Cauã Reymond fala de Alemão, sobre a invasão da favela carioca

Ator interpreta o traficante Playboy, inspirado nos grandes chefões do Complexo

12/03/2014 19h45

Por Roberto Guerra

Alemão

Cauã Reymond vive traficante Playboy: "Foi um desafio"

Inicialmente escalado para viver um dos policiais no filme Alemão, Cauã Reymond pediu para fazer o bandido. Ele interpreta Playboy, chefe do tráfico na comunidade que descobre a identidade de cinco policiais infiltrados e inicia uma caçada sangrenta aos inimigos. Para compor o personagem, Reymond conversou com pessoas que viveram sob domínio do tráfico de drogas e com atores do elenco que moram na região. Também ouviu muito funk proibidão para incoporar a linguagem do tráfico. "Para mim foi um desafio. Eu quis me desafiar e graças a Deus eles acolheram", disse o ator à reportagem do Cineclick. Abaixo segue a entrevista completa:

Por que quis fazer o bandido?
O cinema tem personagens mais diferenciados do que a TV. Dentro das novelas você tem uma estrutura que não se modifica muito. O mocinho, o vilão, o engraçado, o cafajeste. E esses personagens se repetem em todas as novelas. Eu já fiz o cafajeste, o mocinho algumas vezes, mas nunca o vilão. Depois de um tempo você começa a se repetir dentro dessa estrutura dramatúrgica. E o cinema abre novas possibilidades. O Playboy, meu personagem, é o chefe do tráfico de drogas e um líder querido na comunidade. Um cara frio, mas com um ponto fraco e sentimentos ambíguos quando se trata da ex-mulher. Foi um desafio.

Alemão é uma história de ficção ambientada num contexto real: a ocupação militar que entrou para a história do Rio de Janeiro. Se inspirou em algum bandido de verdade para compor seu personagem?
Eu na verdade sintetizo os chefes do Alemão, porque lá havia vários. Se for para me identificar com um deles, seria com o Pezão (chefe do Comando Vermelho no Alemão). Ele era um cara boa pinta, que tinha uma vida de zona sul dentro da favela, tinha professor particular de jiu-jitsu, musculação... Era um cara que não usava cocaína, no máximo fumava um baseado de vez em quando. Outra figura que me ajudou a compor o personagem foi o Nem da Rocinha. Ele entrou para o tráfico porque tinha um filho doente, não tinha dinheiro para pagar o tratamento e o SUS não revolvia o assunto. Como trabalhava com contabilidade, decidiu pedir um dinheiro emprestado ao tráfico e se ofereceu para fazer a contabilidade do grupo por um certo período para pagar a dívida. Claro, depois que entrou, não saiu mais. Mas entrou para salvar o filho. Isso me ajudou muito a humanizar o Playboy.

Como foi voltar a filmar com José Eduardo Belmonte, mas agora num filme completamente diferente de Se Nada Mais Der Certo?
Ele é um diretor único, principalmente na direção de atores e no processo de ensaios. Tem uma comunicação especial com o elenco. Filmamos com calma e tranquilidade. Se me perguntar o que mais me atrai hoje para aceitar um projeto vou responder que é o grupo. Um bom diretor como o Belmonte, uma boa equipe técnica, um bom produtor. Gente de caráter, bacana, gente que está a fim de se desafiar. O Belmonte nunca havia filmado um thriller policial. Eu nunca tinha feito um vilão. Eu tenho muito medo de chegar numa situação com a qual todo mundo já esteja muito satisfeito, muito bem resolvido. Gente assim pode fazer um produto, mas não arte.

Alemão é um filme de gênero. Um típico thriller policial. O que acha desta tendência do cinema brasileiro em investir em caminhos diversos?
Eu acredito em todo o tipo de cinema. Eu acredito nas comédias, no cinema-pipoca, no blockbuster e no cinema de arte. Eu acho que a gente tem uma coisa muito positiva agora no Brasil que é a constatação que o cinema brasileiro vem constituído uma indústria. Isso não é muito importante não só para o espectador, mas para a classe que trabalha com cinema. Quando você tem uma indústria mais robusta, que anda com as próprias pernas, você para de ficar tão dependente do Estado, do incentivo, e começa a fazer disso um mercado. Nesta realidade a diversidade de gêneros é natural.

*Leia também:

-Entrevista com diretor do filme

-Crítica de Alemão