Claudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O Claudio Manoel tocava o filme desde 2002 com recursos próprios. Como se deu a entrada de vocês em meados de 2005?
Calvito Leal: Eu conhecia algumas coisas do Simonal, mas o meu envolvimento, assim como o de Micael, aconteceu quando vi um programa do Netinho sobre ele. Tínhamos várias ideias de projetos para fazer um longa, mas nada nos encantava realmente. Quando vi a história de Simonal, falei "é isso". Comecei a conversar com a Bárbara Gomes, esposa de Max, que me disse que já havia alguém tocando o filme.

Na maior cara de pau, liguei para o Claudio Manoel e acabamos nos associando ao projeto. Nós entramos quando ele já havia entrevistado a família (Max e Simoninha, os filhos, e Sandra, a mulher). Como tínhamos a agenda bem apertada, nos reuníamos e fazíamos jornadas.

A decadência de Simonal é um período complicado, pois envolve uma suposta colaboração com a ditadura militar, episódio que vocês esclarecem no filme. Imagino que muitas pessoas não quiseram falar...
Micael Langer: No início, ouvíamos muitos desestímulos, pessoas que nos falavam para não mexer nessa história novamente. O nosso aproach foi diferente, de uma primeira abordagem com pessoas que defendessem o Simonal. A participação na ditadura é complicada, porque ela foi mais complicada por aqui, não é tão "preto no branco" como costumamos ouvir.

Nem todo mundo era artista, então nem todos sofreram drasticamente as consequências, o dia a dia de uma pessoa comum não foi alterado. Demos uma visão amplas com pessoas de ambos os lados aceitando o talento do artista...
Calvito Leal: Eu acho que nos últimos cinco anos, talvez desde Cidade de Deus, que usou Nem Vem que Não Tem na trilha, mudou-se muito a recepção a Simonal. Quando começamos, se digitássemos o nome dele no YouTube, seriam pouquíssimos os resultados. O cara foi um grande talento que esteve presente em diversos produtos.
Micael Langer: Eu tenho orgulho de andar nos mercados, por exemplo, e ouvir a música dele cantando. E temos noção que parte disso se deve ao nosso trabalho, e isso já dá um orgulho grande.

Então vocês avaliam que ele está sendo redescoberto?
Micael Langer: Sim. O Mieli (show man que defendeu Simonal) afirma que ele foi o maior, porque além de ter qualidade vocal sabia se apresentar e dominar uma plateia. Em quantidade de CDs vendidos, ele se equiparou a Roberto Carlos em meados dos anos 60. Vocalmente, não daria nem para começar a comprar. Simonal tinha muito mais recursos. Poxa, Patropi (canção escrita por Jorge Ben) só fez sucesso quando ele regravou.

Quando o vimos pela primeira vez, não entendíamos como um cara tão bom não era conhecido. Como ninguém nunca ouvira a respeito dele? Como ele fez aquela música? Conforme seguimos na pesquisa e após a entrevista com o contador Rafael Viviane, que foi acusado de roubo por Simonal e foi espancado, nós crescemos muito e entendemos a importância que sua história tem.

Como vocês chegaram ao depoimento dele, que é tão importante para explicar a suposta participação de Simonal na ditadura?
Claudio Manoel: Nós estávamos procurando alguém que fosse crítico ao Simonal, de dentro da polícia. No final, contratamos um detetive para encontrar onde Rafael Viviane, o contador de Simonal acusado, estava...
Calvito Leal: Nós tínhamos uma lista de pessoas perfeitas para serem contatadas: o juiz Menna Barreto, dois policiais do DOPS, o motorista de Simonal e Viviane. Quando nós os entrevistamos - e ele foi o último - houve uma grande virada. No início, especialmente eu e Micael, tínhamos a impressão de que Simonal fosse inocente. Mas ele foi o nosso grande furo, não havia falado com ninguém. Nós não sabíamos se ele conversaríamos conosco, mas por uma coincidência ele falou.
Micael Langer: Tentamos incorporar no filme a nossa chegada por lá. Eles foram um pouco reticentes, a mulher dele falou "para que mexer nisso, faz tanto tempo"...
Calvito Leal: É difícil duvidar do que ele diz. A situação dele é horrível, sem dinheiro, não tem porque mentir. Inclusive, ele inocenta Simonal em alguns pontos, mas fala que o cantor financiou uma surra nele por achar que estava sendo roubado. Entrevistá-lo mudou a nossa perspectiva.
Micael Langer: Para o conteúdo do filme, entrevistá-lo foi mais importante do que conversar com Pelé. Com o depoimento do contador, o longa deixou de ser biográfico para se tornar jornalístico e relevante.

Vocês tocaram em pontos complicados, já que pouco se fala de pessoas ainda vivas que se envolveram com a ditadura...
Micael Langer: É difícil fazer filmes de denúncia no Brasil. Manda bala, de Jason Kohn, fala de corrupção brasileira e cita Jader Barbalho [político e ex-governador de Pernambuco]. Não seria possível a existência de um Michael Moore no Brasil, pois aqui ele teria de pedir autorização a Bush para falar mal dele. A lei limita os documentaristas, por isso vemos tantos documentários de homenagem, musicais ou filmes de personagens.

Errol Morris fez The Thin Blue Line e salvou um cara da cadeira elétrica que seria morto injustamente. O documentário cumpriu um papel social, e acho que o nosso também busca a isso. Por isso, quero ver a reação do público.

Mas vocês deixaram o lado político da história para o fim do filme, né?
Micael Langer: Não necessariamente, pois aparece do meio para frente do filme. Encaixamos a entrevista de Viviane logo após o início da decadência de Simonal. Encaixou perfeitamente no filme, pois usamos boa parte para apresentá-lo aos mais jovens e para relembrá-lo aos mais velhos. Muitas pessoas após algumas pessoas vieram conversar com a gente muito emocionadas, sem conseguir articular uma palavra a não ser "muito obrigado". Ele ocupava um espaço muito grande, que talvez com o tempo seria como os Stones ou Beatles no rock.

Então vocês buscaram fazer um filme que dialogasse com o maior número de pessoas possível?
Micael Langer: Sem dúvida alguma. Não queremos ser peça de museu. Não faço a menor ideia de como será a bilheteria com um lançamento por volta de 30 salas de circuito digital. Mas, na boa, o filme tem muito potencial, mas é difícil ter uma estimativa de público.
Calvito Leal: É engraçado, pois as palavras de ordem do cinema nacional são "autoral", "intimista", "feminino", quando deveriam ser "congregador", "de massa". Acho que há espaço para as duas linhas, o problema é tornar a primeira como a regra, não exceção.

Porque a produção demorou cerca de seis anos?
Claudio Manoel: Na verdade, não era para ter demorado tanto assim. O maior problema foi a negociação de direitos autorais. Não há a consciência de negociação, eu ligava para as pessoas e elas não sabiam quanto cobrar nem porquê. Outro problema é a transferência dos direitos, tínhamos de negociar com netos e parentes.