Christian Saghaard

17/08/2009 07h00

Por Ana Martinelli

Formado em cinema na Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP), Christian Saghaard dirigiu seu primeiro curta-metragem, O Palco (1992), quando ainda era estudante. Quatro curtas e mais de 15 anos depois, agora ele estreia na direção de um longa-metragem com o perturbador O Fim da Picada.

Coerente em sua cinematografia, Saghaard assume o experimental como forma de expressar sua visão do mundo. Em entrevista exclusiva ao Cineclick, durante o I SP Terror – Festival Internacional de Cinema Fantástico, o diretor fala de suas motivações, referências e sobre seu processo de criação.

A primeira cena do O Fim da Picada é bem impactante: uma vagina marcada com número sete. O filme trabalha no universo fantástico diversos signos de magia, satanismo, grafite e até Mickey Mouse. São sete as grandes divindades no Candomblé e cada uma delas tem seus Exu, sete é o número espiritual na cabala...

Na verdade, a ideia do número sete partiu da atriz (Thaís Pavão) e, apesar de saber da importância do número, não tinha certeza de usar ou não. Eu não entendia o porquê de colocar aquele sete, já tinha feito todo o filme e, nele, eu não trabalhava isso... Mas a atriz insistia nesta ideia. Então, no dia que eu estava saindo para filmar a cena, que foi a última do filme a ser captada, vi uma anotação escrita à mão na minha parede pelo Jairo Ferreira com sete tópicos de cinema. Como tinha essa coisa do Jairo, escrita para mim, na minha casa, aí, não tive dúvida. ‘Sete é o número’ e eu pensei: ‘Ah! Então deve ser...’. Mas nós (Saghaard e a atriz) tínhamos razões diferentes, mas veio para complementar o significado do filme.

O filme tem muitas referências ao Cinema Marginal, sintoniza com estéticas do cinema experimental e faz citações diretas ao Cinema de Invenção, do crítico e cinepoeta Jairo Ferreira. Algo que já se fazia presente em seus curtas...

Sim, o filme tem várias citações por causa do Jairo (Ferreira): sintonias intergaláticas, transluciferação, o número 7. Cinema de Invenção é o que me interessa, ver e fazer.

O Fim da Picada
é livremente inspirado no romance Macário, do escritor ultraromântico Álvares de Azevedo, ao menos o começo do filme e a chegada do protagonista em São Paulo. A partir daí, ele segue outros caminhos. A concepção do roteiro partiu do romance?

O roteiro tem dois pontos de partidas. O primeiro deles é a ideia de um garoto que levava um tiro na perna, andava até a Praça da República e entrava no canteiro que se transformava numa floresta como uma releitura do mito do Saci. A concepção desta releitura me veio caminhando no centro velho da cidade. Vi um menino muito parecido com as representações do saci que estava fumando um cachimbo, só que era de crack e pensei ‘Ele é o saci’.

Ao mesmo tempo, eu tinha um roteiro quase pronto que era da primeira parte do Macário. Eu tive um insight que estas duas coisas podiam estar ligadas dentro da releitura de mitos e da literatura fantástica. O que faltava era a questão do tempo: o Macário é de 1850 e esse garoto tinha de ser pensado e trazido para a São Paulo contemporânea. Mas foi justamente no trajeto do personagem (Macário) e no seu encontro com Satã que eu encontrei uma solução. A própria figura do Satã traz essa ideia do sincretismo, trazer um Exu feminino, rever esses mitos.

Neste filme, você trabalha muito com a releitura de alguns mitos, com o místico, mas há também outros signos; a água e a praia já estavam presentes em seus curtas-metragens como Demônios (1999) e Isabel e o Cachorro Flautista (2002). Mais uma vez, em O Fim da Picada, a água aparece como um símbolo desestabilizador que também pode ser interpretada como o inconsciente.
Vai ser difícil responder essa pergunta com exatidão. O fato de o filme ser aberto faz com que tanto neste longa, que é o que eu estou vivendo agora, quanto nos meus curtas, eu espere a troca com o público. As observações e questões sobre as origens de argumentos, ideias, imagens que foram transformadas no decorrer do processo do filme e, de certa forma, perdeu-se a referência de onde veio a primeira ideia. Até porque na minha cabeça as coisas ainda estão muito confusas sobre todas as intenções que estavam lá. Se eu soubesse o que eu queria exatamente do filme antes de fazer, não teria necessidade nenhuma de ter feito.

A água tem esta relação com o inconsciente e eu não tinha pensado nisso claramente. A partir dela é possível fazer uma viagem no espaço, no tempo. Se pensarmos também na relação com a cidade em Isabel e o Cachorro Flautista, você pode chegar a São Paulo pelo mar, mas a cidade não agüenta toda essa coisa fantasiosa e bonita, já que ela é inundada. Em O Fim da Picada também: tem uma coisa que a cidade está quase explodindo o tempo todo.

Você costuma inserir o espectador dentro da geografia da cidade no filme. Não é simplesmente uma grande cidade qualquer; a cidade de seus filmes é a São Paulo de todos os dias dos paulistanos. Dá para identificar claramente a Praça da República, o Largo do Arouche, o Minhocão.Tanto em Demônios quanto em Sinhá Demência e Outras Histórias, a localização está relacionada aos travestis e ao consumo de drogas; já o personagem Macário vai encontrar seus exus justamente no centro da cidade, que é um lugar decadente, mais sujo, o espaço onde tudo se mistura, as pessoas transitam. Você filma a sua cidade?

