Christiane Jatahy (A Falta que nos Move)

30/06/2011 16h22

Por Celso Sabadin

Diretora, dramaturga e atriz, Christiane Jatahy adapta para o cinema a peça de sua autoria A Falta que Nos Move. No longa-metragem, cinco atores ficam presos dentro de uma casa e são dirigidos por meio de torpedos de celular. Algumas regras são estabelecidas de início, mas o espaço para a improvisação é mantido.

Com isso, o espectador não consegue detectar claramente o que é produto do real, o que é de encenação. Nesta entrevista, a realizadora carioca conta sobre o processo de criação e fala mais sobre a estética de seu primeiro trabalho para o cinema como diretora.

Como surgiu a ideia do projeto?
O projeto surgiu em 2004, quando eu comecei a aprofundar minha pesquisa de linguagem sobre algumas fronteiras e os territórios que elas delimitavam. O ator e o personagem, o real e o ficcional em cena, o escolhido e o acaso, o teatro e o cinema. Dessa pesquisa surgiu uma trilogia chamada Uma cadeira para a solidão, duas para o diálogo e três para a sociedade. O primeiro trabalho dessa trilogia era uma peça chamada Conjugado, que reunia performance, documentário e vídeo-instalação. Para realizar esse trabalho, fiz um documentário que serviu de base para a dramaturgia e, no final, era mostrado em uma vídeo-instalação.

A peça seguinte foi A Falta Que Nos Move ou Todas as Histórias São Ficção, que estreou em 2005. A relação híbrida entre ator e personagem, real e ficcional, improviso e definido, já estava presente fortemente na peça. Quando eu decidi que iria explorar mais uma fronteira e avançar no território do cinema, minha principal questão era como levar para o filme – tanto para nós que fizemos, como para o público – a mesma sensação de risco e de vivo que conseguíamos na peça por caminhos distintos. Para isso, criei dez dispositivos ou procedimentos de filmagem e, no final de 2007, depois de quatro meses de ensaio, na véspera da noite de Natal, nós filmamos em 13 horas contínuas sem interrupção.

O quanto do que vemos na tela é ficcional e o quanto é realidade (se é que é possível fazer esta divisão)?
Os atores seguem roteiros e têm as relações ficcionais entre eles muito bem definidas. Ainda que algumas vezes misturem suas histórias pessoais com as ficcionais, o roteiro por onde eles caminham é uma construção ficcional. Mas esse mesmo roteiro deixava propositalmente espaços abertos e em 13 horas de filmagem todos nós fomos surpreendidos com situações inesperadas.

Mas mesmo assim eles continuavam agindo dentro da ficção das relações. Essa mistura difusa entre o que é o ator e o personagem é o ponto principal do trabalho. E foram quatro anos juntos fazendo a peça, o que resulta em uma intimidade de verdade e visível. Mas sem fugir da resposta, se eu fosse tentar fazer um percentual entre realidade e ficção eu diria que entre 80% e 90% é ficcional.

Por que todos os atores assinam como roteiristas?
Porque o material para o roteiro foi construído de maneira colaborativa com os atores. Durante os quatro meses de ensaio (ensaiávamos uma vez por semana durante muitas horas) eu levava propostas e estruturas para eles improvisarem. A cada semana, levava novas propostas ou desdobrava as antigas. O processo da peça foi parecido e algumas cenas do filme são idênticas as da peça, como a do choro no final.

Em cima desses improvisos direcionados, construí o roteiro que foi entregue a eles uma semana antes da filmagem. Nem todos conheciam o roteiro uns dos outros. O roteiro tinha três camadas. Cenas realmente ensaiadas com diálogos e marcas, cenas em que a situação era muito definida, mas os diálogos eram criados na hora e, finalmente, as cenas que alguns atores conheciam e outros eram surpreendidos. E claro, os acasos e acidentes do dia a filmagem.

O quanto do que vemos na tela foi planejado e o quanto “foi acontecendo”...?
O roteiro era como um colar de contas ou ilhas. Eles entravam e saiam dessas ilhas. Algumas vezes, eles “erravam” mudando sem querer a ordem das cenas, se estendendo muito tempo em uma situação, ou reagindo de forma inesperada a algo que estava acontecendo. Alguns desses momentos inesperados entraram no filme, porque era justamente essa linha tênue e impossível de detectar entre o planejado e o imprevisível que me interessava mostrar.