Chico Teixeira (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Sua formação acadêmica não é baseada no cinema. Como sua carreira enveredou a esta área?
Sou economista, fiz pós-graduação e tudo. Trabalhar nessa área foi um momento muito infeliz da minha vida. Era muito racional e preferia lidar com sentimentos, é muito mais interessante para mim. Dei um basta em tudo e resolvi trabalhar com algo ligado às emoções. Na época, estava estudando em São Paulo e tinha vários amigos que trabalhavam com cinema e sempre ficavam hospedados em minha casa quando vinham pra cá. Eu os deixava ficar com uma condição: queria acompanhá-los nas filmagens à noite, porque de dia fazia o mestrado. Foi quando me encantei. Era um programa de entrevistas com o Roberto Feith que chamava Conexão Nacional, exibido pela TV Manchete. Um dos produtores é grande amigo meu e ele arrumou um trabalho para mim como pesquisador do programa. Tínhamos de pesquisar a vida das pessoas e sugerir perguntas ao diretor. Larguei tudo e voltei ao Rio de Janeiro para este trabalho. Aos poucos, o diretor começou a gostar do trabalho. Participava das gravações e acabei sendo assistente do diretor, o Feith, durante um ano e meio. Foi quando comecei a fazer documentários independentemente do programa.

O que tem tudo a ver com o trabalho que você desenvolveu no programa...
Exatamente, foi minha base.

Em qual momento você percebeu que era hora de partir para a direção de um longa de ficção?
Foi muito difícil chegar nesse momento. Antes, fiz três documentários sozinho. Em 2001, fiz Carrego Comigo, sobre gêmeos idênticos. Na seqüência, pensei em fazer algo sobre a cegueira, mais relacionado à forma como os cegos percebem e sentem mais do que as outras pessoas. Li, pesquisei, conversei com várias pessoas e, no meio desse processo, resolvi mudar. Pensei que queria falar sobre gente. Até então, nunca havia escrito nada e inventei uma história sobre uma mulher que começa a cegar emocionalmente. Foi quando surgiu a Jacira, personagem do filme. Também veio a Alice, que foi tomando um espaço muito grande na historia. Foi um processo doloroso, no qual senti muito medo, mas não aquele que te paralisa, mas aquele no qual precisamos investir, cuidar dele e ter cuidado. É um medo muito positivo, foquei em fazer tudo direitinho.

O personagem da Jacira até se relaciona com seu primeiro documentário, sobre idosos. Como suas experiências como documentarista se refletem em A Casa de Alice?
Em várias maneiras que achei muito positivas. O documentário não tem roteiro; neste filme, não "engessei" em momento algum o que escrevi. Ou seja, o texto ficou sempre aberto. Mudava o tempo inteiro de acordo com os atores, várias situações que escrevi em casa não cabiam no set, então eu não filmava. Esta improvisação veio do documentário, o que dá muita realidade. Procurei a verdade das coisas.

E para que um modelo assim funcione é preciso que a preparação dos atores seja muito bem trabalhada. Como se deu esse processo?
Quem me ajudou muito foi a Fátima Toledo, ela me ajudou também a seleção dos atores. O trabalho dela é magnífico e tem como base a essência do ator. Em momento algum demos o roteiro a eles. Trabalhei somente com atores de teatro, nenhum é conhecido e não queria que eles tivessem uma leitura anterior do roteiro; queria que fossem eles mesmos. Ou seja, o ator não ia ao personagem, o personagem ia até o ator. Por que escolhi a Carla (Ribas, protagonista do filme)? Porque ela é a Alice, ela não a fez.

Foi esse o trabalho feito o tempo inteiro, durante dois meses. Nesse período, trabalhamos na construção harmônica da família e depois destruímos toda essa harmonia. Foi dificílimo pra gente, chorava muito nos ensaios porque é muito triste a destruição. Construindo e destruindo, conseguimos ajeitar o que formou o set de filmagem lá na frente.

Por que você escolheu São Paulo para ambientar seu primeiro filme de ficção?
Sou do Rio, mas moro em São Paulo há 20 e poucos anos, muito mais do que no Rio. Não sei se este filme é tão paulistano. Se fosse, teria filmado mais locais conhecidos da cidade. Quis falar de seres humanos; por isso, o filme pode ser em São Paulo, Barcelona ou qualquer outro lugar, porque gente é gente o mundo inteiro. Não foi um estudo para ser algo paulistano.

Existe, então, essa forte preocupação para que as pessoas se identifiquem com o filme, certo?
Sempre, o tempo inteiro. É tão bonito conseguir comunicar a arte às pessoas. Sinto-me muito mais lisonjeado quando alguém vem falar comigo e comentar o filme. Esse é meu prêmio. Fiz o filme para isso, não é para entretenimento; todos têm suas chagas, suas tristezas, como tem suas alegrias também. O ser humano é isso.

A Casa de Alice passou por diversos festivais internacionais antes de ser efetivamente exibido aqui. Como você sentiu as reações dos públicos de diferentes países?
A primeira vez foi no Festival de Berlim...

O que já é uma responsabilidade gigante...
Nossa! Aquele medo antigo voltou, mas segui em frente. Em Berlim, ia ao palco responder às perguntas do público e eram maravilhosas. Não tão técnicas, mas muito sabidas, eles vêem muito cinema. Tinha uma coisa muito séria. Em Berlim, ninguém se mexia na cadeira durante no filme; nos EUA, as pessoas soltavam interjeições antes de acontecerem situações; no Brasil, as pessoas riem, mas é um riso de nervoso, de identificação. É tão bonito ver a reação de cada um. No Brasil as pessoas recebem o filme de forma muito calorosa, da mesma forma que foi no México por compartilharmos essa latinidade.

Você tem outros projetos em cinema ou hoje está focando somente em A Casa de Alice?
Até agora, estou bem focado no filme, que tem de andar com as próprias pernas. Não sei muito bem o que quero, escrevi algumas coisas de ficção. Só sei que quero tratar da complexidade do ser humano, a inveja, o egoísmo, a solidão, a rejeição, o abandono... Somos muito abandonados pelas pessoas ao nosso redor e quero falar sobre isso. Só não sei ainda no que vai dar!