Eu acho que a cidade no filme é um personagem, mas um pouco mais que isso. Várias ideais aconteceram quando eu estou andando nela, como o Saci. Eu anda por São Paulo buscando dicas. Este processo acontece desde a concepção do roteiro até as filmagens. Por exemplo, procurando locação para O Fim da Picada, eu estava andando debaixo do elevado e, de repente, me vejo num lugar que tinha quatro símbolos que estavam dentro do roteiro: numa parede tinha o Mickey (Mouse) desenhado; na outra parede tinha um garoto fumando crack que parecia um saci; na outra parede tinha grafite bem grande escrito “Metrópole”; e o quarto elemento foi o (José) Mojica Marins que passou por lá, sem querer, no set. Formou-se um quadrado e eu decidi ‘é aqui que eu vou filmar’.

A propósito, durante a filmagem eu tive a ideia e pedi para alguém ir buscar o Mojica. Mas, se formos ainda mais longe nesta "viagem", o meu primeiro filme é O Palco, no qual uma pessoa vinda do centro da cidade muito barulhenta, um exagero de sons, ela e outras pessoas se encontram num lugar bem afastado, numa antiga estação de trem, para fazer uma música muito especial, de maneira muito especial e ritualística. Mas, no final, as pessoas e os carros da cidade invadem esse espaço. Já em Demônios a população desaparece da cidade, só sobram duas pessoas que nunca se encontram e, agora, em O Fim da Picada, tem um monte de referências aos locais onde eu vivi, às pessoas que eu gostei de encontrar.

Aquela cena com o Mojica não estava prevista?
Não. Começamos a filmagem no local e eu me lembrei do encontro com o Mojica, a relação com os símbolos urbanos que me fizeram escolher aquele espaço como locação. Ele aceitou o convite e, em poucas horas, ele apareceu.

No meio do filme há uma cena que quebra completamente o ritmo da narrativa. Macário sai de um banheiro químico, como um astronauta que aterrissou em outro mundo, vestindo capacete, soltando fumaça ao som de Assim Falou Zaratrusta, de 2001: Uma Odisséia no Espaço.

Esta cena foi inspirada numa personalidade que vivia no centro de São Paulo. Um argentino que a cada semana tinha um trabalho completamente diferente. Teve uma semana que ele trabalhou como dedetizador de baratas e ele, meio doido com aquele cheiro de veneno de barata, me lembrou o Burroughs com o inseticida, o "barato" que o veneno dá, aí ele foi incorporado na narrativa.

Há uma ideia que permeia todo o filme e esta frase é reafirmada várias vezes: “Antigamente o diabo procurava os homens, hoje em dia os homens é que vão atrás do diabo”. A ideia é muito dúbia, em momentos distintos ela soa como isso é uma fantasia para em seguida deixar um incômodo de quanto isso é real de está tudo perdido mesmo e é isso que vivemos.

Essa frase é do próprio Álvares de Azevedo. Acho que é algo como: “Olha que fantástico essa coisa perdida que a gente vive”. Talvez não haja nada mais fantástico que esta realidade porque de vez em quando a fantasia extrapola tanto que você mostra que é muito possível de acontecer no dia-a-dia. Então você pode se deparar com o pensamento de "deixa eu acordar um pouco também". No final da contas, para que o espectador possa se distanciar um pouco daquela loucura e perceber que ele faz parte dela, que ela está aí para a gente assistir no cotidiano da cidade. É uma forma de provocar o pensar sobre...

Muitas vezes, o experimental é chamado de difícil, no sentido de pouco acessível ao grande público. Você acha que o filme é difícil para iniciados ou apreciadores de um estilo de cinema?

Não. Em geral, tem-se muito medo e rotulam demais como um filme difícil ou ‘imagina! esse filme não vai entrar em cartaz'. Existe aí embutida uma ideia meio derrotista sobre filmes que são mais abertos em sua construção, que sejam mais ousados. Mas, para a minha surpresa em festivais, após a exibição, as pessoas quem veem conversar comigo são jovens de 17, 18, 19 anos. Eu também nunca tinha imaginado que atingiria essa faixa etária, que eles poderiam gostar do filme e agora eu sei que podem. Vejo aqueles jovens alegres, coloridos, animadíssimos com a vida, entendendo e gostando do filme, apesar de não terem vivido ainda toda a experiência mais caótica. Quando você cria relações com a cidade, começa a definir quem você é, tem várias decepções. Eu percebi que um outro público pode ter interesse pelo filme. Eu achei esta resposta muito legal. Quando tinha esta idade e não tinha começado a faculdade de cinema ainda, vi vários filmes que me deixaram incomodado, sem saber o que pensar, mas que me interessavam de alguma forma, e faltavam referências da própria da linguagem de cinema, bagagem que a gente adquire com o tempo.

O filme dialoga diretamente com o fantástico e foi classificado como terror, mas não se encaixa exatamente na definição do gênero.

Se eu fosse falar de um gênero ao qual ele pertence seria o experimental, mas para mim o experimental não é um gênero, é um ponto de partida de tudo. Você tem de ser naturalmente inventivo, só não é se você não se permite isso. Também é ficção, também é terror, que está no filme, mas muito mais como linguagem do que no conteúdo.

Procurei fazer várias experiência na película (35 mm) na hora da filmagem, revi filmes de terror como O Vampiro, de Dreyer, A Queda da Casa de Usher, do Epstein, que é baseado num conto do Edgar Allan Poe, observando a composição da imagem, as alterações de velocidade, os movimentos de câmera. O Fim da Picada tem muito mais dessas referências do que uma narrativa que tenha as linhas de desenvolvimento do roteiro de um terror.