Cláudio Torres

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O Pedro Buarque de Hollanda, produtor do filme, disse que te convidou para dirigir esta adaptação da peça do Domingos por acreditar que seu tipo de humor seria perfeito. Por que você acha que foi escolhido para este trabalho?
Conheço o Pedro há 300 anos. Então, o humor ao qual ele se referiu é relacionado ao nosso dia-a-dia, que é também o humor dele. Ele se interessou pela peça do Domingos Oliveira pelo que ela tinha de instigante ao lidar com esse preconceito tão brasileiro de ser corneado, que todo brasileiro tem um pouco, lidando com mais passionalidade do que um norueguês, por exemplo. Ele acreditou que eu saberia rir disso da mesma maneira que ele ria.

O trabalho do Domingos é muito relacionado ao cotidiano e você tem algo de exagerado. Como foi essa adaptação?
O Pedro, quando me chamou, tinha esta proposta. Se ele desejasse esse tratamento para o filme, chamaria o próprio Domingos para dirigir o filme, que faria isto melhor do que ninguém. Meu desafio foi como me colocar dentro disso, como adaptar um texto tão forte - de um dramaturgo que também é cineasta -; aqui dentro, não seria simplesmente um executor de um texto do Domingos. Procurei acrescentar essa camada mais barroca, acreditando que daria um certo tom de espetáculo ao filme, no sentido hollywoodiano, talvez, duma cinematografia mais dos anos 50, das comédias com a Doris Day, com uma pegada mais trabalhada como arte e atuação.

Você acha que seu trabalho em A Mulher do meu amigo foi de alguma forma também influenciada por sua experiência na publicidade?
Passei 15 anos fazendo publicidade, minha escola cinematográfica foi a propaganda. Aprendi a colocar a câmera, a me relacionar com a equipe, a fazer um calendário de trabalho que funcione, a fazer com que a equação do cinema funcione. Cinema é uma operação industrial, depende que as engrenagens - tempo, dinheiro, agendas - se comprima num fotograma. Minha escola é publicitária, na qual aprendi um monte de recursos que estão no bolso. Não tomo esta colocação como uma crítica, é uma virtude poder ter um arsenal de referências e poder rir desses referenciais. Quando coloco Marquinhos (Marcos Palmeira) correndo, uma mulher sentada na toalha e outra malhando, dou risada porque é algo que já fiz. São pedaços da vida que mostram a família feliz, só que de uma forma um pouco mais maldosa. Você pode ir além dos 30 segundos que o espaço na propaganda consegue te dar.

Foi proposital?
Não, isso é um efeito colateral involuntário. A gente rodou o filme muito rápido, foram quatro semanas e três dias, em janeiro e fevereiro de 2007. Isso vem com a mecânica normal, são os recursos que você invoca na hora em que a luz está caindo. Queria rodar o filme com luxo, queria que ele fosse visualmente competente, uma roupagem do cinema graúdo, que ofereça um bom espetáculo para quem for assistir, preocupações que o Domingos não tem. Juntando as duas coisas - me apropriando dos personagens tão ricos e conflitantes que ele criou, dando uma roupagem hollywoodiana e publicitária -, a gente fica com um filme macio de assistir, atraente visual e sonoramente.

Como foi chegar ao elenco?
O Mandrake somente coroou uma história minha com o Marquinhos que vem desde a quarta série do primário. Sem brincadeira. Temos uma vida juntos. Ele é um grande ator, sei o quanto ele é engraçado no dia-a-dia e quão poucas são as oportunidades que deram para ele fazer comédia no cinema e na televisão. Quis fazer um elenco improvável, apostar na troca das expectativas iniciais. Normalmente, a Mariana Ximenez faria a mocinha da história, o que não acontece aqui; a Maria Luiza Mendonça faria a louca e ela é a mocinha. O Otávio Muller jamais seria escalado para viver o amante da Mariana. Ninguém apoiou esta escolha: ambos são atores maravilhosos e o fato da coisa não se dar vai causar um ruído cômico. Busquei um elenco de amigos, o que respeita também a tradição do Domingos, que trabalha sua proximidade. Depois, chamamos estes atores maravilhosos e invertemos as expectativas sobre elas. A Mari tinha dito que nunca havia feito comédia, mas ela é uma comediante nata! Ela é uma atriz muito aplicada e conseguiu no filme atingir aquele tipo de comédia dos anos 50 que tanto busquei com eles nos ensaios. Fomos indo em frente com bastante verdade e ferocidade.

