CINE PE 2014: Laura Cardoso é homenageada e dedica prêmio a José Wilker

Atriz diz em entrevista que a vontade de acertar do cinema brasileiro se concretizou

30/04/2014 01h45

Por Roberto Guerra, enviado especial a Pernambuco

Laura Cardoso

Laura Cardoso recebe Troféu Calunga pela carreira das mãos de Alfredo Bertini

O Cine PE – Festival do Audiovisual rendeu homenagem na noite desta terça-feira (29) à Laura Cardoso, em cerimônia realizada no Teatro Guararapes, em Olinda. A atriz de 86 anos recebeu o Troféu Calunga em reverência à carreira nas telas – que inclui 29 filmes – das mãos do diretor do festival, Alfredo Bertini. Emocionada, agradeceu o carinho do público, que a aplaudiu de pé, e dedicou o prêmio ao amigo e colega de trabalho José Wilker, falecido mês passado. Horas antes do tributo, Laura conversou com a reportagem do Cineclick e revelou o desejo de morrer encenando.

Você chegou a um ponto da carreira em que as homenagens são recorrentes (e merecidas). Como lida com esses tributos a seu trabalho?
Eu lido mal. Eu fico sem graça, achando que é um pouco demais pra mim. De verdade, sem falsa modéstia. Por outro lado, fico feliz porque é um reconhecimento de meu trabalho, que faço com todo respeito, com todo amor, com dedicação. Eu sou uma louca no sentido de trabalho. Eu me dedico realmente.

Você já fez de tudo um pouco em cinema, TV, teatro. Os anos de experiência já eliminaram o friozinho na barriga antes de uma estreia?
Nem pensar, morro de medo. Eu passo mal quando vou estrear seja no teatro, na TV, no rádio, no cinema. Eu tenho medo, sou medrosa. Acho que nunca estou pronta, que sempre me falta alguma coisa para estudar, para pesquisar. Sei que dificilmente a gente chega lá, mas eu sempre busco a perfeição. Claro que sempre falta alguma coisa. Eu sou autocrítica demais, um horror... Acho mil defeitos.

Mesmo consagrada, você é do tipo que não recusa papel, seja de protagonista, coadjuvante ou apenas uma ponta...
Eu sou uma operária de minha profissão. Ator não tem disso, de papel grande, papel pequeno. Ator é quem faz o papel aparecer ou desaparecer. Já protagonizei muito, já fui coadjuvante, já fui terceiro coadjuvante, já fiz participação especial, ponta. Acho que tudo isso é uma escola, uma bagagem que você adquire, que você tem. Eu sou uma operária.

Você faz cinema desde a década de 60 a já viu altos e baixos de nossa história cinematográfica. O que acha do cinema feito hoje no Brasil?
Acho que o cinema brasileiro sempre teve uma grande vontade de acertar e ele vem vindo muito bem, vem melhorando nitidamente. Acho que nosso cinema teve uma evolução maravilhosa nos últimos anos. Eu, por falta de tempo, não tenho visto muita coisa, mas o que tenho visto é de qualidade mundial. Por exemplo, aqui no Nordeste tem diretor muito inteligente, são muito audaciosos e isso é muito bom. É preciso incentivar sempre essa turma. É a arte que me parece mais difícil de se fazer. Eu morro de medo de fazer cinema. Eu sempre acho que estou uma merda (risos).

Laura Cardoso é uma atriz satisfeita com a carreira ou ainda tem ambições não realizadas?
Eu quero fazer muita coisa ainda, mas acho que não vai dar tempo porque eu já estou meio velha. Sempre falo que quero morrer trabalhando em cima e um palco ou na frente de uma câmera. Mas mesmo assim estou satisfeita porque tive sorte, a proteção dos deuses. Sempre falta algo, o aprendizado nunca termina.