Cine PE 2013: Marieta Severo fala sobre carreira e da comédia Vendo ou Alugo

Em filme dirigido por Betse de Paula atriz interpreta oposto da comportada Dona Nenê

30/04/2013 00h52

Por Roberto Guerra, enviado especial a Pernambuco

Foto: Divulgação

Marieta Severo ao lado de Marcos Palmeira em cena de Vendo ou Alugo

No último sábado (27) a atriz Marieta Severo foi homenageada pela carreira no Cine PE – Festival do Audiovisual, que ocorre em Pernambuco até o dia 2 de maio. Com mais de 37 filmes na carreira ao longo de cinco décadas, a atriz prepara-se para estreia de mais um longa, Vendo ou Alugo, comédia de Betse de Paula que chega às salas de cinema de todo o país em agosto. Na entrevista que segue, Marieta avalia a carreira, dá suas impressões sobre o cinema brasileiro atual e fala de Maria Alice, sua personagem em Vendo ou Alugo.

Marieta, anos atrás você recebeu o troféu Oscarito pela carreira no Festival de Gramado e agora é homenageada pelo Cine PE. Essa brilhante trajetória em cinema, teatro e TV e o reconhecimento te faz achar que já fez tudo que uma carreira bem-sucedida de atriz pedia?

Não, pelo amor de Deus. Nunca. Isso fecha a tampa. Eu quero ficar bem velhinha fazendo teatro cinema e televisão. Serei uma velhinha triste se não puder realizar isso. Costumo dizer que tinham de inventar botox para neurônios. Mais do que preocupação com as rugas, minha preocupação maior é com a cabeça. Então o que eu peço é que possa estar com a cabeça bem ligadinha. Do corpo eu cuido, dou conta. Faço muita ginástica, sou muito ágil. Mas a cabeça é um mistério. Espero poder sempre fazer personagens. Minha vida é fazer personagens.

Você é uma das poucas atrizes brasileiras que fez cinema regularmente nas décadas de 60, 70, 80, 90 e ainda continua em atividade. Quais as principais mudanças percebidas por você ao longo desses anos?
Eu acho que a gente evolui de uma maneira incrível. Por exemplo, existia uma resistência do público em relação ao nosso cinema por questões técnicas. Às vezes por questões técnicas até das salas de cinema, da aparelhagem desses lugares. Então a primeira mudança é que nossos filmes hoje em dia têm uma qualidade técnica que não deixa a desejar. Aliado a isso a gente tem agora um cinema diverso, plural que fala de coisas diferentes de maneiras diferentes. Uma coisa que se desenvolveu muito nestes anos também foi a dramaturgia. No passado muitos filmes pecavam pela falta de um roteiro elaborado. E hoje em dia nós temos roteiristas excelentes. E quando você tem um bom roteiro nas mãos você tem mais da metade do caminho andado.

Você sempre transitou muito bem entre fitas comerciais e autorais. O que acha desse embate intelectual que colocou a comédia De Pernas pro Ar 2 de um lado da trincheira e O Som ao Redor do outro?
Eu acho uma guerra lamentável. A gente tem de ter espaço para tudo. Tem o grande público que quer ver a comédia ou determinado tipo de filme. E tem o filme autoral que é fundamental. A história do cinema vai sendo escrita com esses dois perfis de filme. É um caldeirão muito vasto e tem de ter de tudo. Não adianta você querer segmentar. Tudo que vira fórmula não é bom. O que não pode é não ter o cinema autoral, que vai pesquisar novas linguagens, que vai atrás de experimentar coisas, que tem essa liberdade. Mas você querer que seja só isso não pode. Você querer que o grande público vá assistir a esses filmes. Às vezes o público não quer e tem de ter cinema para todos. Uma coisa não pode existir em detrimento da outra.

Sua personagem na comédia Vendo ou Alugo é o oposto da bem comportada Dona Nenê, de A Grande Família. Quem é a Maria Alice? Quem mulher é essa que o público acostumado à Dona Nenê vai ver nos cinemas? 
A Nenê é uma mãe brasileira exemplar, carregada de valores e de ética e a Maria Alice é o contraponto dela. O melhor de qualquer trabalho, no teatro, cinema ou TV, é que você entre em um túnel e perca o senso crítico completamente - e tem que perder mesmo. Maria Alice é uma fracassada. Nada dela resultou em alguma coisa, mas ela é muito feliz dentro disso tudo. Não tem problema em não ter conseguido realizar nada direito, de repente inventa o livro Dando Certo, um bufê erótico e faz as traduções de manuais de metralhadora para os traficantes. Ela é muito inconsequente. Eu me preocupei em fazer a Maria Alice assim. Essa mulher que passou a vida inteira querendo ser VIP, a VIP número 2000 do show do Mick Jagger, e achando isso lindo, fumando muita maconha e meio desligada.