Fale um pouco sobre a relação de seu trabalho - desde Redentor - com o dinheiro.
Em Redentor, queria falar sobre os problemas que me incomodam particularmente em minha cidade, o Rio de Janeiro. Conheci aquele prédio, na frente daquela favela, fiz uma história por causa do absurdo que é aquele prédio vazio na frente de uma favela. Ali, queria falar sobre outras coisas também: a relação com meu pai (Fernando Torres), de amizade, competição, inveja, a cobiça... A Mulher do meu Amigo não nasceu de mim, mas de um texto que meu amigo comprou pra fazer. O filme não tem os assuntos dos quais gostaria de falar, mas sim a vontade de fazer comédia, de trabalhar essencialmente com atores, sem precisar explodir bombas atômicas ou construir prisões medievais (referindo-se a algumas cenas de Redentor). Isso é bonito na arte: você pode entrar num filme querendo simplesmente fazer uma comédia, mas, na medida em que mergulha naquela dramaturgia, acaba falando um pouco das coisas que quer dizer. A mensagem maior é um pouco o fim do filme: às vezes, a gente se coloca em situações que parecem insolucionáveis, mas, no fundo, o amor, a amizade, a compreensão dos exageros da vida deve ser buscada. Procure fazer de sua profissão algo do que você goste. A outra mensagem é: perdoe a vida em sua incongruências, nos exageros que ela te coloca às vezes.

Como você espera que o público receberá esta comédia?
Não tenho muitas expectativas. A classe mais intelectual, pensante, não vai cair de amores por ele. O filme não trata de um tema nacional nem tem uma linguagem inovadora.

Diferentemente da recepção do seu filme anterior...
Os intelectuais gostaram daquele filme, mas ele fez 250 mil espectadores. O que foi ótimo! Num retrocesso, 250 mil com aquele filme foi um milagre! Fui chamado para fazer A Mulher do meu Melhor Amigo para que ele fosse popular e me esforcei para isso. Coloquei o máximo de elementos que pude fabricar para isso. Espero que ele fique entre 100 e 350 mil espectadores. Tem gente, louca, que acha que ele fará muito mais, mas não acredito. No fundo, a maioria dos filmes faz esse número de público, como os do Woody Allen e dos irmãos Cohen. Os filmes que rompem a barreira dos 800 mil são pontos nesta curva, todos por excelência própria, mas encontraram seu momento histórico correto e uma maciça campanha de marketing, maior do que A Mulher do Meu Amigo está tendo. Testamos o filme e as pesquisas indicam que o público B e C adoram, então estamos com uma expectativa popular otimista. Eu, como gato escaldado, fico tranqüilo achando o que ele fará o que fará. Uma coisa que acho boa é que ele tem expulsado as pessoas da sala de projeção felizes. O final do filme é pra cima, tem dado uma boa carga de energia positiva na saída do filme.

Sua idéia é fazer bem ao público com essa coisa de "mensagem positiva"?<;b>
A melhor coisa que você pode ter no filme é quando as pessoas riem. Tem o aplauso e o riso. Não tem recompensa maior quando a platéia ri de algo que você fez, é droga pesada e você vai atrás daquilo de novo. Seguramente, é mais difícil fazer rir do que chorar. O cinema nasceu em parque de diversão. Vou ao cinema para me divertir. Parei com minha fase de filmes cabeça aos 21 anos. De lá pra cá, só vejo filme pipoca, virei um consumidor de filmes de diversão. As pessoas saiam griladas de Redentor, diferentemente de agora, e estou feliz com este fato.