Chaim Litewski (Exclusivo)

25/11/2009 13h00

Por Heitor Augusto

Chaim Litewski é o diretor de um dos melhores documentários produzidos recentemente no Brasil: Cidadão Boilesen. Nesta entrevista ao Cineclick, realizada por e-mail, Litewski fala de como surgiu o interesse por Henning Albert Boilesen, ex-diretor da Ultragaz assassinado em 1971. “O grande problema de qualquer pesquisador é saber quando devemos parar, quando devemos botar um ponto final na pesquisa”.

O diretor conta também quem não quis ser entrevistado devido ao explosivo tema e faz uma avaliação de como o cinema tem se aproximado da ditadura militar. A seguir:

Qual foi a sua motivação para fazer um documentário sobre o tema? Quando conversei com o Helvécio Ratton, diretor de Batismo de Sangue, ele me disse que o desejo veio por conta da ex-militância e do desejo de fazer chegar essa história aos jovens. E você?
Acho que a primeira vez que ouvi falar de Henning Boilesen foi em 1968. Suponho que devo tê-lo visto na televisão, possivelmente na [extinta TV] Tupi. Fiquei intrigado por dois fatos: primeiro, ele era o diretor da Ultragaz (minha família consumia - como tantos milhões de famílias brasileiras - gás liquefeito entregue, religiosamente, todas as semanas em caminhões repletos de botijões). O segundo, é que, curiosamente, Boilesen nasceu na Dinamarca (que para mim sempre foi modelo de sociedade e população liberal).

Lembro-me perfeitamente do dia em que foi assassinado, 15 de abril de 1971. Nessa época já se falava à boca pequena que Boilesen ajudava a financiar a Operação Bandeirante [centro de investigação e tortura em São Paulo comandado pelo coronel Ulstra]. Decidi escrever alguma coisa a respeito da vida dele, pois me lembro de recortar e guardar obituários que saíram nos jornais e revistas. Soube, anos mais tarde, da publicação de um livro sobre Boilesen na Dinamarca (Likvider Boilesen, de Henrik Kruger).

Só que a publicação do livro te desestimulou...
Sim, desisti de escrever e comecei a pensar num documentário biográfico. Cada descoberta só fazia aumentar meu interesse e fascinação sobre o personagem. ele é um ser quase ficcional, parece que viveu uma dicotomia tipo Jekyll e Hyde, noite e dia. Esse interesse me acompanhou por muitos anos. Em 1994 comecei a me organizar no sentido de realizar um documentário sobre Boilesen e seu tempo. O grande problema de qualquer pesquisador é saber quando devemos parar, quando devemos botar um ponto final na pesquisa. Quando finalmente, dois anos atrás, recebi a pasta do SNI [Serviço Nacional de Inteligência] referente ao Boilesen, achei que era o momento apropriado de encerrar a pesquisa.

Ou seja, o que me levou a fazer um filme? Curiosidade e interesse pelo tema.

Dentre as inúmeras possibilidades de se falar da ditadura no Brasil, você escolheu abordar um caminho corajoso e raro: falar de algo cujos personagens ainda existem atualmente, basicamente o empresariado. Isso te criou alguma dificuldade de conseguir entrevistas? Você chegou a procurar outros que estiveram envolvidos, como a família do Amador Aguiar, do Camargo Corrêa ou o Otavinho Frias?
Todos que quiseram falar, falaram. Muitos falaram, mas não quiseram gravar entrevistas. Outros simplesmente não quiseram falar. Sempre fomos muito transparentes em relação ao documentário. Explicamos a todos exatamente sobre que o documentário tratava. Com clareza e transparência. Não tivemos resistências. Alguns quiseram falar, outros não. Procuramos conversar com algumas das pessoas que você mencionou e muitas outras, mas infelizmente elas se recusaram a conceder entrevistas.

Por que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, um dos maiores símbolos da tortura, não dá, propriamente, uma entrevista, mas lê um documento? Opção dele?
O Ulstra se recusou a dar uma entrevista “ao vivo”. Aceitou participar do filme contanto que enviássemos as perguntas previamente. Ele as respondeu, imprimiu e leu. Por ser importante personagem dessa historia, decidimos usar dessa forma, pois essa era, de qualquer forma, a primeira vez que ele aceitava dar qualquer tipo de depoimento sobre a Operação Bandeirante e sobre Boilesen.

Na sua opinião, quais caminhos ainda restam para o cinema nacional abordar quando o assunto é ditadura?
Eu acho que aos poucos, assim como o Holocausto e a guerra do Vietnã, a ditadura brasileira vai sendo vista com maior distanciamento e frieza. Isso significa não apenas um maior número de produções a tratar do assunto, como também documentários como Cidadão Boilesen e Operação Condor, que tratam dos acontecimentos da forma mais crua possível, ou seja, lidam com a verdade.

Como diretor, não quero dar respostas ou indicar o que é certo ou errado, mas, na medida em que o documentário oferece um leque de visões, opiniões, conceitos e memória sobre a época discutida, eu certamente espero que auxilie o espectador interessado em um entendimento maior sobre o período em questão. Espero também o filme que sirva de ponto de partida para que se estude mais profundamente esse tema. Para mim isso já seria uma grande vitória.