Carlos Reichenbach

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Fale um pouco do projeto Empédocles...
Em primeiro lugar, quero dizer que este projeto a princípio só foi possível devido ao advento do cinema digital. Um filme produzido em 35mm ou super 16, por menos que você gaste, vai sempre ficar na faixa dos R$ 600 a R$ 800 mil. O processo digital nos trouxe outra opção. Você consegue realizar um longa-metragem ao custo de R$ 300 mil. Depois se gasta mais uns R$ 100 mil para passar para película. Além disso, a câmera numérica (como é chamado na Europa o processo de captação digital) tem uma grande vantagem para o cineasta: o de aumentar a intimidade com o objeto filmado. Porque num filme gravado de forma tradicional existe todo aquele aparato que te afasta dele. Eu acho que a câmera digital é hoje uma espécie de esferográfica do cineasta. É quase como se fosse uma extensão do olho.
Já a escolha do texto clássico de Hölderlin têm vários motivos. Em primeiro lugar o filme vai ser o resultado do trabalho de uma oficina, que vai acompanhar todas as fases da produção. Então, a princípio, tem de valer a pena, tem de se produzir algo com responsabilidade. A responsabilidade é a gênese deste projeto. O filme tem de acrescentar algo às pessoas. Por isso, se propõe a oferecer uma aventura intelectual.
Empédocles é pretensioso mesmo, não nego. O espectador tem de ser enriquecido. Não havia sentido em desprender este esforço por uma empreitada que não tivesse um estofo cultural importante. E tem mais: a gente subestima muito a inteligência alheia. Estas oficinas que vão dar origem ao filme começaram este mês com três palestras, duas com filósofos, em conferências complexas, difíceis, uma sobre Empédocle, outra sobre Hölderlin. Nós esperávamos umas 50 pessoas, mas apareceram mais de 300. As pessoas acham que para atingir a todos, obrigatoriamente tem de ser uma coisa burra. E eu vou insistir numa coisa que eu venho falando há muito tempo. Vamos parar com essa balela de que cinema tem que dar lucro. Filme aqui no Brasil não dá lucro porra nenhuma. O máximo que acontece aqui é o filme já nascer pago.
Por isso é que eu não consigo admitir ser colocado na mesma arena que uma TV Globo. Não vou ver o Auto da Compadecida, não quero nem saber se está fazendo sucesso. Primeiro que é feito para a televisão. Aliás, isso me faz lembrar uma coisa terrível que acontece em cinema: a falta de conceito. O cara vai fazer um filme comercial. De repente, no meio do processo, ele acha que fez um filme de arte e quer participar de todos os festivais. E quando não é selecionado, fica puto. Essa é uma das maiores prostituições que há no meio. Vamos esquecer esse negócio de fazer filme só por diversão. O diretor aqui já filma com pouco dinheiro, e ainda vai fazer uma coisa banal. Se você quer se divertir, se alienar, vá assistir televisão. Ir ao cinema no Brasil custa caro, e o cara ainda paga caro para se emburrecer, para desaprender. Porra! Quer ficar burro, liga a televisão. É de graça. Você tem de pagar é para aprender, para acrescentar algo em sua vida, se aperfeiçoar. Qualquer cinema no mundo, tirando o dos Estados Unidos, tem a obrigação de ser material de aperfeiçoamento humano. A grande verdade é uma só; eu não tenho obrigação de fazer filme para o público. O público que tem de chegar até mim. Empédocles se encaixa perfeitamente nisso. É um projeto audacioso, uma aventura intelectual mesmo.

O que você acha do caso Guilherme Fontes e da rede Globo estar investindo numa produção cinematográfica?
Nós estamos pagando a pecha por causa de um moleque que nunca fez um curta-metragem. Está todo mundo aí com o fisco em cima por causa desse bosta, desse moleque. Esse atorzinho pegou R$ 12 milhões, enquanto Nelson Pereira dos Santos, que construiu a história do cinema brasileiro, não conseguiu filmar Castro Alves, que custava a metade do preço. Um cara que fez Vidas Secas, Memórias do Cárcere, Como era Gostoso o meu Francês, com o currículo que esse homem tem, deveriam dar o dinheiro para ele sem encher o saco. O Brasil é um país de merda, que mata seus artistas, essa é a grande verdade. E essa merda de casamento da TV Globo com o cinema é a morte do cinema. A Cultura faz o que a Globo fez há três anos e ninguém fala porra nenhuma.
Eu estou cagando para a Globo. Aliás, Globo e editora Abril são farinha do mesmo saco. A editora Abril não tem o direito de fazer o que ela faz com o cinema brasileiro. As duas estão aí vendendo o conceito neoliberal. Sabe por que eu escolhi Empédocles? Eu vou transformar Empédocles no subcomandante Marcos. Ele é o pensamento político avançado de sua época. E qual é o conceito destoante mais avançado hoje? É o conceito Zapatista, é Chiapas, que diz que o fim do mundo está nesta política neoliberal, que só está dando cada vez mais poder para os americanos. Aí me perguntam porque eu decidi filmar Empédocles. Porque é um grande desafio. A peça é uma obra inacabada. Na obra original, a personagem foi uma precursora do pensamento democrático. Um pensador político avançadíssimo para sua época. Esse é o ponto que me interessa. Este é o grande desafio: trazer Empédocles para os dias de hoje. Eu quero jogar o personagem em Diadema, no ABC. Não consigo pensar em fazer cinema hoje sem estar imbuído da realidade política e social que estou vivendo no país. Quero fazer cinema engajado. Porque não agüento esse papo dos neoliberais de que as utopias se acabaram. Acabaram porra nenhuma! Isso é um assassinato cultural em nome da globalização.

Por isso você resolveu combater o cinema norte-americano?
A minha vida daqui para frente é uma guerra declarada contra o cinema americano. Pode parecer que quem está falando aqui é um cara ressentido. Eu já fiz 4,5 milhões de espectadores com um filme, A Ilha dos Prazeres Proibidos. Então, não venham dizer que eu sou ressentido ou não sei dialogar com o público. Eu sei me comunicar com o público quando eu quero me comunicar com o público. Nós perdemos o público C e D, e não foi por causa de vídeo, televisão, nada disso. Foi por causa da especulação imobiliária, custo de ingresso, uma série de fatores. Foi aí que nós perdemos o grande público do cinema brasileiro. Estas classes nunca tiveram preconceito contra o cinema nacional. O espectadores do cinema brasileiro nunca foram da classe A. Esta sim sempre odiou o cinema nacional. Agora, a obrigação dos cineastas nacionais é chacoalhar a cabeça do brasileiro, como fez Cronicamente Inviável, do Sérgio Bianchi. Fazer filme que tenha conteúdo e principalmente conceito.