muito subjetivo, mas era necessário. As escolhas envolviam vários critérios: os casos mais nos tocavam, os mais representativos, que funcionavam melhor dramaticamente, os mais bem filmados. Mas é sempre um recorte dos muitos possíveis.

O filme estréia num momento bastante propício com o debate gerado devido à representação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde (CNTS) no Superior Tribunal Federal (STF) para que nos casos de anencefalia (casos de malformação, na qual 100% dos casos são letais para o feto) o aborto seja legalizado - ou seja, não seja preciso obter a autorização de um juiz para o procedimento.
Na verdade, o aborto é sempre um tema em pauta, durante a pesquisa e desde o momento que eu decidi fazer o filme sempre havia eventos. Em 1989, o programa de aborto legal foi instaurado em hospitais públicos, depois começaram as discussões sobre se havia a obrigatoriedade de ter o B.O. (boletim de ocorrência) e o exame de corpo de delito para ser atendida, o Papa esteve no Brasil ano passado, o filme romeno (4 meses, 3 semanas, 2 dias, de Cristian Mungiu) ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 2007.

É um tema sempre em debate, eu fico contente que o filme estréie agora, de fato é um bom momento para o tema, embora não seja em termos de cinema brasileiro, pois estamos enfrentando um grande problema de público (ou a falta dele). De qualquer forma, eu considero uma vitória conseguir levar esse filme com esse tema para o circuito comercial. Agora é torcer.

Você tem alguma preocupação política com o filme?
Eu nunca pensei em levantar bandeiras. Não acho que o filme tenha o poder de mudar a cabeça das pessoas, mas ele pode tocar as pessoas, ajudar e movimentar a discussão e isso seria muito bacana. As minhas ambições foram de aprendizado, de quebra de paradigmas e acho que elas foram atendidas.

O que você considera que foi a maior dificuldade de produção?
O tempo todo tem dificuldades, eu não sei se há uma tendência a olhar de forma generosa as que já foram ultrapassadas, nesse momento o maior desafio tem sido conseguir colocar o filme no cinema. Enfim, eu já sabia que era difícil, mas eu nunca tinha vivido isso.

O título O Aborto dos Outros dá margem a várias interpretações.
O título aconteceu, na verdade, ele é o título de uma coluna do Contardo Calligaris (articulista da Folha de S. Paulo). Ele teve acesso a uma pesquisa com médicos sobre o tema que mostrava que quando a situação de aborto está próxima, a pessoa acaba sistematizando justificativas e acreditando que naquele momento, ela tem o direito à interrupção. Isso não é só com médicos, mas para o tema, o resultado é bastante significativo. Eu li essa coluna e pedi para usar o título. Ele me respondeu que havia lido em algum lugar.

O significado do outro que eu tiro dessa experiência e desse filme é a atitude de se respeitar profundamente outra pessoa, porque tendemos a respeitar as pessoas em algumas instancias. Por exemplo, porque a cor da pele é diferente, porque o nível social é diferente, mas existem muitas outras diferenças que ainda não aprendemos a respeitar que é a religiosa, a moral. Então, você se reconhecer moralmente de uma forma e aceitar o outro tomando uma atitude completamente oposta àquela que você tomaria e respeitar essa atitude, deve ser a evolução absoluta do ser humano. O nosso norte é o respeito moral.