Casa Grande: Cineasta Fellipe Barbosa fala sobre o filme destaque do cinema nacional

Diretor carioca fala sobre o longa nacional que vem chamando a atenção da mídia

28/04/2015 15h06

Por Iara Vasconcelos

O nacional Casa Grande, em cartaz nos cinemas desde o dia 16, é reflexo coerente do quadro político e social do país. Em tempos de guerras partidaristas e agudo conflito de classes, o filme surge como um retrato sarcástico da tão "afamada" classe média brasileira e o diretor Fellipe Barbosa falou com o Cineclick sobre sua produção.

Na trama, o garoto Jean estuda no tradicional colégio São Bento, no Rio de Janeiro – uma instituição exclusiva para meninos – e tem pouco contato com tudo o que não se reserve ao seu lar confortável e os luxos que sua mesada de adolescente lhe permitem, porém se vê obrigado a sair de sua zona de conforto quando a família passa por uma forte crise financeira, que os obriga até a demitir o motorista que trabalha há anos na casa.

+ Confira crítica de Casa Grande

O despertar de Jean – nome que é pronunciado pela mãe com um cômico sotaque francês – para o mundo além do lar pequeno-burguês é bem representado pelo início de sua relação com uma garota da periferia. Aos poucos, os percalços juvenis ganham contornos mais pesados, como em uma discussão acalorada sobre cotas e racismo que ocorre em meio a um jantar de família na casa do menino. 

Outro ponto abordado pelo filme é a significativa emancipação dos empregados domésticos no mercado de trabalho. Esses profissionais, que antes eram amedrontados pela idéia de perder seu ganha pão e aceitavam "tratos"que não lhe asseguravam nenhum direito trabalhista, hoje estão seguros para exigirem formalidade de seus patrões.

Segundo Barbosa, a história foi inspirada em um período de crise financeira que sua família passou e no qual ele não estava presente por conta de um mestrado em Nova York. Para ele, o longa serviu como forma de corrigir essa ausência e se imaginar naquela situação. Inclusive, ele conta que a mãe se emocionou bastante ao término da sessão, enquanto o pai se manteve mais reservado diante da "homenagem".

O elenco é uma grata surpresa, uma mistura entre renomados, como Marcelo Novaes, e jovens atores que parece se entender muito bem em cena. Barbosa conta que o clima no set de filmagens era de cooperação e festeja o desempenho dos novatos "Por serem mais novos, eles trazem um tipo de frescor. São mais espontâneos", afirma o diretor que mantém amizade antiga com Suzana Pires, um dos destaques do elenco na pele da professora de francês Sônia.

Aliás, é do time de "iniciantes" que surge uma das personagens mais intrigantes. Nathalie (Alice Melo) irmã mais nova de Jean, é a única da família que não se conforma às ideias conservadoras, convenientemente, ela nunca é ouvida pelos pais, mas para o cineasta, ela é mais atenta dentre todos eles: "A Nathalie é a mais observadora da família. Enquanto o irmão ainda vive preso aos dilemas de um adolescente de classe média, ela olha para tudo."

Casa Grande chegou a ser exibido em mais de 14 países, colecionando boas críticas por onde passou. Fellipe Barbosa afirma que "o mais bacana da passagem por esses países foi observar o calor do público durante as sessões". Entre o público brasileiro, o filme foi recebido de forma bem-humorada, talvez pela alta capacidade de identificação com a realidade social em que vivemos: "Aqui no Brasil as pessoas enxergaram a história de um jeito mais cômico".

A trama de Casa Grande poderia muito bem se passar em qualquer bairro de classe média alta do país e seu grande trunfo é exatamente o tom provocador e o diálogo bem estabelecido com o nosso cotidiano. Assim como o excelente Depois Da Chuva, Casa Grande deve ser mais um nacional a trazer questionamentos políticos consistentes às telonas.